Setembro de 2009
Como é que Deus atua nos acontecimentos humanos, interferindo neles e modificando o seu curso
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A Palavra do Sacerdote

Monsenhor José Luiz Villac
Pergunta — Sou católico apostólico romano e aceito sem hesitação e com amor todos os ensinamentos da Santa Igreja. Mas sei que sempre se pode crescer no conhecimento dos princípios da fé católica. Gostaria de saber como é que Deus atua nos acontecimentos humanos, interferindo neles e modificando o seu curso, principalmente no que se refere ao mundo material. No campo espiritual, não parece haver maior problema, pois, se peço a conversão de uma pessoa, Deus pode dar-lhe uma graça. Se ela cooperar, tornando-a eficaz, se converterá. Porém, se se trata de uma pessoa doente, e peço a sua cura, como é que Deus faz para devolver-lhe a saúde? E quando se trata de efeitos cósmicos –– como a estrela que guiou os Reis Magos a Belém, ou o chamado Milagre do Sol, que aconteceu no dia e hora previamente anunciados em Fátima –– como são produzidos? Deus modifica nesses casos as leis físicas por Ele mesmo estabelecidas, para atender às nossas súplicas ou para transmitir certos sinais aos homens?

Resposta A pergunta põe em foco um grande tema da doutrina católica, que é o da Providência divina, e indaga como é que se produz concretamente essa atuação de Deus governando o mundo.

Convém, antes de mais nada, usar de uma pequena — mas importante — precisão nessa questão, que é desfazer a idéia de que Deus criou o mundo, estabeleceu as regras do seu desenvolvimento, e depois retirou-se egoisticamente aos esplendores de sua mansão celeste. É o que alguém poderia grosseiramente deduzir do livro do Gênesis (2, 2-3): “Tendo Deus terminado no sétimo dia a obra que tinha feito, descansou do seu trabalho. Ele abençoou o sétimo dia e o consagrou, porque nesse dia repousara de toda a obra da criação”.

Não foi essa a divinamente inspirada intenção do Autor sagrado, e sim indicar que a Criação do universo estava terminada.

Após a Criação, continua a atuação de Deus

Não há unanimidade entre os intérpretes da Sagrada Escritura sobre a natureza da estrela que guiou os Magos até Belém, mas poderia ser algum asteróide tangido pelos anjos
Mas se a Criação estava encerrada, não o estava a atuação sapiencial e misericordiosa de Deus, como ensina o Catecismo da Igreja Católica (nº 301): “Depois de ter criado, Deus não abandona a criatura a si mesma. Não só lhe dá o ser e o existir, mas a cada instante a mantém no ser, lhe dá o agir e a conduz ao seu termo”. O que já São Paulo lembrava em seu célebre discurso no Areópago de Atenas: “Nele [em Deus] vivemos, e nos movemos e existimos” (Act. 17, 28).

Por isso, prossegue o Catecismo da Igreja Católica (nºs. 302-303): “Deus guarda e governa, pela sua Providência, tudo quanto criou, ‘atingindo com força de um extremo ao outro e dispondo tudo suavemente’ (Sab. 8, 1). [...] É unânime, a este respeito, o testemunho da Escritura: a solicitude da divina Providência é concreta e imediata, cuida de tudo, desde os mais insignificantes pormenores até aos grandes acontecimentos do mundo e da história. Os livros santos afirmam, com veemência, a soberania absoluta de Deus no decurso dos acontecimentos: ‘Tudo quanto lhe aprouve, o nosso Deus o fez, no Céu e na Terra’” (Ps 114, 3).

A Providência e as causas-segundas

O mesmo Catecismo (nºs. 306 e 308) esclarece: “Deus é o Senhor, soberano dos seus planos. Mas, para a realização deles, serve-se também do concurso das criaturas. [...] Esta é uma verdade inseparável da fé em Deus Criador: Deus age em toda a ação das suas criaturas. É Ele a causa-primeira, que opera nas e pelas causas-segundas: ‘É Deus que produz em nós o querer e o operar, segundo o seu beneplácito’”(Philip. 2, 13).

Embora, em seguida, o Catecismo aplique este texto às criaturas racionais, o princípio vale também para as criaturas inanimadas, como os astros ou as que produzem os fenômenos atmosféricos em geral, por exemplo. Não há unanimidade entre os intérpretes da Sagrada Escritura sobre a natureza da estrela que guiou os Magos até Belém, mas poderia ser algum asteróide tangido pelos anjos. Neste caso, seriam as causas-segundas agindo a mando de Deus, segundo as leis dos movimentos dos corpos celestes. Ou então um milagre feito diretamente por Deus, fazendo aparecer uma estrela que antes não existia. Está no poder de Deus proceder de uma forma ou de outra. Como aconteceu concretamente, não o sabemos, mas... “Creio em Deus Pai todo-poderoso...”!

