Novembro de 2006
O heróico pequeno exército do papado
Capa

A Guarda Suíça na época do Beato Pio IX


Em 1848, numa das conjunturas mais terríveis da História da Igreja, os suíços uma vez mais deram provas de heroísmo e fidelidade: barraram os ataques dos republicanos revolucionários ao Palácio do Quirinal, então residência do Bem-aventurado Pio IX (1846–1878). Desde 3 de setembro daquele ano, quando o Soberano Pontífice retomou o governo da Cidade Eterna depois do exílio de Gaeta (cidade localizada no sul da Itália), a Guarda Suíça Pontifícia ficara oficialmente constituída por 153 homens.

Em 20 de setembro de 1870, tropas anticatólicas de Garibaldi invadiram Roma. A Guarda Suíça concentrou-se no Vaticano, disposta a defendê-lo a qualquer preço. Outros corpos militares reforçaram a vigilância em torno da Basílica de São Pedro e dos Sagrados Palácios, prontos a derramar o sangue em defesa do Papa. Mas Pio IX, para evitar o sacrifício de vidas humanas, como ocorrera séculos antes durante o Saque de Roma, preferiu render-se. Entretanto, o acordo de rendição permitiu o livre exercício da Guarda Suíça, além das guardas Nobre e Palatina, a serviço do Pontífice.




Pio IX

Funesto foi o ano 1870. O processo artificial e revolucionário de unificação da Itália privara o Papa do poder temporal sobre os Estados da Igreja, inclusive sobre Roma. Mas, para a glória do Papado, a Cidade Eterna havia sido defendida com ardor pelos suíços que lutaram lado-a-lado com os Zuavos Pontifícios (regimentos formados por católicos do mundo inteiro que acorreram a Roma em defesa do Soberano Pontífice, no combate às hordas revolucionárias).

No ano seguinte, o rei Vítor Emanuel II ofereceu a Pio IX uma indenização e a promessa de manter o Papa como chefe do Estado do Vaticano (apenas um bairro de Roma, onde estava instalada a Sede da Igreja). Pio IX recusou essa proposta, tão contrária a seus sagrados direitos, e considerou-se prisioneiro do poder laico. Insufladas pelo ministro Cavour e pelo aventureiro Garibaldi, as forças revolucionárias da “nova Itália” despojaram o sucessor de São Pedro dos Estados Pontifícios.

Esse conflito, conhecido como “questão romana”, ocorrido em 1870 com a anexação de Roma ao Reino da Itália, somente veio a encerrar-se em 11 de fevereiro de 1929, quando o então Pontífice reinante, o Papa Pio XI (1922–1939), assinou com Mussolini o “Tratado de Latrão”. Por esse pacto, o governo italiano passava a reconhecer a supremacia da Santa Sé sobre o Vaticano, declarado então território soberano, neutro e inviolável. Tornou-se o Estado com menor território existente no mundo.

A certeza na promessa do Divino Fundador da Igreja


Apesar de essa espoliação dos territórios dos Romanos Pontífices constituir insofismável violação dos direitos da Igreja — e até mesmo do direito internacional —, o Bem-aventurado Pio IX não recebera apoio de nenhum rei ou presidente da República de então, exceto de Garcia Moreno, o destemido presidente-mártir do Equador.

Nesses, como em inúmeros outros acontecimentos da História da Igreja, salta aos olhos uma verdade, também insofismável: a imortalidade e divindade da Santa Igreja. O bem-aventurado Pio IX, prisioneiro no Vaticano, mesmo passando por tantas tribulações, perseguições e dificuldades aparentemente insuperáveis, não cedeu, continuou altaneiro em sua atitude de resistência. Ele confiava na promessa infalível de Nosso Senhor Jesus Cristo: “As portas do inferno não prevalecerão contra Ela [a Igreja]”(Mt 16, 18).

Com tal certeza, todos os católicos que também “sofrem perseguição por amor à justiça” devem viver e lutar. Tenhamos pois confiança quando, em nossos dias, tivermos que suportar outras tantas perseguições movidas pela sanha do espírito das trevas e pelo ódio revolucionário.

* * *

Pio X

Num simples artigo, é impossível historiar, ou mesmo elencar, todas as façanhas e vicissitudes da gloriosa Guarda Suíça. Assim, para encerrar, um pequeno e pitoresco episódio.

No quartel da Guarda Suíça Pontifícia conta-se que São Pio X (1903–1914), numa das primeiras noites no Vaticano, não conseguia conciliar o sono. Os passos cadenciados de um guarda-suíço o impediam. Para não cochilar em serviço, a sentinela na entrada dos aposentos pontifícios andava de um lado para o outro no corredor. O Papa levantou-se, abriu a porta e lhe disse:

Meu filho, vá dormir. Será melhor para você e também para mim, que preciso descansar um pouquinho...

Em sua singeleza, o episódio revela que o grande São Pio X, do alto de seu trono pontifício, não deixava de tratar seus guardas como filhos. E um filho pode fazer pelo pai muito mais do que um regimento de soldados...

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Fontes de referência:
•Constantino Kempf SJ, A Santidade da Igreja no século XIX, Edição da Livraria do Globo, Porto Alegre, 1936.
•São João Bosco, História Eclesiástica, Livraria Editora Salesiana, São Paulo, 1954.
•Enciclopedia Universal Ilustrada, Espasa-Calpe S.A., Madrid, 1925, Tomo XLI, verbete “Papa”.
•http://www.gsp06.ch/fr/history.asp
http://www.schweizergarde.org
•http://www.schweizergarde.ch
•www.gsp06.ch
•http://en.wikipedia.org/wiki/Swiss_Guard


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