Setembro de 2009
São Gregório VII: Zelo ardente pela causa de Deus
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Vidas de Santos

São Gregório VII
Zelo ardente pela causa de Deus

Um dos maiores Papas da História e uma das mais eminentes personalidades que produziram os séculos, combatendo os abusos do poder temporal e a decadência do clero

Plinio Maria Solimeo

São Gregório VII é uma das figuras mais santamente controvertidas da História. Os católicos verdadeiramente fiéis vêem nele um batalhador incansável na defesa dos direitos da Igreja, reformador exímio dos costumes do clero e grande santo, dos mais extraordinários Papas da História e um homem que marcou a fundo sua época e os séculos posteriores. Os inimigos da Igreja, precisamente por essas virtudes, o abominam, o que é para ele uma glória a mais. Historiadores imparciais, até mesmo não católicos, prestam homenagem à sua grande personalidade e força de vontade, sobretudo ao seu desejo sincero de fazer tudo pela exaltação do Papado, e conseqüente maior glória de Deus.






Origem humilde e grande personalidade

O menino Hildebrando, futuro Gregório VII, nasceu na pequena localidade de Saona, na Toscana, não longe de Siena, em uma família modesta. Seu pai foi, ao que tudo indica, carpinteiro, e nada teve a oferecer ao filho senão a proteção de um tio materno, Lourenço, que por seu mérito havia sido nomeado abade do mosteiro de Santa Maria, no Monte Aventino. Esse tio encarregou-se da educação do menino, de inteligência privilegiada, que fez profundos progressos nos estudos.

Ele era, como São Paulo, baixo de estatura e magro de corpo, mas, como o Apóstolo, tinha uma alma de fogo. Ainda clérigo, tendo recebido as ordens menores, entrou para o serviço de João Graciano, que tinha sido seu professor na escola lateranense. Este, apreciador do raro talento de Hildebrando, afirmava que nunca havia visto inteligência igual. Quando foi elevado ao sólio pontifício com o nome de Gregório VI, João Graciano nomeou-o seu secretário. Hildebrando, que tinha apenas 25 anos e era ainda subdiácono, foi assim providencialmente iniciado nos negócios da Igreja, a qual mais tarde governaria com tanta sabedoria e fortaleza. Nessa época ele travou relações com outro dos maiores homens do tempo, o cardeal São Pedro Damião.

Apesar de não ter sido ainda ordenado sacerdote, era já um grande pregador. O imperador Henrique III afirmou que nenhuma palavra o havia comovido tanto quanto a dele.

No ano 1045, Gregório VI foi deposto pelo imperador e desterrado para Colônia. Renunciou ao papado, e Hildebrando seguiu-o no exílio. Com a morte do ex-Papa no ano seguinte, Hildebrando viajou para a França, onde visitou a abadia de Cluny, então no seu apogeu. Encantado com a santidade de Santo Hugo e de Santo Odilon, nela tomou o hábito monástico.

Cardeal-diácono da Santa Igreja

Mas não pôde desfrutar por muito tempo do seu retiro. Bruno, bispo de Toul, tendo sido eleito Papa com o nome de Leão IX, confiou a Hildebrando a administração temporal da Igreja com o título de arcediago, e também o governo do mosteiro de São Paulo Extramuros, então muito decadente. Conferiu-lhe ainda o título de Cardeal-diácono. Secundado por Hildebrando, o novo Papa lançou-se com fervor e determinação à reforma do clero e restabelecimento das leis da Igreja, principalmente de sua liberdade contra a ingerência do poder secular. Para pôr em execução seus decretos, convocou um sínodo, no qual condenou os dois mais notórios males da época: a simonia, e a incontinência do clero. Em 1054, Leão IX entregou sua alma a Deus. Muitos milagres seus, em vida e depois da morte, fizeram com que seu nome fosse incluído no Martirológio Romano.

