Novembro de 2006
A Europa prefere não considerar o grave perigo islâmico
Entrevista

A Europa prefere não considerar o grave perigo islâmico

A ameaça maometana é uma realidade para todo o mundo ocidental e cristão, sendo especialmente grave quanto ao Velho Continente. Entretanto os ocidentais não atribuem a tal perigo a devida importância.

Prof. Yildiz (o 2º da esquerda para a direita)

O Prof. Dr. Efrem Yildiz, nascido na Turquia em 1966, descendente de assírios, é católico de rito caldeu. Teólogo, domina vários idiomas orientais. Leciona atualmente na Universidade de Salamanca (Espanha), ocupando a cátedra de História, Cultura, Língua e Literatura cristã-aramaica.

Em entrevista concedida ao correspondente de Catolicismo em Viena, Sr. Carlos Eduardo Schaffer, o Prof. Yildiz fez declarações de suma importância visando despertar os ocidentais para a gravidade do problema que representa atualmente o mundo islâmico. Nosso correspondente o entrevistou por ocasião de recente viagem à Áustria, onde o Prof. Yildiz participou do seminário sobre o tema Islã e Cristianismo, realizado no Santuário de Sonntagberg.

O alerta lançado pelo eminente professor não tem finalidade sensacionalista. Ele não exagera, pois tem noção clara e objetiva do problema e fala com muito conhecimento de causa. Segundo ele, o desejo do islamismo de dominar a Europa não é quimérico, mas sim um propósito explícito de levar avante sua dominação. Ainda segundo o entrevistado, não há possibilidade de diálogo com os maometanos, pois eles não o aceitam. De acordo com eles, não pode haver liberdade para os cristãos.

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Catolicismo — Professor Yildiz, em que região do Oriente o Sr. nasceu?

Prof. YildizNasci numa zona que antigamente se chamava Mesopotâmia, pertencente ao antigo reino dos assírios babilônios. Essa região é atualmente conhecida sob a denominação geográfica Tigre e Eufrates. Foi dividida em vários setores, entre Turquia, Iraque, Síria e Irã. A zona na qual nasci corresponde atualmente a uma área no sudeste da Turquia.

Catolicismo — Por que teve o Sr. que deixar a Turquia?

Prof. Yildiz Porque, uma vez terminada a escola elementar turca, recebíamos um pouco de formação lingüística. Estudamos o aramaico, que é nossa língua materna; mas, sobretudo na Turquia oriental, era muito difícil continuar estudando. Concluídos os estudos na escola elementar, deixei o país à procura de estudo superior.

Catolicismo — Quando o Sr. estava na Turquia, havia perseguição religiosa no país?

Prof. YildizPode-se compreender a perseguição de modos diferentes. Se considerarmos como perseguidos os que sofrem privação de direitos concedidos ao resto dos mortais, então sim, havia perseguição. Era o tratamento injusto do ponto de vista social. Quer dizer, em nossas carteiras de identidade constava então nossa religião. O governo turco obrigava a esse procedimento, e isto era uma espécie de perseguição, pois em qualquer situação éramos vistos como cristãos. Os turcos sempre nos discriminavam enquanto cristãos, o que eles consideravam como algo depreciativo. E isto se dava em todos os níveis sociais. Certamente havia também a forma de perseguição não organizada, mas feita por certos grupos islâmicos que pressionavam, perseguiam, e por vezes matavam.

Catolicismo — Como os turcos muçulmanos vêem os católicos?

Maometanos em oração dentro de mesquita

Prof. YildizHá duas coisas a observar. Primeiramente que, conforme a tradição oficial, os cristãos são considerados como “gente que tem outra religião, ou que está submetida a outra religião”. Segundo, embora pertençamos ao grupo dos que possuem o livro (a Bíblia) –– sendo portanto “gente do livro” ––, ao longo da história das duas religiões (o Cristianismo e o islamismo) este nos considera como “infiéis”. O “infiel” é sempre o inimigo, e portanto o inimigo que tem de ser combatido. Os métodos que usaram desde o princípio eram brutais.