O perigoso naturalismo obsessivo

“Deus guarda e governa, pela sua Providência, tudo quanto criou”, fazendo assim com as galáxias no Universo
Nesta questão, cumpre evitar todo naturalismo obsessivo, que procura explicar tudo por fenômenos naturais, rejeitando a possibilidade de Deus suspender, quando quiser, a aplicação das leis por Ele mesmo estabelecidas. Neste caso, estaremos diante de um fenômeno sobrenatural, portanto de um milagre, no sentido estrito do termo.

Foi exemplo desse naturalismo um livro, muito em voga em meados do século passado, intitulado E a Bíblia tinha razão. O autor procurava mostrar que todos os milagres narrados no Antigo e no Novo Testamento correspondiam a fatos que tinham efetivamente ocorrido, porém se explicavam por causas inteiramente naturais. Assim, para o autor desse livro, tinha razão a Bíblia em apresentá-los como fatos históricos, não porém como fatos miraculosos.

Parece referir-se a esse livro um escritor norte-americano que, por sua vez, escreveu um opúsculo sobre o chamado Milagre do Sol. Desse opúsculo, a Enciclopédia de Fátima, editada com o apoio do Santuário de Fátima, publicou um extrato no qual o autor observa: “Importa lembrar que a travessia do mar Vermelho pode ter sido possível devido à ação de um vento leste invulgarmente forte; que um terremoto poderá ter secado as águas do Jordão para que os israelitas pudessem atravessá-lo a pé enxuto; que o sol terá deixado de se mover no céu, obedecendo à ordem de Josué, por meio de um prolongamento psicológico do dia, causado por uma tempestade de granizo súbita e muito forte que dizimou os amalecitas” (Stanley Jaki, op. cit., Princípia Editora, Estoril, maio de 2007, p. 357).

Possibilidades tão sui generis, que ademais nunca se repetiram, merecem o seguinte comentário espirituoso: “É mais fácil acreditar no milagre do que nessas hipóteses inverossímeis...”

Quanto ao Milagre do Sol, o autor apela para um fenômeno atmosférico denominado “lente de ar”, do qual só se começou a falar a partir da década de 1950. Resultaria de um movimento rotativo numa massa de ar, a qual, se se encher de gelo, poderia fragmentar a luz do Sol em algumas cores do arco-íris, produzindo assim um espetáculo como o que ocorreu em Fátima em outubro de 1917. Não obstante, o autor não é cético: “Se considerarmos que aquilo que foi observado na Cova da Iria foi uma lente de ar, teremos em mãos a possibilidade de encará-lo como um milagre físico” (p. 357). E acrescenta que essas ocorrências “são miraculosas na medida em que são imprevisíveis e muito raras” (p. 358). Ora, o Milagre do Sol correspondia a um pedido de Lúcia, e foi prometido por Nossa Senhora na terceira aparição, três meses antes. Mas o fenômeno físico da “lente de ar” — “imprevisível e muito raro” — foi ocorrer precisamente no dia e na hora anunciados! Acredite quem quiser...

De qualquer modo, não há como deixar de reconhecer que nisso entrou uma interferência de Deus nos fenômenos físicos, ainda que operando por meio de seus anjos, através das causas-segundas: um milagre, portanto.

Questão das curas milagrosas ou não

Falta tratar do tema das curas que pedimos a Deus em nossas orações.

Nem sempre, para atender nossos pedidos, precisa Deus atuar diretamente no plano físico ou corporal. Ele pode fazer com que a pessoa que pretendemos beneficiar encontre um médico que receite um bom remédio ou um tratamento eficiente. Mas pode ser também que a doença seja incurável, e neste caso Deus intervém de maneira miraculosa, fazendo-a desaparecer de um modo que permanece misterioso para nós e para os médicos. A estes resta apenas reconhecer que a cura não tem explicação natural. Assim tem sido em Lourdes, onde funciona um centro médico aberto a todos os médicos, crentes ou não, os quais têm atestado essas curas inexplicáveis. É o milagre, a intervenção de Deus que supera o nosso entendimento, mas que está no poder d’Ele, infinitamente sábio, poderoso e bom!

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