Setembro de 2009
Luís XIV e Maria Antonieta eclipsam Maio de 68
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Internacional

A memória de Luís XIV e de Maria Antonieta eclipsa a lembrança de Maio de 68

A explosão anárquica da Sorbonne disseminou modas e costumes imorais e libertários. Certa mídia comemora o 40º aniversário do fato, mas aspirações profundas da opinião pública sopram em direção oposta.

Luis Dufaur

Maio/1968 — Maio/2008: 40 anos depois da revolução anarco-libertária que explodiu na Universidade da Sorbonne, em Paris, certa mídia ocupa-se exaustivamente do tema, estendendo-se em comentários e reportagens. Mas, por parte da opinião pública, observa-se um vazio e até frieza em relação àquele evento. É uma contradição, que leva a perguntar se restou algo de vivo dessa revolução, que entretanto, sob certos aspectos, se impôs.

Neste ano, de passagem por Paris, quis apalpar como estava, no berço da revolta da Sorbonne, o estado de espírito do povo em relação a essa revolução que atingiu o mundo todo. Mas não foi fácil. Eis por quê.

Um desânimo no triunfo aparente

Hoje cético, Daniel Cohn-Bendit, o homem-símbolo de 68
O diário parisiense “Libération” nasceu como um pasquim que era distribuído nas barricadas de Maio de 68. A este título, deveria ser o mais genuíno e ardido porta-voz dessa revolução, e desde o início do ano publica uma seção especial sobre o seu 40º aniversário. A seção é precedida sempre por uma pergunta: "Esprit, est-tu-là?" ("espírito, você ainda está aí?"), supondo que um médium espírita faria pergunta similar ao espírito de um ente desaparecido.

O “Libération” é hoje um periódico sustentado por ricaços, representantes do capitalismo que Maio de 68 propugnava extinguir...

Em 68, os revolucionários pichavam nas paredes o slogan: Corre, camarada! O mundo velho vem atrás de você. Hoje, um desanimado soixante-huitard (geração do movimento de Maio de 68) parafraseou o slogan no site do "Le Nouvel Observateur", grande semanário socialista francês: "Pára de correr, camarada! O mundo velho te superou numa virada à direita".(1)

Ambas publicações me deixaram perplexo. Pois, como pode ser que o "mundo velho" esteja hoje na dianteira? Poderia parecer que nessas expressões há um certo exagero de espíritos impacientes e um tanto desanimados.

Nos costumes e nas modas, Maio de 68 venceu

Percorrendo as ruas de Paris, minha perplexidade aumentava. Pois as modas — neste último inverno europeu, como nos anteriores — só refletem a vulgaridade igualitária e imoral que Maio de 68 arvorou como bandeira.

A cor preta nas roupas masculinas e femininas domina a Cidade Luz. E não é um preto bonito e solene: é fosco, desbotado, sujo. Adequado para coveiro, carvoeiro ou limpador de chaminés. Há exceções, é claro: vêem-se jaquetas cor de abóbora, de mostarda, de terra, de areia — tonalidades “ecológicas” — e até alguma tonalidade cereja ou verde-musgo. Mas os tons, mesmo os estridentes, têm sempre algo de tristonho. As roupas apresentam-se amassadas, e até exibindo acintosamente, de modo vulgar, caspa e cabelos não removidos.

De resto, entre os jovens ao menos, a uniformidade se impõe: mascar chiclete, fumar ansiosamente, “plugado” no MP3, e consultar sem repouso as mensagens no celular. Sim, nos estilos e na moda, Maio de 68 triunfou.

Entretanto, ao mesmo tempo — eis a coisa singular — essas mesmas pessoas submissas às modas soixante-huitardes passam a impressão de que o entusiasmo revolucionário se esgotou. Não há paixão por Maio de 68. Em seu lugar, nota-se tédio e torpor.

