Janeiro de 2017
2016: o mundo e a Igreja em meio a incêndios (continuação)
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Igreja: da “misericórdia” à “guerra civil”

O ano de 2016 foi marcado na Igreja Católica pelo Jubileu da Misericórdia, mediante o qual o Papa Francisco acabou por debilitar ainda mais as defesas da moral católica, em continuidade ao Concílio Vaticano II. Um dos mais dramáticos aspectos de seu pontificado consistiu na criação da ilusória existência de “dois Papas”: o reinante e o demissionário Bento XVI ([xxxv]).

Em fevereiro, o Pontífice assinou em Havana uma Declaração Comum com o patriarca cismático Kirill, de Moscou, formado na escola da KGB. Os católicos ucranianos sentiram-se “traídos”, manifestando uma “decepção profunda”, pois a declaração adotava os pontos de vista da Rússia, que havia invadido a Ucrânia ([xxxvi]). Para “The Economist”, o Papa pareceu abaixar-se para beijar o anel de Putin ([xxxvii]). Também foi sentido como um apoio à sanguinária intromissão da Rússia no conflito do Oriente Médio e uma desqualificação do esforço para trazer os cismáticos “ortodoxos” de volta à Igreja Católica ([xxxviii]).

Prosseguindo sua agenda de viagens, o Papa Francisco pediu no México desculpas pelos crimes que a Igreja Católica teria cometido contra os indígenas durante a evangelização e pelas “sistemáticas” expropriações de suas terras pelos missionários e colonizadores ([xxxix]). Sua Missa na praça central da capital mexicana contou com reduzido público. Em seu retorno do México, em mais uma entrevista no avião, o Pontífice afirmou que “Paulo VI permitiu às freiras usar anticonceptivos” e que “evitar a gravidez não é um mal absoluto” ([xl]).

Tal declaração provocou muita estranheza nos meios católicos. O escândalo espalhou-se na Igreja e o porta-voz da Santa Sé, Pe. Lombardi S.J., emitiu desmentidos que não conseguiram corrigir o mal da declaração, explorada pela mídia anticatólica e pelo progressismo dito católico. Dom Leonardo Steiner, secretário-geral da CNBB, declarou que o pronunciamento do Papa em defesa dos contraceptivos “ainda não é norma”, mas que poderia aplicar-se diante do surto do vírus da zika ([xli]).

Em junho, o Papa provocou outra polêmica ao afirmar que a “grande maioria” dos casamentos católicos atualmente é inválida ([xlii]). No mesmo mês, defendeu que a Igreja deveria buscar o perdão dos homossexuais, pelo modo como os teria marginalizado ([xliii]). E em agosto, em nome detodos os católicos, pediu perdão a 20 ex-prostitutas ([xliv]). Aindaem agosto, criou uma comissão para tentar redigir um estatuto de diaconato para mulheres, embora reconhecendo que, pela doutrina católica, é impossível ordenar “sacerdotisas” ([xlv]).

Em outubro, no avião de retorno da Geórgia, o Pontífice apresentou o caso de uma transexual “casada” que ele recebeu no Vaticano, regozijando-se pelo fato de a dupla ter saído “contente” da audiência. Mas verberou o velho sacerdote que lembrava a verdade à transexual ao lhe dizer:“Irás al infierno” ([xlvi]). O esquema dos desmentidos inconclusivos voltou a repetir-se em vários casos análogos.

Também em outubro, o Papa Francisco recebeumil luteranos em Roma, ocasião em que uma estátua do heresiarca Martinho Lutero figurou pela primeira vez no recinto sagrado do Vaticano. O Pontífice condenou o proselitismo católico como sendo “o veneno mais forte contra o caminho ecumênico”. Entretanto foi precisamente o proselitismo que redundou na glória de Santo Inácio, de Santa Teresa de Jesus, do Concílio de Trento e dos heróis católicos da Contra-Reforma. “Não élícitoconvencer[o outro] detua fé”, completou ([xlvii]).

O gesto do Pontífice precedeu sua viagem a Lund, na Suécia, para comemorar o 500º aniversário da revolução do heresiarca Lutero, que abriu um imenso sulco de calamidades seguidas pela Revolução Francesa, a Comunista e a de Maio de 1968 na França. Na linha de pensamento do Pontífice, os bispos católicos da Alemanha publicaram um livro elevando o pai do protestantismo à condição de “testemunha do Evangelho e mestre da fé”, além de defenderem que há “consenso em que as condenações anteriores não tenham sido válidas”([xlviii]).

Em novembro, o Papa Francisco encerrou no Vaticano o III Encontro Mundial de Movimentos Populares, que reuniu mais de 200 agitadores esquerdistas de 60 países. O Pontífice lançou um apelo inflamado em favor das “mudanças de estruturas” e vituperou repetidas vezes o regime de propriedade privada e de livre iniciativa, apresentando-os como “um terrorismo de base” fundado no “ídolo dinheiro” que atenta contra toda a humanidade. No mesmo discurso, ele não fez ao islamismo qualquer acusação de terrorismo ([xlix]).

Tratamento de todo desfavorável dispensou aos que não partilhavam de suas aberturas ao erro moral ou à agitação social. Diversos eclesiásticos ou leigos ativos acabaram sendo “misericordiados” — segundo neologismo cunhado durante o ano —, ao se lhes retirarem cargos, dioceses ou funções. ([l]).

O então pré-candidato Donald Trump foi acusado pelo Papa Francisco de “não ser cristão”, devido à sua proposta sobre a imigração nos EUA ([li]).