Catolicismo — Como são descritos os cristãos no Alcorão?

Prof. YildizNo Alcorão, num primeiro momento, há uma atitude positiva em relação a determinado grupo de cristãos, os monofisistas. Numa segunda fase, quando Maomé entra em Medina, nota-se uma atitude totalmente diferente, que se caracteriza por uma forma marcada tanto pela violência quanto pela discussão teológica.

Catolicismo — No Alcorão, como são consideradas a guerra e a tolerância?

Prof. YildizA guerra se justifica por alguns motivos no Alcorão. Ali se lê : “Se não te convertes através da palavra, também deves converter-te através da espada”. E assim se justifica a guerra. Deve-se matizar se se trata de guerra santa (a Jihad, por exemplo) ou de uma guerra declarada entre diferentes clãs. Há uma guerra movida contra o "infiel" e outra empreendida por razões de defesa, de vingança ou outra.

Catolicismo — A prática religiosa católica na Turquia é livre?

Prof. Yildiz Os ocidentais crêem que com seus esquemas, seus métodos, seus modos de raciocinar, podem compreender uma sociedade tipicamente oriental, como é a sociedade turca. Desde que o islamismo dominou a Turquia, jamais houve uma liberdade religiosa tal como existe nas constituições laicas ocidentais.

Catolicismo — Existe na mentalidade muçulmana a disposição ao que entre nós se denomina “diálogo”?

A ameaça maometana pressiona a Europa

Prof. Yildiz Por diálogo entende-se na Turquia a seguinte atitude : “Se aceitas o que penso e admites o que eu digo, aí sim, poderemos dialogar”. Não considero isso diálogo, mas sobretudo um monólogo. Quer dizer, os cristãos ocidentais não entendem a maneira de agir e de raciocinar dos muçulmanos, no caso do “diálogo”. Certamente, também há muçulmanos bem mais “dialogantes”, com os quais poder-se-ia manter um diálogo. Mas esses nunca aparecem. Ao contrário, dialoga-se com os que, tendo uma opinião formada, dizem a nós cristãos: “Vocês tergiversaram, mudando o Evangelho”. Aos judeus, dizem : “Vocês tergiversaram, mudando o Antigo Testamento”. Portanto, o único livro válido, em última análise, é o Alcorão. E o diálogo, assim posto, não pode desenvolver-se. Para ele realizar-se, necessita-se de duas partes. E se o diálogo não serve para aproximar uma da outra, por que perder tempo com ele?

Catolicismo — A Turquia apresenta-se como uma sociedade laica, mas sabe-se que a vida quotidiana é muito islamizada. Como pretende ela ser admitida na Comunidade Européia?

Prof. Yildiz A Europa não entende certas coisas, porque somente pensa em interesse econômico, não se preocupando em saber se, hoje em dia, a Turquia tentará uma aproximação sob a forma de democracia. A realidade é que a Turquia sabe perfeitamente que, do ponto de vista estratégico, sua situação é privilegiada em relação ao Oriente. Este é um primeiro ponto: a Turquia nunca abandonará, por nada deste mundo, seu legado cultural, religioso, tipicamente islâmico. Ao se falar em Turquia, devem-se distinguir nela duas partes bem diversas: a Turquia entre o Bósforo e a Grécia (compreendendo Istambul e um pouco mais além, até a costa); e a autêntica Turquia asiática, onde predomina absolutamente a lei corânica. É isso que se trata de distinguir. A Turquia não tem uma só faceta, mas várias, e a mais marcante é a islâmica. A Europa não pode deixar-se enganar com o mero fato de a Constituição turca declarar ser o país uma nação laica. Pelo contrário, ela está se tornando cada vez mais um país islamita radical.