Sarkozy vive o espírito de 68, mas prometeu o contrário

Um comentário de Daniel Cohn-Bendit, o homem-símbolo de 68 — aliás, ele anda muito sucumbido —, em algo me esclareceu: “Nós temos um presidente da República soixante-huitard, que fez seu o slogan de 68 'gozar sem freio', e o demonstra todos os dias”.(2) Referia-se ele aos escândalos que o presidente Sarkozy vem dando na sua vida matrimonial, a ponto de introduzir no Palácio de Windsor como primeira-dama, em visita oficial do presidente da França, uma ex-modelo de má reputação!

Porém, um dos argumentos que levaram Nicolas Sarkozy à presidência francesa foi precisamente a promessa — hoje brutalmente desmentida — de “liquidar” e “virar a página de Maio de 68”.(3) Em poucas palavras, Sarkozy ganhou porque soube atrair o voto do "mundo velho"; e este, nas urnas, foi majoritário. Mas age como se fosse o contrário.

Maio de 68: revolução com uma perna quebrada

Nas ruas de Paris as manifestações anarquistas assolaram a capital durante várias semanas
Sarkozy está longe de ser o primeiro presidente a se guiar pelos princípios corrosivos de Maio de 68. Em 1981, o presidente socialista François Mitterrand encarnou a esperança, viva para os revolucionários de 68, de passar do protesto para os fatos. Ele foi o portador de um elaborado projeto, visando aplicar aquela palavra mágica e ainda pouco conhecida que aparecia nos grafites de 68: autogestão!

Porém, menos de um ano depois de eleito, ele enterrou o mesmo projeto, sem dar explicações a seus ardorosos seguidores de 68. Em numerosas ocasiões, Catolicismo mostrou o efeito decisivo que teve nesta abrupta marcha-à-ré a mensagem contra o socialismo autogestionário, de autoria do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira — "O socialismo autogestionário: em vista do comunismo, barreira ou cabeça-de-ponte?".

Mitterrand e seus próximos não podiam contar aos turbulentos ativistas de Maio de 68 a verdadeira causa dessa retração, sob pena de desanimá-los ainda mais. Ofereceram-lhes então — e largamente — cargos no governo e benesses de toda espécie. A mídia macrocapitalista acolheu-os de braços abertos. Com o tempo, esses mesmos "idealistas" da ultra-esquerda acabaram se envolvendo em escândalos econômicos ou renegando com seu estilo de vida os ideais tóxicos que tinham berrado nas barricadas da Sorbonne.

Aliás, algo parecido aconteceu no Brasil. Os governos de FHC e do PT deram também postos de comando decisivos a agitadores de Maio de 68. Observou-o o cientista político João Roberto Martins Filho: "A geração do movimento de 68 chegou ao poder, seja no governo FH, seja no governo Lula. [...] Símbolos dessa geração são José Dirceu e José Genoíno, recentemente punidos pela forma como se comprometeram". Martins Filho acrescentou que "o resultado de 68 no Brasil foi frustrante. [...] Se formos pensar nas grandes utopias, [...] houve uma desilusão muito grande. [...] Do idealismo mesmo, sobrou muito pouco”.(4)

Sacristias: refúgio da revolução

No recuo de Maio de 68 houve uma exceção. Nos seminários, institutos de teologia, paróquias e dioceses, a utopia soixante-huitarde entrelaçou-se ardidamente com os fatores de caos religioso que marcaram o período pós-Vaticano II.

Foi assim que, nos anos seguintes, instalados em postos de governo, eclesiásticos e civis ativistas de 68, utilizando órgãos da mídia, promoveram a espantosa Revolução Cultural que devastou a vida quotidiana do mundo ocidental e cristão: amor livre, aborto, “casamento homossexual”, nudismo, contestação de toda forma de autoridade familiar, civil ou religiosa, hostilidade declarada à propriedade privada, proclamação desavergonhada do hediondo e do aberrante nas artes, na cultura e na vida de todos os dias.

Porém, fracassou a substituição do odiado capitalismo pela sonhada autogestão. Assim, a utopia libertária de Maio de 68 correu loucamente para a frente, mas com uma perna quebrada. A perna que restou permitiu-lhe dar saltos imensos em matéria de moral e costumes. A perna quebrada da transformação radical da ordem político-social e econômica, que devia acompanhar a Revolução Cultural — a perna da autogestão — não conseguiu acompanhar.

