Julho de 2010
O significado mais profundo da Descoberta do Brasil
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Entrevista

O significado mais profundo da Descoberta do Brasil

Entrevista com Dom Luiz de Orléans e Bragança, 
Chefe da Casa Imperial do Brasil

Catolicismo sente-se honrado ao publicar em suas páginas a entrevista com um descendente de Dom Manuel, o Venturoso, Monarca português em cujo reinado providencialmente foi descoberta a Terra de Santa Cruz.

  E ninguém é mais capacitado, a vários títulos, para falar sobre o V Centenário do Descobrimento de nossa Pátria, do que o Chefe da Casa Imperial brasileira e membro da ilustre dinastia de Bragança, que sucedeu à dinastia de Aviz, sob cujo reinado o Brasil nasceu para a História.

Rendemos aqui nossa homenagem ao Príncipe Dom Luiz de Orléans e Bragança e agradecemos suas abalizadas palavras sobre um tema tão grato a todos nós, explanado por ele com sabedoria e penetração de espírito.

*    *    *

CatolicismoHá quem diga que seria melhor para o Brasil ter sido descoberto por países como a Holanda, a Inglaterra ou a Alemanha, porque assim nosso País seria hoje mais rico e adiantado. O que pensar disso?

Dom LuizEm primeiro lugar, é preciso dizer que o principal para um país não é tanto o progresso econômico, quanto professar a verdadeira Religião. O fato de o Brasil ter sido descoberto pelos portugueses trouxe a nosso País o inestimável dom da Fé católica apostólica romana. Mas não apenas isso, trouxe-nos também, com a índole bondosa, afetiva, do português, todas as suas características de bom senso e de capacidade de miscigenar-se; trouxe para nossa terra toda uma mentalidade, todo um modo de ser, que é muito diferente, e a meu ver superior, ao modo de ser dos países de origem protestante.

Basta dizer que, na realidade, em nosso País não houve problemas raciais. Apesar do fato de alguns índios, no começo, terem sido escravizados, contra a vontade da Igreja e contra a vontade do Rei, apesar de os negros terem sido trazidos para cá – embora vendidos por chefes de tribos rivais, na África, a mercadores –, e vivido num regime de escravidão,  nunca tivemos problemas raciais. Pois não era por ódio racial que eles eram escravizados, e sim por condições sócio-econômicas da época, conforme hoje explanam os historiadores.

Nosso País, embora não seja o mais rico do mundo – apesar de nossa riqueza ser bem considerável –, a despeito de não estar, por assim dizer, na ponta do progresso material, apresenta em seu ambiente um bem-estar de vida que outros países não têm. O ideal de convívio, arraigado na alma brasileira, o ideal do bem-querer, o ideal de aceitação de tudo quanto há de bom nos outros fez com que viessem para cá imigrantes das mais variadas partes do mundo, se sentissem à vontade e se assimilassem ao nosso povo.

Comparem isso com certos países colonizados pela Holanda, ou pela Inglaterra. Os Estados Unidos tiveram uma Guerra da Secessão, apresentam problemas raciais até hoje. A África do Sul enfrentou problemas raciais, bem como  uma discriminação muito forte. Na Indonésia, onde a Holanda se estabeleceu depois dos portugueses, a miscigenação praticamente não se deu.

A meu ver, nosso País foi privilegiado por ter sido descoberto pelos portugueses e colonizado por um povo autenticamente católico.

 

Catolicismo – Alguns historiadores afirmam que a conversão do continente americano foi um milagre. Não deixa de ser realmente espantoso o fato de missionários terem percorrido distâncias tão grandes para converter tanta gente. O que pensar dessa afirmação?
Dom Luiz
Toda conversão é um fenômeno sobrenatural. É uma graça de Deus e, portanto, algo que naturalmente é inexplicável. Toda conversão individual é já um milagre. O fato dessas conversões na América terem se dado em tão grande quantidade, mostra uma predileção da Providência em relação aos nossos países, da América do Sul e da América Central. Os missionários que aqui vieram eram de primeira ordem. Basta citar um Nóbrega, um Anchieta, um São Francisco Solano no Peru, e tantos outros, que percorreram estas vastidões evangelizando os índios, convertendo-os, trazendo-os para a verdadeira Fé, ensinando-os, dando-lhes também os rudimentos de civilização, de conforto, para tirá-los da barbárie em que viviam. Eu acredito que eles foram poderosamente auxiliados, eles também, por uma graça especial.

Várias cidades – entre as quais a principal é São Paulo – foram fundadas por missionários. São Paulo foi fundada por Anchieta, todos o sabem, e  tornou-se a maior metrópole da América do Sul.

Há um fator que ajudou muito o trabalho missionário em nosso Continente. Na Europa acabara de eclodir a revolta protestante, que afastou da Igreja pelo menos um terço dos países europeus. E Santo Inácio de Loyola em primeiro lugar, e também os outros Gerais de Ordens religiosas que enviaram missionários para a América, sentiram que era preciso praticar um revide, conquistar para a Religião católica áreas novas que compensassem a perda que ela tinha sofrido com a revolta protestante. E por isso mandaram para cá os seus melhores elementos, o que pode explicar, também de uma maneira natural, o sucesso que eles tiveram.