 

“Amoris laetitia” e cisma progressista

Em março, o Papa Francisco assinou a exortação pós-sinodal Amoris laetitia, recebida como um “documento catastrófico”, segundo o historiador italiano Roberto de Mattei. Ela abriu as portas para que divorciados que vivem em adultério possam receber a Sagrada Eucaristia, adotou a condenada “moral de situação” e facilitou o reconhecimento de qualquer forma de convivência extramarital ([lii]).

Dom Atanásio Schneider condensou a recusa que a Tradição e o Magistério milenar da Igreja impõem a tão gravíssimo abuso:Non possumus! Não aceitarei um ensinamento ofuscado nem uma abertura habilmente disfarçada da porta dos fundos para que por ela passe uma profanação dos Sacramentos do Matrimônio e da Eucaristia. [...] não aceitarei um escárnio do Sexto Mandamento da Lei de Deus. Prefiro ser ridicularizado e perseguido a ter de aceitar textos ambíguos e métodos insinceros”.

No mês de julho, 45 pastores de almas, teólogos e filósofos católicos de todo o mundo entregaram aos 218 cardeais e patriarcas orientais uma lista de teses incluídas naAmoris laetitia, imputáveis, segundo o caso, de heréticas, falsas, contrárias às Escrituras, escandalosas, perniciosas, ímpias, blasfemas, contrárias aos usos e costumes eclesiásticos e outros crimes canônicos ([liii]).

Em setembro, “L’Osservatore Romano” publicou uma circular de bispos argentinos não identificados, instruindo seus sacerdotes a facultarem a Eucaristia a casais que vivem em concubinato. O Sumo Pontífice garantiu que essa instrução é muito boa” e atende ao objetivo da Amoris laetitia. “Não há outras interpretações”, sublinhou ([liv]).

 

Os “dubia” de quatro cardeais

Após muitas polêmicas teológicas e canônicas acirradas e intrincadas, quatro cardeais — Suas Eminências Walter Brandmüller, Raymond Burke, Carlo Cafarra e Joachim Meisner — publicaram em novembro uma carta que haviam enviado ao Papa no dia 19 de setembro e para a qual não obtiveram resposta. Nela lhe apresentavam cinco “dubia” — ou perguntas que devem ser respondidas com um “sim” ou com um “não” —, uma antiga prática existente na Igreja. Se o Pontífice responder de acordo com a doutrina tradicional, ele destruirá a relativização da moral apresentada em Amoris laetitia; se responder “sim”, incorrerá em erro formal contra a fé.

Os referidos prelados foram atacados pela mídia de esquerda, que os rotulou como “rebeldes”, porta-vozes de uma conspiração envolvendo outros cardeais, muitos bispos, sacerdotes e leigos organizados. Os missivistas, pelo contrário, constatavam que Amoris laetitiacriou uma “grave desorientação e confusão entre os fiéis”, e pediam respeitosamente ao Papa uma resposta esclarecedora das “interpretações contraditórias” largamente difundidas ([lv]). Numerosos eclesiásticos de todos os níveis se posicionaram pró e contra os dúbia.

No fim do ano, o veterano vaticanista Marco Politi constatava “uma guerra civil em curso na Igreja” entre grupos irreconciliáveis. Segundo ele, o aplauso midiático ao Papa Francisco mascarou uma tendência que crescia no povo fiel com força telúrica, imensa, silenciosa e subterrânea, cuja erupção consistiu na carta dos quatro cardeais.

Para o vaticanista, a mídia que não percebeu o análogo processo ocorrido com o Brexit da Grã-Bretanha, o “não” da Colômbia ou a eleição de Donald Trump, enganou-se do mesmo modo a respeito da popularidade do Papa argentino. O historiador progressista Alberto Melloni referiu-se a “isolamento” do Pontífice, enquanto Andrea Riccardi, historiador da mesma tendência, reconheceu que Papa algum encontrou no século XX tanta oposição no clero.

Por isso, em torno da Amoris laetitia e da linha geral do atual pontificado, a Igreja Católica entrou em “guerra civil” ([i]), concluiu Marco Politi. “The New York Times” havia perguntado se essa “guerra civil” não era o “fracasso do Papa Francisco” ([ii]) e “The Spectator” indagou sobre o “início do fim do Papa Francisco” ([iii]).

 

Católicos desinteressados da “Laudato Si”

O início do Jubileu da Misericórdia foi comemorado com o espetáculo Fiat lux, patrocinado pelo Banco Mundial. Um jogo de projeções casou a impressão de que a Basílica de São Pedro se dissolvia, acenando para a liquefação das estruturas da Igreja e dos fundamentos da civilização pela natureza selvagem. Monges budistas pareciam indicar uma via de salvação alternativa ao Cristianismo. Nenhum símbolo fazia referência ao Catolicismo imutável; dando a impressão de que a Igreja cedia lugar à natureza soberana.

A Basílica de São Pedro saiu também ultrajada na comemoração do acordo laico e anticivilizatório preparado pela ONU em Paris ([lix]) contra o espantalho do aquecimento global. Esse arranjo impôs aos países objetivos radicais que conduzem à demolição da sociedade atual. Ele foi completado na22ª Conferência do Clima, em Marrakesh, que fixou as obrigações concretas para cada país.

O Brasil ficou obrigado a gastar 40 bilhões de dólares em aras à utopia. O ônus recairá, disse o ministro de Agricultura, sobre os produtores rurais. No entanto, em novembro, inquérito mostrou que a pregação da encíclica Laudato Si, que fez suas as hipóteses de ambientalistas radicais, da Teologia da Libertação e de místicas panteístas e pagãs, havia afundado no desinteresse dos católicos e não católicos dos EUA, “desvalorizando a credibilidade do Papa” ([lx]).

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