Durante o reinado dos quatro Papas seguintes, Hildebrando destacou-se de tal maneira, que “nada se fez naquele tempo em Roma sem o conselho e o assentimento de Hildebrando; ele dominava, com sua vasta capacidade, a corte e as facções, e todos tributavam respeito e homenagem ao seu elevado mérito”.(1) Sua influência chegou ao apogeu com o Papa Alexandre II (1061-73), que o nomeou seu chanceler. Já então desempenhava funções como as de um primeiro-ministro.

“São Pedro escolheu Hildebrando!”

Em 1073 falecia Alexandre II. E Hildebrando, como arcediago que era, presidia aos funerais. Em meio à cerimônia, o clero e o povo, homens e mulheres, prorromperam num brado unânime: “Hildebrando, Papa!” “São Pedro escolheu Hildebrando!”.

Recebendo então a ordenação sacerdotal, o novo Papa “estava muito versado na arte de governar, era consciente de sua missão, e tinha uma idéia elevadíssima da dignidade pontifícia. Sua promoção foi providencial. Com ele a reforma começou a ser eficaz”.(2)

Para obter de Deus as graças necessárias à Igreja naqueles tempos tão conturbados, São Gregório VII organizou um sodalício com o nome de Religio Quadrata, agrupando eclesiásticos e seculares que se propunham a rezar especialmente pela reforma.

Embora se concentrasse sobretudo nessa tarefa, seu programa era muito mais vasto. Incentivou, na Espanha, a reconquista do território em poder dos mouros, abençoando os estrangeiros que se alistassem nessa cruzada; planejava resgatar os Santos Lugares, acabar com o cisma grego e centralizar o governo eclesiástico. Mas o que tinha mais fundo em seu coração era zelar pela santidade da Igreja, com a eliminação da simonia (venda de coisas sagradas) e do nicolaísmo (violação da lei de celibato pelos clérigos). Estes vícios decorriam em grande parte da célebre questão das investiduras, isto é, da venda de cargos eclesiásticos ou prebendas por parte do imperador, de reis, de nobres e senhores feudais. Os altos dignitários eclesiásticos, que pagavam caro sua dignidade ao rei ou a outro senhor, procuravam indenizar-se, vendendo a seus subordinados as funções menores. Com isso elas não caíam nas mãos dos mais dignos, e sim nas de quem podia pagar mais. Essa questão complicada, que se estendeu até o século seguinte, gastou muito das energias do combativo Pontífice. Ele depôs o Arcebispo Godofredo de Milão por simonia, e na França substituiu praticamente todo o episcopado. Mas encontrou forte oposição na Alemanha, sobretudo da parte do Imperador Henrique IV.

Preciosa exaltação do primado romano

Condessa Matilde
Ao olhar de São Gregório VII não escapava nenhum canto da Terra. O rei São Canuto, da Dinamarca, pedia-lhe conselhos, o mesmo fazendo Olavo, da Noruega. Já o rei Boleslau II, da Polônia, malgrado os avisos da Santa Sé, se servia do governo somente para satisfazer suas brutais paixões. Chegou a enforcar, com suas próprias mãos, Santo Estanislau, bispo de Cracóvia, que o tinha excomungado. São Gregório VII atingiu com anátema o rei assassino, privou-o da realeza, desligou seus súditos do juramento de fidelidade a ele, e retirou o título de rei dos soberanos da Polônia, que durante muito tempo ficaram reduzidos a meros duques.

Em 1074 São Gregório VII renovou os decretos de seus predecessores contra a simonia e os casamentos de eclesiásticos. No ano seguinte, promulgou um decreto contra a investidura, proibindo a todo secular, sob pena de excomunhão, vender bispados. Uma semana depois, “Gregório redigiu seu Dictatus papae, coleção de 27 teses em que condensava de maneira lapidar sua concepção do poder pontifício sobre a base de uma exaltação do primado romano no aspecto legislativo, judicial, administrativo e dogmático, com aplicações concretas ao temporal. As proposições mais chamativas eram estas duas: ‘Que [o Papa] tem faculdade de depor os imperadores’; ‘Que pode desligar os súditos do juramento de fidelidade prestado a iníquos’. [...] [Isso porque] Cristo não excetuou ninguém do poder das chaves. Se a Sé Apostólica tem faculdade para julgar as coisas espirituais, com maior razão a terá sobre as temporais, que valem menos. Tudo o que há dentro da Igreja está sob o Papa; logo, os reis e imperadores, com todo seu poder e autoridade, estão submetidos ao Papa; portanto, este pode depô-los”.(3)