 

Catolicismo  Certos autores asseveram que os objetivos da expansão marítima portuguesa eram econômicos, encobertos sob uma capa religiosa. Essa será uma visão da realidade histórica?

Dom Luiz – É uma visão totalmente distorcida. De fato houve um certo interesse econômico nessas viagens, nessas explorações. Entretanto, não era isso o primordial, era mais um meio para auto-financiar esses descobrimentos. A origem dos descobrimentos, o início da conquista portuguesa no Ultramar se deu com a conquista de Ceuta, que era um ninho de piratas que fechava a entrada do Mediterrâneo.

A História conta que os Infantes D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique, devendo ser armados cavaleiros, pediram a seu pai, o Rei D. João I, que a cerimônia se desse depois de uma façanha de armas. Não um torneio de faz-de-conta, mas uma empresa em defesa da Fé, em defesa da civilização cristã. E propuseram a conquista de Ceuta. D. João I, antes de se lançar nessa empresa, fez questão de consultar teólogos, moralistas, canonistas, e a própria Santa Sé, não para saber se essa conquista era vantajosa economicamente, politicamente, mas se era “do serviço de Deus”. E foi só depois de ter obtido uma resposta afirmativa que ele começou a organizar a esquadra. As outras conquistas, as outras navegações, que no começo foram impulsionadas pelo Infante D. Henrique, que era Grão-Mestre da Ordem de Cristo, tinham o mesmo espírito. Era muito mais para expandir a Fé do que para angariar riquezas.

 

Catolicismo  – O que havia de heroísmo, no sentido católico,  na viagem de Cabral e nas outras navegações lusas? Nelas o heroísmo primava sobre o mero espírito de aventura?

Dom Luiz – É evidente que o heroísmo primava sobre o espírito de aventura. Como já disse, o ideal de expansão da Fé era o que movia esses navegadores, o que impulsionava esses guerreiros. Era, no fundo, a continuação do empuxo vindo da Reconquista que expulsara do território metropolitano o invasor mouro. Terminada a Reconquista do território metropolitano, Portugal, com o mesmo ímpeto, com o mesmo espírito de defesa da Fé, lançou-se na África, e além da África, na Ásia, e de passagem no Brasil.

Um mero espírito de aventura não explica tudo isso. Havia um ideal religioso por trás. Considere só esse dado: dois terços das tripulações dos navios portugueses que zarpavam em direção à Índia pereciam no caminho de ida ou de volta... Ora, arriscar tanto, só por dinheiro, ninguém o faz. É que havia por trás um ideal religioso.

 

Catolicismo  – Alguns autores asseguram que  Portugal era um país atrasado na época dos Descobrimentos marítimos. Como explicar, então, ter sido ele o único que empreendeu navegações tão arriscadas, e cujos navegadores percorreram distâncias tão longas?

Dom LuizPortugal não era atrasado. Basta dizer que o desenvolvimento das caravelas, essa nave pequena, rápida, resistente às tempestades, muito própria a navegar contra ventos contrários, foi realizado em Portugal. O astrolábio, o sextante, a bússola, tudo isso, estava lá muito aperfeiçoado. O sistema de cartografia, a observação dos astros para orientação das naus também foram desenvolvidos em Portugal, mais especialmente na chamada Escola de Sagres. Nada disso constitui sintoma de um país atrasado.

O que explica, a meu ver, que um país tão pequeno tivesse empreendido navegações tão arriscadas e alcançado terras tão longínquas quanto o fez Portugal, foi  um desígnio da Providência Divina em relação a esse mesmo povo.

O empuxo português para essas navegações, para tais conquistas, é um ímpeto movido por algo de sobrenatural.

 

Catolicismo – A Ordem de Cristo é herdeira da Ordem dos Templários. Teria a Providência Divina com isto algum desígnio, considerando-se o fato de o Brasil haver sido descoberto com a cooperação de uma Ordem de Cavalaria?

Dom LuizO fato de a Ordem de Cristo ter sido herdeira da Ordem dos Templários revela algo de muito bonito na História, que é a continuidade dos ideais. A Ordem do Templários foi a Ordem de Cavalaria, de cruzados por excelência. Ela decaiu no século XIV e foi fechada pelo Papa Clemente V, por influência do Rei da França. Entretanto, seus melhores elementos conseguiram escapar ao iníquo processo que lhes foi movido na França e se refugiaram em Portugal. O Rei D. Diniz teve o bom senso de acolhê-los e, com autorização da Santa Sé, fundar a Ordem de Cristo. Eis aí mais um indício de que as navegações portuguesas eram, no fundo, uma continuação da epopéia das Cruzadas. O ímpeto que levava os navegadores portugueses era, em última análise, o ímpeto cruzado. As naus portuguesas ostentavam nas suas velas a Cruz de Cristo, que era a Cruz da Ordem à qual pertenciam seus capitães, a qual também financiava, junto com a Coroa, esses empreendimentos.