Catolicismo — Como o islamismo se estabeleceu na região onde o Sr. nasceu? Existiam ali outras religiões antes do advento do maometanismo?

Prof. Yildiz Sim, muitas outras. Examinemos nos primórdios do cristianismo, o ano 37 de nossa era. Nesse ano o cristianismo implantou-se na Mesopotâmia. Logicamente havia já outras religiões ali. Entre elas a religião assíria, praticada ainda no século III d. C; existia também o mazdeísmo; o zoroastrismo estava implantado na atual Pérsia, por exemplo; e também, evidentemente, a religião judaica. Havia várias comunidades formadas. Com o aparecimento do islamismo, e devido à força com que este se impunha, tais comunidades foram aderindo à nova religião. De início não o apreciavam, mas aos poucos foram levadas por interesse a aderir ao islamismo. Em primeiro lugar, não desejavam ser tratadas como pessoas de segunda classe (assim eram considerados pelos muçulmanos os de outras religiões); em segundo lugar, porque era necessário pagar um imposto aos maometanos; em terceiro lugar, tal imposto era muito pesado. Não era um imposto como conhecemos hoje em dia. Chegava-se a confiscar os bens do cristão e de todo aquele que não pertencia ao grupo islâmico ou à nova religião. Esta, mais precisamente, tornou-se um poder político.

Catolicismo — A conquista, então, foi empreendida pelas armas...

Prof. YildizBasta recordar a intervenção militar efetuada por ambas as partes. Sim, houve grandes batalhas e enorme resistência, até praticamente os nossos dias.

Catolicismo — Em que ano ocorreram as primeiras lutas armadas?

Mesquita Yeni Camii, na Turquia

Prof. YildizAs primeiras batalhas travaram-se, por exemplo, logo que Maomé entrou, no ano 622, em Medina. E essa situação perdurou durante os primeiros 100 anos. As tribos nômades maometanas converteram-se em um poder tremendamente grande. Havia problemas entre as grandes potências políticas da época: entre Roma e Constantinopla; entre Constantinopla e a Pérsia. Tais potências guerreavam-se mutuamente. Quando surgiu o islamismo, por um lado ele foi visto como uma libertação desses poderes beligerantes; tornou-se então um novo jugo, ao qual dever-se-ia submeter. Sim, houve batalhas. E como! Sim, houve resistência durante muito tempo. E como!

Catolicismo — Atualmente, qual é a porcentagem de cristãos na Turquia? O número deles aumenta?

Prof. Yildiz Pelo contrário, o número diminui de forma preocupante. Aqui deveríamos fazer um pequeno parêntese histórico para melhor compreensão da questão. Durante a época do império otomano havia alto percentual de cristãos. Havia no século XIX dois milhões de armênios, 300 mil greco-ortodoxos, quase um milhão de assírio-caldeus ou assírio-ortodoxos. Todos pertenciam ao grupo étnico assírio. Deste restam hoje dois mil greco-ortodoxos, uns dois mil sírio-ortodoxos, outros doze mil em Istambul; sobram dois mil caldeus, constituídos praticamente de refugiados do Iraque. Logicamente esse conglomerado humano foi morto ou fugiu, escapando da pressão insuportável exercida pela Turquia oriental.

Catolicismo — Como os muçulmanos vêem a Europa?

Prof. YildizAntes de tudo, para a maioria dos muçulmanos turcos, não se fala em termos de Europa ou de América. Fala-se em termos de cristãos. Embora exista atualmente na Europa uma crise profunda da fé cristã, para eles a Europa continua sendo símbolo ou sinônimo de cristão. Portanto, a distinção entre “quem é e quem não é inimigo” está claramente definida.

Catolicismo — Por que os turcos desejam, apesar disso, tornar-se membros da União Européia?

Prof. YildizPor uma simples razão: querem beneficiar-se economicamente. A Turquia obteria desta forma uma inversão de milhões de Euros.

