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A Igreja inspirou os códigos de leis e o Direito Internacional


Farmácia de la Chartreuse (parte superior da foto )

Segundo o professor de Direito Harold Berman, os modernos sistemas legais "são um resíduo secular de atitudes e posições religiosas, que têm sua primeira expressão na liturgia, ritos e doutrinas da Igreja, e só depois nas instituições, conceitos e valores da Lei" (p. 187).

A Igreja restaurou o direito dos romanos, aportando uma contribuição própria inapreciável. O Papa Gelásio definiu os limites da ordem temporal e espiritual. O primeiro corpo sistemático de leis foi o Código Canônico. O conceito de direitos individuais, que se atribui erroneamente aos pensadores liberais dos séculos XVII e XVIII, de fato deriva de Papas, professores universitários, canonistas e filósofos católicos medievais. Deve-se também à Igreja o Direito Internacional. Pela influência d'Ela, os processos jurídicos e os conceitos legais substituíram os juízos dos germanos baseados na superstição.

A Revolução igualitária, que se iniciou no século XV, gerou pensadores como o filósofo britânico do século XVII Thomas Hobbes, para quem a sociedade humana é impossível sem uma espécie de despotismo. Para ele, o soberano deveria definir o que é verdadeiro e o que é errado, isto é, agir de um modo iluminado e arbitrário.

Os escolásticos fundaram a economia científica

Hôtel-Dieu de Beaune, França, um dos mais antigos hospitais medievais

Um dado muito pouco conhecido é que a Igreja inspirou o pensamento econômico. Joseph Schumpeter, em sua History of Economic Analysis (1954), disse dos escolásticos: “Foram eles os que chegaram, mais perto do que qualquer outro grupo, a serem os ‘fundadores’ da economia científica” (p. 153).

Jean Buridan (1300-1358), reitor da Universidade de Paris, deu importantes contribuições à moderna teoria da moeda. Nicolas Oresme (1325-1382), aluno de Buridan e padre fundador da economia monetária, estudou com prioridade os efeitos destrutivos da inflação (p. 155). Martín de Azpilcueta (1493-1586), escolástico tardio, escreveu sobre a carestia provocada pelo aumento de meio circulante. O Cardeal Caietano (1468-1534) justificou moralmente o comércio internacional e mostrou como a expectativa sobre o valor futuro da moeda afeta o presente do mercado (pp. 157-158). Para Murray Rothbard, “o Cardeal Caietano, um príncipe da Igreja do século XVI, pode ser considerado o fundador da teoria da expectativa em economia" (p. 158).

O franciscano Jean Olivi (1248-1298) foi o primeiro a propor uma teoria do valor subjetivo, e mostrou que o "justo preço" emerge da interação entre compradores e vendedores no mercado. Um século e meio depois, São Bernardino de Siena, o maior pensador econômico da Idade Média, consagrou esta teoria (p. 158).

A caridade cristã exorcizou a brutalidade pagã

Hôtel-Dieu de Beaune: representação das freiras realizando suas tarefas hospitalares

W. E. H. Lecky destaca que nem na prática nem na teoria a caridade ocupou na Antigüidade uma posição comparável à que teve no Cristianismo. O historiador da medicina Fielding Garrison mostra que antes de Cristo "a atitude face à doença e à desgraça não era de compaixão. O crédito de cuidar dos seres humanos enfermos em grande escala deve ser atribuído à Igreja” (p. 176).

Os cristãos causavam admiração pela coragem com que atendiam os agonizantes e enterravam os mortos. Os pagãos abandonavam em ruas e estradas os parentes e melhores amigos doentes, semi-mortos, ou mortos sem enterrar.

Santo Agostinho fundou uma hospedaria para peregrinos, resgatou escravos, deu roupa aos pobres. São João Crisóstomo fundou hospitais em Constantinopla. São Cipriano e Santo Efrém organizaram os auxílios durante epidemias e fomes.

São Luís IX, rei de França

O rei de França São Luís IX dizia que os mosteiros eram o "patrimônio dos pobres". Eles davam diariamente esmolas aos carentes. Por vezes, míseros seres humanos passavam a vida dependendo da caridade monástica ou episcopal. Também distribuíam alimentos aos pobres em sufrágio da alma de um religioso falecido, durante trinta dias no caso de um simples monge, e durante um ano no caso de um abade. E, às vezes, perpetuamente.

Os hospitais, esses desconhecidos pelos não católicos

As ordens militares, fundadas durante as Cruzadas, criaram hospitais por toda a Europa. A Ordem dos Cavaleiros de São João (ou Hospitalários, que deu origem à Ordem de Malta) criou um hospital em Jerusalém por volta de 1113. João de Würzburg, sacerdote alemão, ficou pasmo com o que viu ali. "A casa — escreveu ele — alimenta tantos indivíduos fora dela quanto dentro, e dá um tão grande número de esmolas aos pobres, seja os que chegam até a porta, seja os que ficam do lado de fora, que certamente o total das despesas não pode ser contado, nem sequer pelos administradores e dispensários da casa". Teodorico de Würzburg, outro peregrino alemão, maravilhou-se porque "indo através do palácio, nós não podemos de maneira alguma fazer uma idéia do número de pessoas que ali se recuperam. Nós vimos um milhar de leitos. Nenhum rei, ou nenhum tirano, seria suficientemente poderoso para manter diariamente o grande número de pessoas alimentadas nessa casa" (p. 178).

Farmácia de la Chartreuse e Raymond du Puy

Raymond du Puy, prior dos Cavaleiros Hospitalários, incitou os monges-guerreiros a fazerem sacrifícios heróicos por "nossos senhores, os pobres". "Quando os pobres chegam — diz o artigo 16 do decreto de du Puy — devem ser assim acolhidos: que recebam o Santo Sacramento, após terem primeiro confessado seus pecados ao sacerdote, e depois sejam levados à cama, como se fosse um Senhor". O decreto de du Puy virou um marco no desenvolvimento dos hospitais (p. 178-179).










A caridade foi uma das características da Idade Média

O Hospital de Jerusalém inspirou uma rede de hospitais similares na Europa No século XII eles pareciam mais com hospitais modernos do que com os antigos hospícios. O de São João de Jerusalém impressionava pelo profissionalismo, organização e disciplina. Cada dia o doente devia ser visitado duas vezes pelos médicos, ser lavado e tomar duas refeições. Os responsáveis não podiam comer antes que os pacientes. Uma equipe de mulheres cumpria outras tarefas e garantia vestimentas e roupa de cama limpas.

O protestante Henrique VIII fechou os mosteiros e confiscou suas propriedades, na Inglaterra, sob a falsa acusação de que eram fonte de escândalo e imoralidade. Desapareceu então a caridade para com os necessitados. A redistribuição das terras abaciais trouxe "a ruína para incontáveis milhares dos mais pobres dos camponeses; a quebra de pequenas comunidades, que eram o seu mundo, e a verdadeira miséria passou a ser seu futuro" (p. 182). O desespero popular atiçou os motins populares de 1536 (p. 181).

Idêntico ou pior mal fez a Revolução Francesa. Em 1789, o governo revolucionário confiscou as propriedades da Igreja. Em 1847, mais de meio século depois, a França tinha 47% a menos de hospitais do que no ano do confisco (p. 185-186).

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