Janeiro de 2017
2016: o mundo e a Igreja em meio a incêndios
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Mais ameaças do Oriente

A partir do sul do Mediterrâneo, as invasões e o terror chegavam à Europa ex-cristã. Mas não eram melhores as notícias provindas do Leste. A “guerra híbrida” do Kremlin e a infiltração russa em ambientes políticos considerados imunes a Moscou constituíram fonte de contínua preocupação. A NATO dispôs um escudo antimíssil no Leste Europeu e Putin respondeu com o anúncio do míssil “Satan-2”, capaz de destruir a França ou o Texas, enquanto a mídia oficial russa preparava o país para um “holocausto atômico” ([xxxvii]).

Enquanto isso, os assassinatos políticos de dissidentes prosseguiam,a mando do Kremlin, na Rússia e no exterior ([xxxviii]). A participação russa na derrubada do avião MH-17 da Malaysia Airlines, em 2014, ficou patente no inquérito internacional publicado pela Holanda em setembro ([xxxix]). O partido de Vladimir Putin se atribuiu esmagadora maioria nas eleições do mesmo mês, sem incomodar-se com as fraudes largamente documentadas na Internet ([xl]). Ato contínuo o chefe do Kremlin deixou transparecer a criação de uma nova KGB com 400 mil homens, que agiriam sob suas ordens para reprimir as oposições populares ([xli]).

Com o auxílio do Patriarcado de Moscou, Putin prosseguiu na sua tentativa de ludibriar os crescentes sentimentos religiosos. Entre outros golpes de propaganda, financiou a construção de uma catedralortodoxarussaàsmargensdoRio Sena, em Paris ([xlii]) e a ereção de uma gigantesca estátua a São Vladimir junto às portas do Kremlin ([xliii]).

Na China — devorada por crises econômicas indisfarçáveis, agitada por dezenas de milhares de motins operários e camponeses, com o Partido Comunista sendo abandonado pela juventude e o cristianismo crescendo a taxas exponenciais —, a ditadura comunista procurou uma escapatória mediante a expansão militar nos mares do Oriente. Invadiu arquipélagos de países vizinhos, criou ilhas artificiais com aeroportos e bases militares, bem como provocou atritos navais com aviões e barcos de guerra americanos.

O tribunal de arbitragem de Haia julgou que a China não tinha base legal para reclamar “direitos históricos” na principal de suas disputas marítimas. Escarnecendo, contudo, do referido tribunal, o regime de Pequim continuou violando direitos dos vizinhos militarmente mais fracos e chegou a provocar a marinha japonesa ([xliv]). Por outro lado, a perseguição religiosa anticristã atingiu mais de dois mil templos, que foram demolidos ou tiveram suas cruzes arrancadas, embora sempre defendidos corajosamente pelos fiéis.

 

EUA: fim de uma era

Os EUA conheceram sua mais renhida eleição presidencial, marcada pelo baixíssimo nível de objurgatórias mútuas entre os candidatos. Acentuou-se a desmoralização da democracia. Considera-se que tal regime político atingiu através dos EUA uma preponderância mundial. Em atritos raciais, suspeitos atiradores mataram cidadãos e policiais, além de atiçarem um clima de “guerra civil” social e racial, com a participação de veteranos do Afeganistão e de simpatizantes do extinto “Black Power”. ([xlv]). O presidente Barack Obama a qualificou de uma guerra civil larvada no país.

“Não pense que se trata de um fenômeno apenas norte-americano”, comentou um diário paulista, “só em 2015, a polícia do Rio matou 645 pessoas” ([xlvi]).

Um vendaval midiático apostou todas as fichas na vitória de Hillary Clinton — a mais esquerdista dos candidatos viáveis nas últimas eleições presidenciais. Seu opositor Donald Trump escolheu como chefe de sua campanha um agente da Rússia. E pediu “ajuda” de Putin para espionar os e-mails de sua adversária, prometendo uma política internacional do agrado do expansionismo de Moscou ([xlvii]).

Esse escândalo — entre outros — obrigou-o a mudar de equipe e nomear defensores da vida que maquiassem sua imagem. Trump surpreendeu e foi eleito presidente, contrariandoquase todososinstitutosdepesquisa, a grande mídia e oráculos de nomeada mundial ([xlviii]). Seu partido renovou o comando do Legislativo obtendo a maioria mais ampla no Congresso em 80 anos. Trump poderá assim transformar elementos fundamentais das políticas externa, econômica e social dos EUA.

 Os grandes partidos saíram fendidos e distanciados da população, com riscos de uma“guerra civil” ([xlix]). Tão logo foi eleito, Trump criou incertezas sobre a efetivação de suas promessas eleitorais, nomeando futuros ministros que prometem mexer a fundo em temas polarizadores, como o aborto, defesa e ecologia.

A mídia mundial calculou mal o pulso do eleitor. Ojornalismo não percebeu as tendências profundas da opinião pública; personalidades de gabarito não capturaram a raiva que fervilhava no eleitorado em face do “politicamente correto”, desrespeitador da cultura e dos estilos de vida tradicionais ([l]). A maioria silenciosa menosprezada tornou-se estridente nos EUA, a exemplo do que aconteceu no Brexit ([li]).

O descontentamento com ideologias niveladoras cruzou as fronteiras e passou a ser explorado por líderes que compuseram uma “Internacional Populista”. Esta tem conexões na Rússia e em Estados autoritários que desprezam o Ocidente e suas instituições, como a outrora Internacional Comunista ou o Komintern, e veio para ficar, comentou “O Globo” ([lii]).

