Novembro de 2006
O revide do latim
Discernindo, comentando, agindo

O revide do latim

O mundo cultural se surpreende com o número crescente de jovens que se interessam pelo estudo do latim. O fenômeno se insere dentro de uma onda conservadora, à qual pode não estar alheia uma graça divina.

Cid Alencastro

Imperador romano César

Em 1997, uma lei promulgada pelo MEC desobrigou as universidades de ensinarem o latim, e essa bela língua deixou de ser obrigatória no curso de Letras. Algumas faculdades tiraram o latim da grade curricular. Houve quem acreditasse que ele desapareceria por completo das escolas.

No entanto, ocorreu o contrário. Considerada uma “língua morta”, o latim vive uma verdadeira ressurreição. O interesse pela língua de César, Cícero, Sêneca e Virgílio tem aumentado a cada ano. Ninguém sabe ao certo por que há cada vez mais jovens interessados em aprender latim.

Dados concretos do crescimento do latim

O número de alunos matriculados, fornecido por três importantes universidades, mostra esse crescimento. Na Unicamp, por exemplo, as matrículas do primeiro semestre em Latim I, que em 2000 eram 123, em 2005 chegavam a 210 (o salto foi de 70% em cinco anos). Na USP, houve um aumento de 154% no número de alunos matriculados em Latim I nos últimos seis anos — de 355 em 2000 para 903 neste ano. Nas duas unidades da Universidade Estadual Paulista (Unesp) que oferecem o curso de Letras, no mesmo período houve 118% de crescimento no número de alunos que se inscreveram para Introdução à Literatura Latina.

O fenômeno foi tema de uma dissertação de mestrado de Charlene Miotti na Unicamp, intitulada “O Ensino do Latim nas Universidades Públicas do Estado de São Paulo e o Método Inglês Reading Latin: Um Estudo de Caso”. Ela aponta o aumento do interesse no curso de introdução à língua latina da Unicamp, aberto à população. As inscrições chegaram a 26, número considerado recorde. “O latim tem encontrado um momento bastante favorável”, diz.

O interesse aparece não só em São Paulo. De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais (Inep), do Ministério da Educação, há mais alunos estudando latim na maior parte das universidades onde a disciplina é oferecida, como as federais do Rio Grande do Sul (UFRGS), de Juiz de Fora (UFJF) e do Rio (UFRJ).

Professores buscam explicações para o fenômeno


Nas universidades, os professores divergem sobre as razões do interesse, enquanto se mostram entusiasmados com a maior procura pelas disciplinas relacionadas ao latim. “Agora, você vê salas cheias”, conta Alexandre Agnolon, atualmente pesquisador e professor de Latim da USP.

Na Unesp, os professores se dizem surpreendidos diante do interesse pelo latim manifestado por estudantes de outros cursos, como Direito, História e Psicologia, entre outros.

Segundo alguns, existiria também a influência de filmes como “A Paixão de Cristo”, uma das maiores bilheterias de 2004, que é falado em latim e aramaico.

É muito interessante a observação do professor Marcos Martinho dos Santos, da USP, segundo o qual a volta do latim não tem relação com os produtos culturais divulgados pela mídia. “Quando contamos [aos professores de Portugal] que aqui o número de alunos nessa disciplina tem aumentado, eles ficam admirados”, diz o professor Martinho.

A apetência pelo latim, efeito bola-de-neve

O professor Paulo Sérgio de Vasconcelos, de língua e literatura latina da Unicamp, também se anima com o interesse de várias editoras na tradução de livros clássicos, inclusive em edições bilíngües. “O panorama, sob esse ponto de vista, é muito melhor que o de décadas atrás”, afirma. O latim teve “a sorte de ser o veículo de comunicação de um império que está nos fundamentos da cultura ocidental e que produziu textos literários geniais”.

E prossegue: “Há uma espécie de efeito de multiplicação: os jovens que agora se entusiasmam pelo estudo do latim transmitirão esse sentimento aos que os cercam, e a curiosidade pela área só vai aumentar. [...] Os jovens têm descoberto que seu estudo pode ser fascinante, agradável e gratificante. Como acontece com os melhores frutos do espírito humano, esse interesse jamais morrerá”. Uma espécie de bola-de-neve, portanto.

Atraindo mais estudantes de graduação, o latim gera conseqüentemente um número maior de pesquisadores e de publicações teóricas na área.

Um testemunho interessante é o de Fábio Cairolli, formado em Latim e atualmente aluno de mestrado do Programa de Letras Clássicas da USP: “O latim não tem uma aplicação imediata prática. Latim é um espaço de reflexão, pelo qual você vê uma diferença na maneira de olhar”.(*)

O Espírito Santo “fala” latim

Das vastidões e grandezas do Império Romano, o latim foi refugiar-se no seio da Igreja Católica

Essa procura mais acentuada do estudo do latim relaciona-se evidentemente com a maior apetência que se nota na juventude por temas culturais e religiosos de feitio conservador. Até poucos anos atrás vivia-se na euforia do moderno e do extravagante como padrões do mundo contemporâneo. Tal tendência, sem deixar inteiramente de existir e de se mostrar nas modas e nos costumes, e até de aparecer como predominante, perdeu entretanto muito de seu elã vital.

Por outro lado, o gosto pela tradição vem encontrando eco crescente nas almas dos jovens, mesmo quando vivem e se comportam segundo padrões de tipo progressista, que são os esguichados pela mídia, especialmente pela televisão.

Estamos diante de um fenômeno global complexo, do qual o gosto pelo latim não é senão um sintoma entre muitos. Expressivo, mas não isolado. Qualquer simplificação nesta matéria corre o risco de nos conduzir a conclusões grosseiras e fora da realidade. Cumpre observar muito, ponderar sem preconceitos ou frenesis e sobretudo pedir, através da Medianeira de Todas as Graças, o auxílio do Divino Espírito Santo para ver com clareza e precisão. Pois, ao que tudo indica, “hic est virtus Dei quae vocatur Magna” (aqui está uma força vinda de Deus, que chamamos Grande) (Act. 8,10).

Nesse sentido, é muito consolador lembrar que a Santa Igreja foi a guardiã do latim e a tornou mesmo sua expressão oficial, depois que essa bela língua deixou de ser falada pelos povos. Por assim dizer, a Igreja santificou o latim e o elevou. Somente as tormentas pós-conciliares puderam diminuir o papel do latim na vida da Igreja.

Mas o Espírito sopra onde quer, e são os jovens de hoje em dia que reconhecem no latim aquele tesouro de cultura que seus maiores vinham desprezando.

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Notas:

(*) A matéria versada até este ponto resume duas interessantes reportagens:

1) Thaís Fonseca, A ressurreição do latim, 30-7-06
(
http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2765,1.shl);

2) Simone Iwasso, Latim ganha força e volta a atrair alunos nas universidades, “O Estado de S. Paulo”, 9-10-06.