Maio de 68 fez um prodigioso avanço, mas capenga. E 40 anos depois seu espírito aparece entorpecido. Hoje, nos jornais franceses, além de artigos de caráter histórico, muitas vezes nostálgicos ou eruditos, não se encontra mais o fervor revolucionário que incendiava as barricadas do Quartier Latin. Pelo contrário, é freqüente se deparar até com amarguradas lamentações pela perda do élan de outrora. E isso sem falar das críticas aos líderes de 68, hoje indecorosamente acomodados — como, por exemplo, o atual chanceler francês Bernard Kouchner, ou o famigerado Daniel Cohn-Bendit — no establishment político, cuja extinção pediam com paralelepípedos na mão em 1968.

O passado pré-revolucionário atrai mais o interesse

Mitterrand fracassou na tentativa de transformar as tendências de Maio de 68 em fatos
Em inícios de fevereiro, fui procurar nas livrarias de Paris publicações novas que falassem do estado em que se encontra a tocha de 68 neste 40º aniversário. Não encontrei. Em fins de março, voltei disposto a localizá-las, armado duma lista publicada num hors-série do "Le Monde" sobre o próprio Maio de 68.

Na entrada de uma das maiores livrarias de Paris, deparei-me logo à primeira vista com uma grande mesa onde se expunham os títulos mais vendidos. “Estão aqui!” –– disse de mim para comigo. Eu esperava encontrar o número mágico 68, bem grande, em vermelho, de todas as formas!

Ó surpresa! 68 não era tema de nenhum dos livros de maior venda. Mas sobressaía uma pilha formada por um grosso volume de capa preta: "Livro Negro da Revolução Francesa". Folheei-o avidamente. Logo encontrei páginas estarrecedoras sobre os crimes perpetrados pela perseguição anticatólica e antimonárquica promovida pela Revolução Francesa. Imaginava topar com livros de apologia de 68, e descobrira uma polêmica contra a Revolução de 1789, avó da de Maio de 68!

Porém, não desisti. Entre as muitas mesas temáticas havia uma especialmente freqüentada. Seria essa, afinal, a de 68? Aproximei-me. Era sobre Lourdes e seu 150º aniversário! Uma vasta gama de edições, re-edições, álbuns e livros para todas as idades. Maravilhado, detive-me longamente e comprei alguns. Mas não era o que procurava.

Afinal, achei. Num canto secundário, aliás, mas eram bem as publicações sobre Maio de 68. Sentei-me num banquinho, para analisar com vagar. Tratava-se, na quase totalidade, de edições antigas, muitas das quais já conhecia, e até possuía. Puxei do bolso o hors-série do "Le Monde" com as novidades anunciadas como de recente publicação. Não estavam à venda.

Com a lista na mão, abordei uma balconista. Ela consultou o computador. As respostas foram secas e precisas: "Não saiu ainda, previsto para 3 de abril... Este outro não saiu, previsto para a segunda semana de abril...” etc., etc.

Decididamente, se houvesse interesse na opinião pública, há tempos esses livros estariam à venda. Saí com as mãos quase vazias...

O mito de Luís XIV povoa o subconsciente dos franceses

Exibição da prataria da época de Luís XIV
Contei essas minhas pesquisas a um amigo francês, e ele confirmou as impressões que eu tivera. Porém, logo e quase com avidez, mudou de assunto e me passou sua câmera digital, onde estavam disponíveis umas fotos:

— Veja. O Sr. certamente conhece.

Comecei a passar no visor uma série de fotos deslumbrantes. Tinha certeza de ter estado no local, mas não reconhecia as fabulosas peças de prataria que ali apareciam.

— Onde é? –– perguntei.

— Mas o Sr. conhece, pois sei que foi muito lá!

— Não identifico...

