Setembro de 2009
Considerações sobre a Oração – V
Leitura Espiritual

Considerações sobre a Oração – V

Na edição anterior foi transcrito um trecho do Padre Meschler(*) a respeito dos Salmos e da Oração Dominical; nesta, ele trata da Saudação Angélica, conhecida por Ave-Maria

Mediante a Saudação Angélica, temos o consolo de associar à nossa prece vocal Maria, Nossa Senhora, Soberana e Mãe, de cujas mãos recebemos todas as graças, e sob cuja proteção queremos viver e morrer.

É de nobre estirpe a Ave-Maria. É a saudação que, em nome de Deus, um anjo trouxe do Céu. O Espírito Santo a ampliou por meio de algumas palavras inspiradas a Santa Isabel; com o fito de transformá-la em prece, a Igreja acrescentou o pedido que a finaliza. Desde o século XVI a Ave-Maria é, sob a forma atual, recitada por toda a Cristandade. Acompanha a Oração Dominical e, no concerto da prece cristã, é o acorde que ressoa em honra da Virgem Mãe. Denominaram-na, com razão, saudação ininterrupta, porque efetivamente ela nunca cessa de ecoar na Terra para se elevar até o Céu.

De que se compõe a Ave-Maria, e como se encadeiam suas diversas partes? Como qualquer outra oração, contém ela uma invocação e uma súplica.

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A invocação compreende cinco títulos de louvor à glória da Mãe de Deus. Os três primeiros, formulados pelo anjo, referem-se ao mistério da Encarnação, do qual era mensageiro o mesmo anjo. Recordam como Maria, pela plenitude da graça recebida, estava cabalmente preparada para esse grande mistério; explicam, em seguida, a natureza da própria Encarnação — Deus habitando em Maria, de modo todo especial, pela concepção de seu próprio Filho; finalmente, o efeito desse mistério na Virgem, que é por Ele elevada e bendita entre todas as mulheres. Por seu turno, Isabel indica o princípio e a causa dessa elevação e plenitude de graças: o divino Infante que Maria concebera e daria ao mundo.

A excelência da Virgem, bem-aventurada entre todas, já notificada pelas revelações do anjo e de Isabel; a Igreja, por sua vez, novamente a proclama e atesta, por meio de palavras que são e serão, para todo o sempre, um dogma memorável de nossa fé: Mãe de Deus. Essa gloriosa invocação encerra tudo o que a fé nos ensina em relação a Maria. É ela, por assim dizer, a suma da doutrina católica nesse particular.

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A súplica, de uma profunda significação não obstante sua brevidade, lembrando-nos a hora presente e aquela em que havemos de abandonar o mundo, resume toda a nossa vida e a instante necessidade que temos de auxílio e proteção; exprime eloqüentemente a idéia que formam os cristãos da onipotente intercessão de Maria, e a confiança que depositam na misericordiosa dispensadora das graças. [...]

Mas, poder-se-á objetar, não será fastidioso repetir sempre as mesmas palavras, e insípida a monotonia de uma única prece (como no rosário)?

Se a oração nos parece monótona, e as palavras falhas de senso, é por culpa nossa. A vista habitual de uma imagem querida, a repetição de um nome amado, ou ainda de um mavioso canto, nada tem de enfadonho em si mesmo. O pássaro repete sempre o mesmo gorjeio, e nunca dele se enfastia. A criança não cessa de redizer os mesmos nomes e emitir as mesmas idéias; não obstante, os pais experimentam, cada vez, um júbilo novo, porquanto essas coisas, sempre repetidas, partem de um coração amante. O essencial é amar e pensar no objeto amado. E o que estimula o amor é a reiteração amiudada das mesmas idéias e verdades para que o espírito se compenetre delas.

Estas considerações se aplicam também à recitação do Credo, do Glória Patri e das palavras que acompanham o Sinal da Cruz. Até em suas fórmulas de oração a Igreja possui uma força, uma diversidade maravilhosa. Assim como Deus esparge por sobre a Terra mil germes de flores, os quais desabrocham em uma infinidade de variegadas espécies, assim, no magnífico domínio da oração, o Espírito Santo opera, sem cessar, estupenda diversidade.

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(*) Pe. Maurício Meschler, S.J., A Vida Espiritual –Reduzida a Três Princípios, Editora Vozes Limitada, Petrópolis, 1960, pp. 40 e ss.