O Imperador Henrique IV em Canossa

Henrique IV permaneceu por três dias descalço na neve, vestido apenas com um hábito de penitente, implorando perdão
Henrique IV, entretanto, continuou repartindo bispados a pessoas indignas, e entabulou negociações com os normandos do sul da Itália para colher o Papa entre dois fogos. São Gregório o admoestou seriamente, ameaçando excomungá-lo e depô-lo. O imperador convocou uma assembléia em Worms, onde depôs o Papa, declarando-o privado da dignidade pontifícia. Gregório convocou um concílio em Roma, no qual excomungou e depôs o imperador. O efeito da sentença pontifícia foi fulminante, ao contrário da de Henrique. Imediatamente todos abandonaram Henrique IV. E os príncipes alemães, reunidos em Tribur, declararam que, se ele não obtivesse a absolvição da sentença no prazo de um ano, perderia a coroa. Entretanto, deveria viver como particular em Espira, despedir seu exército e todos os conselheiros excomungados, e se abster do culto público enquanto aguardava a decisão do Papa.





Henrique IV na neve
O imperador, sentindo-se perdido, viu que não tinha saída senão procurar o Sumo Pontífice e dele obter perdão. No inverno de 1076-1077 — o mais frio do século — atravessou os Alpes e foi até onde estava São Gregório VII, em Canossa, na Toscana, na propriedade da Condessa Matilde. Lá Henrique permaneceu por três dias descalço na neve, vestido apenas com um hábito de penitente, implorando perdão. Por fim o Papa, cedendo às instâncias dos que o rodeavam e às mostras de arrependimento do imperador, retirou as censuras. Henrique comprometeu-se a dar a Gregório toda ajuda necessária para resolver os conflitos da Alemanha. Mas, apenas se viu reempossado com o poder imperial, mandou fechar a passagem dos Alpes, para impedir ao Papa sua viagem àquele país.

No sínodo quaresmal de 1080, Gregório voltou a excomungar e a depor Henrique IV. Este empreendeu uma expedição militar contra o Papa e sitiou Roma durante três anos. Gregório se refugiou no Castelo Santo Ângelo. Henrique IV recebeu a coroa imperial das mãos de um antipapa, e depois abandonou a toda pressa a cidade quando soube do avanço dos normandos, liderados por Roberto Guiscard, duque da Normandia, que libertou o Papa. Devido à fragilidade da situação, São Gregório abandonou Roma e se encaminhou para o desterro, falecendo em Salerno no dia 25 de maio de 1085. Suas últimas palavras ficaram célebres, e sintetizam sua combatividade heróica na defesa da Santa Igreja: “Amei a justiça e odiei a iniqüidade, por isso morro no desterro”.(4)

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Notas:

1. Dr. Eduardo Maria Vilarrasa, San Gregorio VII –– La Leyenda de Oro, L. González y Compañía, Editores, Barcelona, 1896, tomo II, p. 328.

2. J. Goñi Gaztambide, San Gregório VII — Gran Enciclopédia Rialp, Ediciones Rialp, S.A., Madrid, 1972, tomo XI, p. 325.

3. Id., ib.

Outras obras consultadas:

- Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, Bloud et Barral, Paris, 1882, tomo VI.

- Fr. Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones Fax, Madri, 1945, tomo II.

- Edelvives, El Santo de Cada Dia, Editorial Luis Vives, S.A., Saragoça, 1947, tomo III.

- John J. Delaney, Saint Gregory VII, Dictionary of Saints, Doubleday, New York, 1980.

- Thomas Oestreich, Saint Gregory VII, The Catholic Encyclopedia, vol. IV, Online Edition, 2003, Kevin Knight.

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