Novembro de 2006
O heróico pequeno exército do papado
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A Guarda Suíça no longo e atribulado pontificado de Pio VI

Papa Pio VI

Em outro período trágico na História da Igreja, a gloriosa guarnição papal foi novamente dissolvida. Impulsionadas pelos ventos do espírito igualitário da Revolução Francesa, as tropas de Napoleão Bonaparte invadiram a Itália. Depois de terem despojado e profanado os mais venerandos santuários, entraram em Roma em 1798. Os comissários franceses declararam sacrilegamente a destituição do Papa Pio VI (1775–1799) e aprisionaram o Sumo Pontífice. Apesar de sua avançada idade de 80 anos, foi arrastado para o exílio e não mais retornou a Roma. Em Valence (cidade francesa junto ao Ródano) entregou sua alma a Deus no dia 24 de agosto de 1799, após um atribulado e longo pontificado de 24 anos e meio.

Napoleão Bonaparte, que teve a ousadia de prender Pio VII

Também muitos membros do Sacro Colégio dos Cardeais foram encarcerados ou exilados. Com a ocupação da Cidade Eterna, os chefes revolucionários roubaram preciosas obras e raros livros da biblioteca do Palácio Apostólico, vendidos posteriormente a preço vil. Confiscaram as armas e os cavalos da Guarda Suíça Pontifícia, dispersa e substituída por uma guarnição francesa.

A Guarda Suíça na tomada de posse de Pio VII

O Papa Pio VII

No ano seguinte à morte de Pio VI, o exército austríaco atacou os republicanos franceses e os expulsou de Roma. Postos em liberdade, os cardeais reuniram-se em Veneza e elegeram para o Trono de São Pedro o Cardeal Chiaramonte, que tomou o nome de Pio VII (1800–1823). Assim, o novo Papa pôde entrar em Roma, onde foi recebido triunfalmente pelo povo.

Na posse do governo temporal da Igreja, Pio VII reconstituiu a Guarda Suíça Pontifícia, mas apenas com um pequeno contingente de 64 soldados. Foi novamente dissolvida em 1809, por ordem do sempre malfazejo Napoleão. Naquele ano, tropas napoleônicas novamente invadiram Roma e levaram prisioneiro o Papa.





Pio VII sendo levado prisioneiro para a França

Esse período de dispersão da Guarda Suíça durou pouco, sendo reconstituída em 1814 com a libertação de Pio VII. Em 24 de maio daquele ano, o Papa retornou solenemente a Roma. Uma multidão de fiéis o acolheu com enorme júbilo, com festejos ainda maiores do que os prestados aos antigos imperadores romanos.

São João Bosco escreveu na sua obra História Eclesiástica uma sentença lapidar: “A História nos demonstra claramente que favorecer a religião é o princípio da grandeza dos soberanos, e persegui-la é causa de ruína”.

Napoleão, no apogeu de seu poder, ao saber que Pio VII queria excomungá-lo por causa de sua brutal perseguição à Igreja Católica, comentou sarcasticamente: “Pensa talvez o Papa que a excomunhão fará cair as armas das mãos de meus soldados?”. A ambição de Napoleão o levou até às extremidades da Rússia. Mais de 400 mil soldados de seu exército morreram pelo ferro, pela fome, pelo frio! O general de Ségur, um dos chefes daquele “imbatível” exército, deixou registrada para a História a seguinte frase: “Os soldados mais valentes, gelados de frio, já não podiam sequer segurar as armas, e estas caíam-lhes das mãos”...




O revolucionário Garibaldi, cujas tropas atacaram...

Por fim, a Europa levantou-se contra Napoleão. Feito prisioneiro, foi encerrado no palácio de Fontainebleau — no mesmo lugar onde ele outrora mandara encarcerar o Romano Pontífice. No próprio local onde Pio VII tinha sido humilhado, o corso teve que assinar sua abdicação...

Pouco mais de um ano depois, Napoleão, então prisioneiro dos ingleses, acabou reconhecendo o poder do papado: “O Papa costumava dizer que não tinha exércitos, mas é uma potência formidável. Tratai-o como se tivesse atrás de si 200 mil homens”.

a Porta Pia na Roma de Pio IX

O Papa não dispunha de 200 mil soldados. Tinha apenas 200 guardas suíços. E não precisava de mais, pois o “Senhor Deus dos exércitos” é quem vela pela Igreja. Ademais, a Santa Igreja conta com a especial proteção da Santíssima Virgem, Aquela que é, conforme a Sagrada Escritura, “Terribilis ut castrorum acies ordinata” (Terrível como um exército em ordem de batalha) (Cant. VI, 3 e 9).

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