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A Igreja sagra Carlos Magno imperador e reergue a cultura

Carlos Magno

A Igreja instituiu, na ordem temporal, o Sacro Império Romano Alemão na pessoa de Carlos Magno, rei dos francos. Ele deu um impulso incomparável à educação e às artes. Nessa obra educadora sobressaiu Alcuíno [foto 4], conselheiro íntimo de Carlos Magno, pupilo de São Beda, o venerável, e abade do mosteiro de Saint Martin em Tours. Falando da biblioteca de sua abadia em York, Alcuíno menciona obras de Aristóteles, Cícero, Lucanus, Plínio, Statius, Trogus Pompeius e Virgílio.











Alcuíno expõe suas idéias a Carlos Magno

O bem-aventurado Papa Vítor III, que foi abade de Montecassino, na Itália, patrocinou a transcrição de obras de Horácio, Sêneca e Cícero. Santo Anselmo, quando abade de Bec, na Inglaterra,recomendava Virgílio e outros clássicos a seus estudantes, mas prevenia-os contra as passagens imorais. Num exercício escolar de Santo Hildeberto, encontramos excertos de Cícero, Horácio, Juvenal, Persius, Sêneca, Terêncio e outros. Santo Hildeberto, aliás, conhecia Horácio praticamente de memória.

minuscula carolíngea

Inovação material decisiva foi a minúscula carolíngia. Antes dela os manuscritos não tinham minúsculas, pontuação ou espaços em branco entre as palavras. A minúscula carolíngia, com sua “lucidez e sua graça insuperável, apresentou a literatura clássica num modo que todos podiam ler com facilidade e prazer” (p. 14). O medievalista Philippe Wolff equipara este desenvolvimento à invenção da imprensa.

O fácil acesso ao latim abriu as portas ao conhecimento dos Padres da Igreja e dos clássicos greco-romanos. Pois é mito falso que os grandes autores da Antiguidade só vieram a ser resgatados pela Renascença, época histórica que iniciou o multissecular processo revolucionário que em nossos dias atingiu um clímax.

Lord Kenneth Clark mostrou que “só três ou quatro manuscritos antigos de autores latinos existem ainda; todo nosso conhecimento da literatura antiga se deve à coleta e cópia que começou sob Carlos Magno, e quase todo texto clássico que sobreviveu até o século VIII sobrevive até hoje!” (p. 17).

A coletiva aspiração medieval pela Cristandade

Beda, "o Venerável"

Esses avanços culturais brotaram de almas que aspiravam, sob o influxo da graça divina, ao triunfo do ideal católico no mundo, observa Woods.

Alcuíno traduziu essa apetência coletiva em carta a Carlos Magno: "Uma nova Atenas será criada na França por nós. Uma Atenas mais bela do que a antiga, enobrecida pelos ensinamentos de Cristo, superará a sabedoria da Academia. Os antigos só têm as disciplinas de Platão como mestre, e eles ainda resplandecem inspirados pelas sete artes liberais, mas os nossos serão mais do que enriquecidos sete vezes com a plenitude do Espírito Santo e deixarão na sombra toda a dignidade da sabedoria mundana dos antigos” (p. 19).

São João Crisóstomo narra que o povo de Antioquia enviava os filhos para serem educados pelos monges. São Bento instruiu filhos da nobreza romana. São Bonifácio e Santo Agostinho ordenaram a seus religiosos criar estabelecimentos de ensino por toda parte. São Patrício desenvolveu a alfabetização na Irlanda.

Concílios locais, como o sínodo de Baviera (798) e os concílios de Châlons (813) e Aix (816), ordenaram que se fundassem casas de ensino. Theodulfo, bispo de Orleans e abade de Fleury, exortava: “Em aldeias e cidades, os sacerdotes devem abrir escolas. [...] Que não peçam pagamento; e se recebem algo, que sejam somente pequenos presentes oferecidos pelos pais” (p. 20). Que diferença a com a nossa época, em que freqüentemente a educação pública é calamitosa e a educação privada é cara!

Do caos à civilização: obra beneditina

Universidade de Salamanca e copista medieval

No Oriente houve santos ermitões que poucas vezes comiam ou dormiam, outros ficavam em pé sem movimento semanas a fio, ou encerravam-se em túmulos durante anos. São vocações especiais. No Ocidente, o monaquismo foi estruturado por São Bento de Núrsia. Sua regra é de uma moderação e de um senso da ordem admiráveis.

Até inícios do século XIV os beneditinos tinham dado à Igreja 24 Papas, 200 cardeais, 7.000 arcebispos, 15.000 bispos e 1.500 santos canonizados. Em seu auge, a Ordem Beneditina reuniu 37.000 mosteiros. E não é uma questão apenas de números. A Ordem era tão admirada, que nela foram concluir seus dias 24 imperadores, 10 imperatrizes, 42 reis e 15 rainhas.

Essa colossal rede monástica explica a transformação do caos que existia no início da Idade Média, na civilização por excelência, a despeito de invasões e guerras.

Quando os gregos sofreram a invasão dos dórios no século XII a.C., recaíram durante três séculos no analfabetismo. O engajamento dos monges medievais com a leitura, escrita e educação evitou esse terrível destino aos europeus, após a catástrofe da queda do Império Romano do Ocidente. Não menos devastadoras foram as invasões posteriores de vikings, saxões, magiares ou maometanos. Mas a determinação inabalável de bispos e monges salvou a Europa de um segundo colapso. De acordo com o historiador malês Cristopher Dawson, as hordas saquearam mosteiros e queimaram bibliotecas, mas os monges impediram que a luz do conhecimento fosse extinta (p. 22).

Alguns mosteiros ficaram célebres pelo domínio de certos ramos do saber. Os monges de Saint-Bénigne em Dijon, na França, davam aulas de medicina. Os do mosteiro de Saint-Gall mantinham uma escola de pintura e gravação. Em conventos alemães podiam-se assistir aulas em grego, hebreu e árabe.

Os monges tinham devoção pelos livros e embelezavam os manuscritos, especialmente as Escrituras, com artísticas iluminuras. São Bento Biscop, fundador do mosteiro de Wearmouth (Inglaterra), mandava trazer livros de toda parte. São Maïeul, abade de Cluny (na França), viajava sempre com um livro à mão. São Hugo de Lincoln, prior de Witham, primeira cartuxa na Inglaterra, explicou: "Nossos livros são nossa delícia e nossa riqueza em tempos de paz, nossas armas ofensivas e defensivas em tempo de guerra, nosso alimento quando temos fome, e nosso medicamento quando estamos doentes" (p. 43).

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