O Brasil, antes de ser território português, foi território da Ordem de Cristo. Ele pertencia ao Rei de Portugal, porque o Rei era Grão-Mestre da Ordem de Cristo, e não porque era Rei de Portugal. Foi só no século XVII que o Brasil  tornou-se um território ultramarino do Reino de Portugal, e no século XIX tornou-se Reino-Unido. Mas a origem do Brasil, como a origem de todos os territórios ultramarinos, de todas as conquistas de Portugal na África, na Ásia, na Oceania, foi um empuxo cruzado, o empuxo missionário que a Ordem de Cristo trazia consigo desde a Idade Média, que havia herdado da Ordem dos Templários e desenvolvido em Portugal.

 

Catolicismo – Poder-se-ia conjecturar qual teria sido a História do Brasil se não ocorresse o descobrimento e a colonização portuguesas?

Dom LuizÉ muito difícil fazer conjecturas nessa linha. Se o Brasil não tivesse sido descoberto por portugueses, certamente teria sido descoberto mais tarde por espanhóis, ou por franceses, ou então por ingleses, ou holandeses, e nossa história teria sido completamente diferente. Não haveria povo brasileiro como ele é atualmente, um povo bondoso, afetivo, com grande senso dos universais, muito inteligente, intuitivo, propenso a compreender todos os outros povos e acolhê-los. Entretanto, se o Brasil não tivesse sido descoberto por nenhum povo europeu, é de se temer que as tribos indígenas que aqui viviam, e que se entredigladiavam, se entredevoravam e se guerreavam – escravas dos piores vícios –, pouco a pouco fossem se extinguindo, ou se degradando ainda mais, até um ponto que é meio inimaginável.

Analisando-se a situação dos índios, é preciso dizer que eles praticavam a antropofagia, possuíam escravos – aliás, muitos dos escravos índios, reduzidos a esse estado pelos portugueses contra a vontade da Coroa e dos missionários, principalmente os Jesuítas –, eram comprados das tribos de que já eram escravos,  tribos que haviam vencido suas próprias tribos.

Assim, entre os índios praticava-se a antropofagia, verificando-se também a escravidão, o homossexualismo, a promiscuidade sexual, uma coisa espantosa. Observavam-se algumas práticas abomináveis, como uma que subsiste hoje em dia – pelo menos subsistia há 10 anos – quando estive no Amapá: certa tribo,  quando nascia uma criança mongolóide, o recém-nascido era enterrado vivo, para que não causasse trabalho a outras pessoas.

Tudo isso revela que os nossos queridos indígenas, por causa do paganismo, tinham atingido uma grande degradação, havendo o perigo de degradar-se ainda muito mais. Para eles, a vinda dos portugueses, dos missionários, representou enorme benefício mesmo do ponto de vista do que hoje chamam os “direitos humanos”.

 

Catolicismo – Historiadores marxistas afirmam que o Brasil foi invadido e conquistado e não descoberto, tendo os índios sidos dizimados e escravizados, e que eles mais perderam que ganharam no contato com o mundo civilizado. Como refutar essa posição histórica de cunho marxista?

Dom Luiz  Em fins da década de 70, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira lançou um livro – Tribalismo Indígena, ideal comuno-missionário para o Brasil do século XXI – no qual magistralmente refuta essa posição. Essa obra  patenteia o grande lucro que obtiveram os silvícolas, saindo das trevas do paganismo e da barbárie para alcançarem os esplendores da Fé verdadeira e os benefícios da Civilização Cristã.

Os marxistas defendem a tese de que tudo no mundo se faz através de  lutas, pela dialética inerente, segundo eles, à própria ordem do ser.

De fato, as coisas não se  passaram assim. Os portugueses aqui chegando, em primeiro lugar tentaram converter os índios. Trouxeram missionários e ajudaram os indígenas a se elevar a um nível cultural muito superior. Houve a escravidão, mas ela foi combatida tanto pelo Rei quanto pelos missionários jesuítas.

Também não se pode dizer que foi uma conquista. A conquista supõe que um povo seja dono de um território e seja espoliado dessa propriedade. Ora, os índios eram nômades, não tinham o senso da propriedade, não se firmavam em um determinado território, mas perambulavam por essas vastidões imensas, sem tomar realmente posse da terra. E é normal que, advindo um povo com senso da propriedade, aproveitasse esse imenso espaço livre e se estabelecesse aqui. Isto não é conquista, é tomada de posse.

É preciso acrescentar que os portugueses, chegando ao Brasil como já o disse, não tentaram guerrear os índios, mas, ao contrário, estabeleceram com eles boas relações. Como já estava presente nas instruções do Rei de Portugal, e que consta, aliás, da carta de Pero Vaz de Caminha, a maior conquista que os lusos poderiam fazer nestas bandas, o maior bem que eles poderiam tirar desta descoberta, era a salvação das almas dos pobres silvícolas que viviam imersos no paganismo. Isso é o contrário da luta de classes, da dialética marxista. É a caridade cristã que estava chegando a nosso território.

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