Catolicismo — Em sua opinião, desde quando a islamização da Europa está em marcha?

Prof. Yildiz Desde há muito tempo. Data de muitos anos o plano ou a idéia da realização do sonho de reconquistar a Europa. Este é o objetivo do mundo islâmico, subseqüente à entrada da Turquia na União Européia. Refiro-me não somente à Turquia, mas também a um plano existente por trás da idéia de missão –– a de converter todo o mundo ocidental ao islamismo. Para este não existe outra religião além da muçulmana. Só ela está no verdadeiro caminho; portanto só ela possui a verdade autêntica. Esta é a razão pela qual considero a Turquia um perigo para o continente europeu ou para o mundo ocidental. Porque não seria somente a Turquia a entrar na União Européia, mas ingressariam, em primeiro lugar, todas as repúblicas turcomanas; penetrariam todos os grupos que, em minha opinião, estão bem organizados para empreender uma “atividade missionária”.

Catolicismo — O Sr. crê que a Europa está reagindo à altura diante do perigo que corre?

Prof. Yildiz Absolutamente não. A Europa permanece numa espécie de atitude apática — sempre falo desta forma. Por quê? Porque a Europa está, em primeiro lugar, numa situação de crise. Refiro-me a uma crise da fé. O continente europeu está querendo renegar seu passado, que é um passado cristão. Alguns políticos pouco preparados crêem ser possível essa renegação. Portanto, a Europa não está absolutamente preparada, e aqui reside o mal de toda a questão. Não há nenhum político com personalidade para dizer a verdade, em face desta intenção; por estas ou aquelas razões, de dizer “não”. Todos pensam em obter benefícios próprios, deixando o acerto da questão para os que vierem depois.

Catolicismo — O que deveria fazer a Europa para reagir proporcionadamente a esse perigo?

Prof. YildizAbandonar tal atitude passiva, apática, e dizer que possuímos valores e uma riqueza a preservar. Em primeiro lugar, sentir-se orgulhosa como cristã, o que hoje em dia é muito difícil. Em segundo lugar, a Europa tem que ativar alguns mecanismos, a fim de frear o maquinismo missionário muçulmano. Contudo, não há pessoas preparadas para tal. Os políticos não se interessam por isto. Mantêm uma atitude acovardada. Toda ação firme é considerada “politicamente incorreta”. Este termo não deveria existir. A Europa está numa fase de crise, sob vários pontos de vista. Creio que ela não sabe sequer se tem uma imagem própria. A velha Europa já não existe. E a atual não tem mais um ideal. O que lhe interessa é o aspecto econômico. Obtendo lucros, o resto não lhe importa. O islamismo, entretanto, realiza o contrário em relação a essa apatia européia.

Catolicismo — Há pouco os islamitas provocaram um escândalo por causa de caricaturas de Maomé. No mundo islâmico, difundem-se caricaturas de Jesus Cristo e de santos católicos?

Prof. Yildiz Sim, não foi uma só vez que surgiram caricaturas de Cristo, como também não é a primeira vez que apareceram as de Maomé. Ao longo dos tempos, em muitas ocasiões, prepararam-se caricaturas, descreveu-se ou criticou-se a forma de vida de certos personagens. Podem ser Maomé, Cristo ou algum santo. Mas ninguém se pergunta: “Será que com uma caricatura fizeram algo tão grave como o que é praticado contra milhares de cristãos? Ou seja, contra milhares de seres humanos, que refletem a imagem de Cristo, e que foram maltratados, mortos, queimados, porque honram o nome de Cristo? Isto não é também ofender a Cristo?”. Esta não é uma ofensa? Ela não é muito pior do que um desenho posto numa folha de papel? Portanto, o escândalo das caricaturas foi realmente manipulado — aliás, meses depois de feitas — sobretudo porque então era oportuno remexer o tema aqui na Europa. Essa foi realmente a razão do escândalo provocado, e não outra.