— É Versalhes! A exibição da prataria dos tempos de Luís XIV. Uma multidão já foi lá. Eram filas e mais filas de público. Foi uma odisséia entrar no palácio, algo magnífico!(5)

Meu amigo prosseguiu com elogios e exclamações quanto à mencionada exposição, e eu refletia: Aqui está o 'mundo velho', tomando conta das aspirações profundas dos franceses e deixando desanimados os admiradores de Maio de 68!

Maria Antonieta exerce mais fascínio que a Sorbonne

Exposição sobre Maria Antonieta no Grand Palais
Mas minha descida à realidade não parou ali. Pouco antes de voltar ao Brasil, contei a outro amigo que faria uma última visita a Paris.

— Então –– disse-me ele –– não deixe de visitar a exposição sobre Maria Antonieta no Grand Palais. Começou há poucos dias. Parece algo fora de série. Centenas de obras de arte e preciosidades exclusivas. Tudo sobre Maria Antonieta!

Visitei a exposição. É fabulosa! Nada de parecido já fora feito sobre a rainha martirizada pela Revolução Francesa.

Minha curiosidade, entretanto, era atraída pelas reações do numeroso público que a visitava. Quase todos eram franceses. De modo geral, eram pessoas dos melhores bairros de Paris. Nas modas, todas elas tinham aderido aos estilos de Maio de 68. Mas, em seus comentários quase sussurrados, palpitava a admiração comovida pela rainha de sonho que foi Maria Antonieta. Sem sabê-lo, os facinorosos revolucionários, que a decapitaram depois de um julgamento iníquo e odioso, transformaram-na numa rainha mítica, cuja figura atravessa as épocas.

Na saída do Grand Palais, voltava-me à memória o dito do desanimado soixante-huitard: "Pára de correr, camarada. O mundo velho te superou numa virada à direita". Entendi o que ele queria dizer. Nas aparências, nas modas, nos costumes, no barulho da mídia, Maio de 68 triunfou. Mas, nas propensões profundas de inúmeros franceses, o mito e as saudades dos tempos de Luís XIV e de Maria Antonieta estão tomando a dianteira!

Na Rue du Bac, mais um sintoma da preferência pela tradição

Fiz minha última despedida à capela da Medalha Milagrosa, em Paris, na Rue du Bac. Deparei-me com uma missa ou celebração do gênero, pois não compreendi bem aquela liturgia. E pensei: “Eis ainda Maio de 68, com suas desordens, infiltrado na Igreja”. Os oficiantes — religiosos e leigos — puxavam cânticos gesticulando descomedidamente, para estimular a participação dos fiéis que lotavam a capela. Poucos respondiam, e quase sem fôlego.

No fim, quando tudo terminara, uma voz entoou o “Ave, ave Maria”, na sua versão francesa, como se canta no santuário de Lourdes. A capela transbordava de emoção, e todos os presentes cantaram nas mais variadas línguas, sem necessidade de alguém estimulá-los.

Saí pensando: "Eis outra manifestação, desta vez religiosa, do 'mundo velho' que se diria sepultado por uma camada de asfalto. Contudo, tão logo ele encontra uma oportunidade, manifesta-se com força telúrica".

Compreendi então que, nas profundezas psicológicas que ditam os rumos da História, está se operando uma mutação transcendental, ao menos em grande número de pessoas. O "mundo novo" — igualitário, sensual, materialista, imediatista e neopagão — se estadeia na superfície, mas, na realidade, está seco e gasto. E o "mundo velho" — nostálgico da tradição, admirador da monarquia e devoto de Nossa Senhora — está gestando nas camadas subterrâneas o verdadeiro mundo do futuro.

________________

Notas:

1. http://tempsreel.nouvelobs.com/actualites/20080320.OBS5964/

lsreactions00e5.html?l=1

2. "Le Nouvel Observateur", Paris, 16-1-08, http://tempsreel.nouvelobs.com/actualites/politique/20080116.OBS5424/cohnbendit__sarkozy_est_un_adepte_du_jouir_sans_entrave.html.

3. Cfr. Catolicismo, junho/2007.

4.“O Globo“, Rio, 23-3-08.

5. Vide Catolicismo, março/2008 — “Cintila em Versalhes uma luz de prata”, p. 22-25.

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