A situação rumo a 2017 ficou tão diversa de tudo o que se conheceu, que o diário esquerdista “The New York Times” publicou com destaque matéria propondo o estabelecimento de uma monarquia nos EUA segundo o modelo canadense, para tirar o país da instabilidade em que se encontra ([liii]). Essa preocupante decalagem entre governantes e governados não foi exclusividade da Europa e dos EUA; ela eclodiu também, com ribombo, na América do Sul.

 

Argentina: início de reação continental

No início de 2016, ocupou a presidência da Argentina o opositor Mauricio Macri, de centro-direita, que havia derrotado contra todos os prognósticos o candidato apoiado por Cristina Kirchner ([liv]). Macri assumiu posição contrária ao regime chavista da Venezuela e a outros ditadores “bolivarianos” ([lv]). E foi eleito não tanto por prestígio próprio quanto pela insatisfação com a brutalidade esquerdista do populismo peronista ([lvi]).

Nem mesmo uma manipulação in extremis, através de gestos do Papa Francisco a favor do candidato populista, conseguiu salvá-lo da derrota ([lvii]). O mal-estar em relação ao Pontífice tomou conta da Argentina, devido à acolhida fria e até contrariada que ele concedeu ao novo presidente, contrastante com o calor com que recebia a populista Cristina Kirchner ([lviii]). O Vaticano não pôde ocultar a surpresa ante o volume das queixas populares contra o pontífice argentino, apontado por seus compatriotas como “protetor de delinquentes” após apoiar uma líder indígena envolvida com a corrupção do governo Kirchner e com crimes de sangue ([lix]).

Em 2016, a Argentina assistiu com pasmo às descobertas do formidável esquema de corrupção ideológica e administrativa dos governantes kirchneristas. Estes tentaram se apoiar no Papa Francisco e até esconder ridiculamente milhões de dólares, joias e armas num convento de supostas “freiras”, onde se realizaram algumas das maiores negociatas do regime peronista ([lx]). O caso argentino precedeu tendências análogas que crepitavam no Brasil, com força talvez ainda maior.

 



[i]
) O Globo, 23-3-16.

[ii]) ABC, 23-3-16.

[iii]) O Estado de S. Paulo, 20.11.2015.

[iv]) O Globo, 20-11-2015.

[v]) El País, 5-1-16; Le Figaro, 6-1-16.

[vi]) Folha de S. Paulo, 11-1-16.

[vii]) O Globo, 23-11-15.

[viii]) Folha de S. Paulo, 16-2-16.

[ix]) Folha de S. Paulo, 16-7-16.

[x]) O Estado de S. Paulo, 15-7-16.

[xi]) O Globo, 16-2-16.

[xii]) Folha de S. Paulo, 16-7-16.

[xiii]) Folha de S. Paulo, 15-7-16.

[xiv]) Folha de S. Paulo, 25-3-16.

[xv]) Folha de S. Paulo, 27-7-16.

[xvi]) Folha de S. Paulo, 23-7-16.

[xvii]) O Estado de S. Paulo, 25-7-16 .

[xviii]) O Estado de S. Paulo, 13-6-16.

[xix]) Folha de S. Paulo, 24-7-16.

[xx]) Folha de S. Paulo, 31-12-2015.

[xxi]) O Estado de S. Paulo, 9-4-16.

[xxii]) O Estado de S. Paulo, 29-10-16.

[xxiii]) O Globo, 5-1-16.

[xxiv]) Folha de S. Paulo, 7-12-15.

[xxv]) O Globo, 14-3-16.

[xxvi]) Folha de S. Paulo, 19-9-16.

[xxvii]) O Estado de S. Paulo, 5-9-16.

[xxviii]) O Estado de S. Paulo, 6-9-16.

[xxix]) O Globo, 20-6-16.

[xxx]) O Estado de S. Paulo, 27-6-16.

[xxxi]) O Globo, 25-6-16.

[xxxii]) O Globo, 26-6-16; O Estado de S. Paulo, 3-7-16.

[xxxiii]) O Estado de S. Paulo, 25-6-16.

[xxxiv]) O Globo, 28-6-16.

[xxxv]) O Estado de S. Paulo, 11-9-16.

[xxxvi]) O Estado de S. Paulo, 18-7-16.

[xxxvii]) O Estado de S. Paulo, 9-7-16.

[xxxviii]) Folha de S. Paulo, 27-8-16.

[xxxix]) O Globo, 29-9-16.

[xl]) O Globo, 19-9-16.

[xli]) Deutsche Welle, 22-09-16.

[xlii]) Folha de S. Paulo, 24-9-16.

[xliii]) The Guardian, 4-11-16.

[xliv]) Folha de S. Paulo, 13-7-16.

[xlv]) O Estado de S. Paulo, 8 e 9-7-16.

[xlvi]) Folha de S. Paulo, 10-7-16.

[xlvii]) O Estado de S. Paulo, 28-7-16.

[xlviii]) O Estado de S. Paulo, 9-11-16.

[xlix]) O Globo, 9-11-16

[l]) Folha de S. Paulo, 9-11-16.

[li]) Folha de S. Paulo, 9.11.16.

[lii]) O Globo, 8-11-16.

[liii]) O Estado de S. Paulo, 8-11-16.

[liv]) Folha de S- Paulo, 23-11-15.

[lv]) O Estado de S. Paulo, 23-11-15.

[lvi]) Folha de S. Paulo, 23-11-15.

[lvii]) O Estado de S. Paulo, 23-11-15.

[lviii]) O Globo, 28.2-16.

[lix]) Clarín, 21-2-16; Infobae, 27-2-16.

[lx]) O Estado de S. Paulo, 14-7-16.

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