Novembro de 2006
O heróico pequeno exército do papado
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Os corajosos guardas resistentes ao Saque de Roma

Imperador Carlos V

Da secular história da Guarda Suíça Pontifícia, alguns fatos marcantes e gloriosos revelam o quanto ela agiu com “fidelidade, lealdade e honra”, correspondendo assim ao juramento solenemente prestado.

Se 22 de janeiro de 1506 é a data de nascimento da Guarda Suíça, a data do seu “batismo de fogo” é considerada o dia 6 de maio de 1527. Data em que, durante o Saque de Roma — perpetrado por tropas alemãs, juntamente com mercenários franceses e espanhóis, na maioria luteranos, a soldo do imperador Carlos V (do Sacro Império) —, os heróicos guardas escreveram com sangue uma das mais belas páginas de sua história.




Desenho do tipo de soldados alemães que participaram do Saque de Roma

Roma encontrava-se invadida pelo exército imperial, com aproximadamente 18 mil homens. Após terem saqueado a Cidade Eterna e praticado enormes destruições por onde passavam, chegaram à Praça de São Pedro. Os guardas-suíços, postados diante da Basílica e depois em seu interior, junto aos degraus do altar-mor, enfrentaram 1000 invasores. Resistiram corajosamente, mas perderam 147 homens massacrados juntamente com seu comandante Kaspar Röist. Eles testemunharam com sangue o juramento de fidelidade feito aos Romanos Pontífices. Em contrapartida, 800 dos 1000 mercenários invasores caíram mortos pelas alabardas dos aguerridos suíços.

Graças a essa heróica resistência pôde o Papa Clemente VII escapar por uma passagem secreta — o célebre passetto, construído por Alexandre VI (1492–1503), que liga o Palácio Apostólico ao Castelo de Sant'Angelo às margens do Tibre —, ficando em seguro refúgio na fortaleza.



O Saque de Roma – Francisco Javier Amérigo (séc. XIX) – Museu do Prado, Madri

De toda a Guarda Suíça somente 42 membros sobreviveram. Faziam parte daqueles que formaram um cinturão de segurança em torno de Clemente VII, bem como da escolta de alguns cardeais, também refugiados naquela fortaleza.

Além de invadir o Vaticano, a horda saqueou durante oito dias bens preciosos; destruiu relíquias e obras de arte; cometeu toda sorte de sacrilégios e profanou até sepulturas de Papas. Diante do Castelo de Sant´Angelo, os invasores protestantes encenaram uma paródia de procissão religiosa; bradaram vivas a Lutherus pontifex” e ao Imperador Carlos V; num precioso afresco representando o Santíssimo Sacramento, escreveram à ponta de espada o nome do miserável apóstata Lutero. A afirmação do Prior dos cônegos de Santo Agostinho resume os atos de vandalismo: “Mali fuere Germani, pejores Itali, Hispani vero pessimi” (Os alemães foram maus, os italianos piores, e os espanhóis péssimos).

* * *


O pequeno exército do papado só pôde ser reconstituído 21 anos depois do Saque de Roma, no Pontificado de Paulo III (1534–1549). Em 1568, São Pio V (1566-1572) ordenou a construção, dentro da área dos quartéis do Vaticano, da Igreja de São Martinho e São Sebastião, patronos da Guarda Suíça. Durante o glorioso pontificado de São Pio V, um destacamento da Guarda Suíça recebeu a missão de combater em defesa da Cristandade ameaçada pelos turcos muçulmanos em Lepanto. Na batalha naval, travada em 7 de outubro de 1571, tal destacamento teve a glória de arrebatar duas bandeiras ao inimigo islâmico.

Na França, homenagem à fidelidade e à coragem dos suíços


Outro destacamento de guardas-suíços deu provas de heroísmo e fidelidade. Desta vez, não ao governo monárquico da Igreja, mas à monarquia francesa; não em defesa do altar, mas na defesa do trono. No dia 10 de agosto de 1792, os guardas-suíços do rei Luís XVI enfrentaram em Paris uma turba de facínoras arregimentados pelos revolucionários. Frente a uma iminente invasão do palácio real das Tulherias por parte da populaça constituída de sans-culottes, Luís XVI, titubeante e sem tomar uma decisão clara, ordenou que os guardas entregassem as armas, mas continuassem em seus postos. O palácio foi tomado de assalto e mais de 700 suíços foram massacrados pela populaça revolucionária.



A Tomada do Palácio das Tulherias. Em 10 de agosto de 1792, a multidão revolucionária invadiu o palácio e massacrou a Guarda Suíça do Rei da França.

Em homenagem a esses destemidos militares, erigiu-se em Lucerna (Suíça) um evocativo monumento, o “Leão de Lucerna” (foto ao lado), a fim de perpetuar o fato histórico transcorrido nas Tulherias. Um leão ferido de morte, mas protegendo o brasão francês com a flor-de-lis. O leão — símbolo da bravura, da força e da lealdade — serviu para representar o trágico acontecimento: a luta e a morte. Tendo o coração varado por uma lança, o leão continua até o fim defendendo o glorioso brasão.




Magnífica homenagem da República suíça aos que morreram em defesa da Monarquia francesa, por fidelidade incondicional a um rei legítimo! Foi levantado a pedido de companheiros e familiares dos guardas-suíços chacinados no assalto às Tulherias. A idéia de utilizar um leão agonizante foi do Coronel Karl Pfyffer von Altishofen, oficial que escapou daquele massacre. O modelo é obra do famoso escultor Bertel Thorwaldsen (1770–1844) e foi talhado no rochedo em 1820, pelo escultor Lukas Ahorn.



No alto da lápide, os dizeres Helvetiorum fide ac virtute (À fidelidade e à bravura dos suíços). Na parte de baixo estão gravados, ad perpetuam rei memoriam, os nomes dos 26 oficiais que, fiéis à realeza francesa, tombaram vítimas da sanha revolucionária.

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