Nossa Senhora de Dong-Lu, Imperatriz da China
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Página Mariana

Nossa Senhora de Dong-Lu,
Imperatriz da China

Em alguns casos, a devoção a uma imagem da Virgem Santíssima identifica-se com os valores mais sagrados do próprio país. Exemplo característico disso ocorre na infeliz China jugulada pelo comunismo.

Valdis Grinsteins


Um católico mexicano que não tenha devoção a Nossa Senhora de Guadalupe, ou um brasileiro que não seja devoto de Nossa Senhora Aparecida, tem algo de falho. Por quê? Porque a história dos seus países, naquilo que tem de mais importante, está ligada a essas devoções marianas. A Religião católica desses povos vincula-se de forma indissolúvel a tais devoções, como também a história de tais nações está ligada de forma igualmente indissolúvel à própria Religião católica. Qualquer livro de história do México ou do Brasil, caso omita falar das mencionadas devoções, cometerá grave falha.

Sem chegar a essa identificação, mas a caminho dela, há outras devoções disseminadas pelo mundo todo. Entre estas, uma das mais notáveis é a devoção a Nossa Senhora de Dong-Lu (ou Tong-Lu), na China vermelha. Esta devoção está ficando de tal forma ligada a todos os sofrimentos e provações da Igreja católica na China, por sua fidelidade a Roma, que é compreensível venha a ser considerada no futuro a devoção por excelência dos católicos chineses.

A questão do nacionalismo chinês

Um pouco de história ajudará a entender esta ligação. Quando os primeiros missionários começaram a evangelizar a China, depararam com o problema do nacionalismo. A China é, inegavelmente, centro de uma cultura milenar muito rica e variada. Mas um nacionalismo mal entendido transformou a defesa dessa cultura, em certo sentido admirável, numa rejeição a tudo que não fosse chinês; como se não houvesse valores universais, ou como se tudo o que é produzido no país fosse, por este mesmo motivo, necessariamente bom. Esta deformação do nacionalismo se alastrou para a esfera religiosa, com conseqüências funestas.

A Religião católica completa a rica cultura chinesa, da mesma forma como a torre do campanário completa uma catedral. Mas o nacionalismo pretendia que ela deformaria a cultura chinesa, e todo chinês que aderisse à verdadeira Religião — a católica — seria um traidor da pátria e das tradições chinesas. Por este motivo, várias perseguições de fundo nacionalista foram empreendidas contra a Igreja na China, em particular contra os católicos chineses. E a perseguição de 1900, conhecida como “perseguição dos boxers” (os nacionalistas organizavam-se em clubes desportivos, que praticavam artes marciais, boxe, etc), foi uma das mais terríveis. Fez milhares de mártires — 30.000, segundo algumas fontes —, entre eles cinco bispos, 130 sacerdotes e numerosos fiéis.

Nossa Senhora Imperatriz da China

Mártires católicos durante a rebelião dos boxers na China
Foi justamente durante essa perseguição que se deu uma aparição de Nossa Senhora. Em junho de 1900, os boxers anticatólicos decidiram eliminar Dong-Lu, a uns 200 km ao sul de Pequim, povoado de maioria católica, onde residiam umas 700 pessoas às quais se tinham somado cerca de 9.000 refugiados. Lá os padres vicentinos tinham começado uma missão, e na sua maioria os habitantes eram muito pobres. Vários milhares de perseguidores cercaram a cidade, e quando mais se temia que nela entrassem e massacrassem os habitantes, os perseguidores viram Nossa Senhora pairando sobre o povoado, rodeada de uma multidão de anjos. Dispararam alguns tiros contra Ela, obviamente sem efeito. Depois disso fugiram em debandada.

Para agradecer a Nossa Senhora por tê-los salvo do perigo, os habitantes construíram um santuário em honra da Virgem. E o pároco do local mandou fazer uma imagem representando Nossa Senhora vestida com os trajes de imperatriz, que passou a ser venerada no santuário.

Faltava, porém, a aprovação das autoridades eclesiásticas ao fato miraculoso ocorrido então. Em 1924, reuniu-se em Shangai o sínodo dos bispos chineses. O bispo jesuíta Henri Lecroart propôs que fossem consagrados a Nossa Senhora a China, a Mongólia, a Manchúria e o Tibet, sob a invocação de Nossa Senhora Imperatriz da China. A proposta foi aceita, e em junho 150 bispos, tendo à frente o Núncio Apostólico, Mons. Celso Constantini, fizeram a consagração. Posteriormente, em 1932, o Papa Pio XI elevou o santuário de Dong-Lu à categoria de local oficial de peregrinação. Em 1941, o Papa Pio XII concedeu à Igreja da China uma festa em honra de Maria Medianeira de todas as graças, sob o título de Santa Mãe, Imperatriz da China.

O curioso é que são três fatos diferentes: um é o santuário reconhecido como de peregrinação oficial; outro, uma festa litúrgica; e o terceiro, uma consagração do país. Mas na devoção popular todos se fundiram num só, e Dong-Lu passou a representar os três fatos conjuntamente.

Situação na China comunista

Mas a história não termina ali. Com a ascensão dos comunistas ao poder, a situação da Igreja na China piorou tremendamente. Nova onda de perseguição ocorreu em todo o país. Seguindo a tradição de deformar o nacionalismo, os comunistas criaram uma falsa igreja católica paralela, denominada Igreja Patriótica, cuja característica principal consiste em rejeitar a submissão ao Papa, considerado como um estrangeiro. Por isso mesmo, a verdadeira Igreja católica na clandestinidade faz questão de se mostrar fiel a Roma. E a forma de manifestar essa atitude é, por excelência, peregrinar ao único local de todo o país reconhecido oficialmente pelo Papa — o santuário de Dong-Lu — e rezar a Nossa Senhora da China. Além do mais, ali se encontram os restos mortais de 40 dos 120 mártires canonizados no ano 2000 por João Paulo II. Tudo isto faz com que a fidelidade ao Papa e a devoção mariana caminhem juntas.

As autoridades comunistas promoveram verdadeira guerra contra os peregrinos: bloqueio de estradas, prisões, agressões, etc. Chegaram a confiscar dos fiéis católicos que iam ao santuário as licenças de motoristas. Mas nada deteve o fluxo de fiéis. O ano de 1995 marcou o auge dessas peregrinações. Cerca de 100.000 pessoas peregrinaram até o santuário. Foi por isso que, em 1996, os comunistas decidiram externar seu ódio anticatólico. 5.000 soldados, com tanques e helicópteros, cercaram o santuário, que foi demolido completamente. A imagem de Nossa Senhora foi seqüestrada. O bispo local, Su Chimin, bem como seu bispo auxiliar, An Shuxin, e o pároco do Santuário, Pe. Cui Xingang, foram aprisionados e passaram numerosos anos na prisão.

Atualmente as peregrinações continuam. Mesmo estando o local completamente cercado, e até proibida a venda de passagens de trem para os católicos, numerosas pessoas continuam tentando realizar a peregrinação. A própria perseguição torna mais atraente o local, sendo, por excelência, a forma de manifestar fidelidade à fé católica e ao Papado.

Devemos rezar pela perseverança de nossos irmãos na fé, que  são vítimas de tão desapiedada perseguição, e pedir à Santa Virgem que torne essa devoção um símbolo da verdadeira China católica.

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