Maio de 2013
Palavra do Sacerdote
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A Palavra do Sacerdote

Pergunta Estou sem saber o que fazer. Sou católica e encaminhei minhas filhas dentro da Igreja, enquanto pude. Agora elas estão indo para a igreja evangélica. Por favor, me dê uma luz, me diga o que devo fazer e como devo me comportar diante dessa situação, pois quero que elas voltem para o Pai.

Monsenhor JOSÉ LUIZ VILLAC

 

Resposta O grito de aflição desta mãe reflete de modo pungente a situação da Igreja Católica em nossos dias, situação essa que tem sido objeto da atenção e tentativas de solução de autoridades eclesiásticas, a bem dizer, nos últimos 100 anos. Ou muito mais, se quisermos ver o problema em toda a sua extensão. A isso consagraremos a matéria deste mês. Porém, a dor de uma mãe pede antes uma palavra que fale mais diretamente ao seu coração.

Aquela transmissão da fé de pais para filhos, que ocorria de modo mais ou menos tranquilo na primeira metade do século XX, sofreu uma inflexão abrupta para baixo. Já vinha declinando lentamente nos decênios anteriores, mas a partir de meados da década de 60 a queda foi quase vertical: a Revolução da Sorbonne, em maio de 1968, pode ser tomada como um marco histórico. Por uma coincidência não destituída de significado, essa época assinala também o período da implantação de uma nova visão de Igreja inculcada pelo Concílio Vaticano II (1962-1965). Os Padres Conciliares afirmavam que conseguiriam uma renovação da vida religiosa abrindo a Igreja para o mundo moderno. Foi o famoso aggiornamento, preconizado pelo “bom Papa João” [João XXIII], de “abertura das janelas” da Igreja, para que nela entrasse ar puro e renovador. O Pontífice seguinte, Paulo VI, registrou ter penetrado a “fumaça de Satanás” na Igreja de Deus. E tal constatação trágica ocorreu poucos anos depois do término da Assembleia Conciliar...

 

Apostasia silenciosa

Esses dois movimentos concomitantes — a abertura da Igreja para o mundo moderno e a liberação dos costumes nos âmbitos privado e público desencadeada pela Revolução da Sorbonne — produziram, contra os prognósticos otimistas então imperantes, dois efeitos gravemente negativos: um número considerável de católicos abandonou a Igreja e se bandeou para as seitas ditas evangélicas (até agora chamadas de protestantes); outros, sem negarem ostensivamente sua pertencença à Igreja, adotaram um teor de vida de laxismo moral, pouco se importando com os princípios doutrinários e éticos da Igreja. Foi o que um documento recente do Sínodo de Bispos, realizado em Roma, definiu como “apostasia silenciosa”.

Os dois caminhos produziram o mesmo efeito: o esvaziamento dos templos católicos.

A aflita mãe que nos pede socorro está diante do primeiro caminho escolhido por suas filhas: a adesão a um culto evangélico (portanto não católico); outras mães viram suas filhas e filhos tomarem o caminho da “apostasia silenciosa” — e talvez elas mesmas o tomaram!

Que conselho dar para a mãe que nos pergunta o que fazer? Uma vez que recebeu a graça de conservar íntegra sua fé e a confiança inabalável no auxílio divino, deve elevar preces fervorosas à Mãe de Deus para que Ela chame de volta suas filhas. Do Céu, Nossa Senhora velará por elas, espreitando os seus corações, à espera da hora oportuna para inspirar-lhes o desejo do retorno ao seio da Igreja. Que elas compreendam que apesar dos males doutrinários e morais que atualmente penetram a Igreja, esta permanece a única verdadeira e deles poderá e deverá livrar-se. Reze muito, muito e muito, que isso, mais dia, menos dia, acontecerá!

 

Apostasia ruidosa e agressiva

Para que a descrição do quadro diante do qual nos encontramos seja objetiva e completa, cumpre observar que, ao lado da apostasia silenciosa de muitos, há também a apostasia ruidosa de uma minoria. São pessoas que apostataram da fé católica e propugnam agressivamente a liberação total dos costumes: aborto, aprovação da eutanásia, concessão de “casamento” aos homossexuais, classificação da “homofobia” como “crime” etc. E dizem permanecer na Igreja!

Por tratar-se de uma apostasia ruidosa — e ademais agressiva — ela é mais perceptível do que a silenciosa.

A Revolução da Sorbonne, em maio de 1968, pode ser tomada como um março histórico. Por uma coincidência não destituída de significado, essa época assinala também o período da implantação de uma nova visão de Igreja inculcada pelo Concílio Vaticano II.

Dessa maneira, os ruidosos transmitem a impressão de constituírem a maioria da Nação. Mas, de fato, não passam de uma minoria. Por isso, os movimentos atuantes em defesa dos princípios autenticamente cristãos devem lutar de cabeça erguida, não só por estarem defendendo os princípios do Evangelho — o que é o mais importante — como também por falarem em nome da maioria, princípio “sacrossanto” da democracia!

Não há razão, portanto, para se acovardarem diante do barulho feito pela minoria agressiva: seus agentes se gabam de falar em nome do progresso, da liberdade, da modernidade. Assim, consideram-se no direito de impor seus falsos princípios à maioria.

Se os defensores dos princípios católicos lutarem com inteligência e coragem há condições de vitória. No mesmo sentido, há também alguns movimentos protestantes, realmente combativos em várias das questões atualmente em foco. Principalmente se os católicos não se deixarem influenciar pela “boca mole” de alguns membros da Hierarquia eclesiástica, inclusive ocupando cargos de destaque na CNBB. É penoso dizê-lo, mas a realidade está à vista de todos: frequentemente, quando se pronuncia, a CNBB tem sidoa voz que adormece e a mão que apaga,procurando extinguira chama da luta dos batalhadores da boa causa (leigos, clérigos e alguns bispos). Na prática, eliminam o qualificativo característico da Igreja na Terra: militante.

No momento, pontos inegociáveis da doutrina católica estão sendo postos em xeque, como no projeto de Código Penal, em discussão no Congresso Nacional, o qual subverte totalmente os princípios mais elementares da justiça e do bom senso em matéria penal.

Mesmo desencorajados pelas atitudes concessivas de autoridades que deveriam estar na linha de frente dessa luta, ninguém tem o direito de esmorecer na defesa do que ainda resta da civilização cristã; pelo contrário, todos devem crescer em coragem e dedicação propugnando o acatamento total dos princípios da Lei natural e da Lei divina.

 

Restaurar a civilização cristã

E aqui chegamos ao ponto crucial que explica à nossa consulente a razão dos sofrimentos pelos quais ela passa atualmente. Muito tempo antes de ela nascer, o mundo ocidental vinha sendo transtornado por um processo multissecular de descristianização. Esse processo constitui uma verdadeira Revolução (com “R” maiúsculo), como veio sendo chamado por autores de renome, principalmente depois do Iluminismo e da Revolução Francesa, e cuja última e mais perfeita explicitação foi feita pelo intelectual e líder católico brasileiro de projeção mundial, Plinio Corrêa de Oliveira, em seu livro Revolução e Contra-Revolução.

Esse processo revolucionário multissecular visa destruir a Igreja e a civilização por ela criada — a civilização cristã — e desencadeia contra ambas em nossos dias seu derradeiro assalto. A nós, católicos do século XXI, coube a honra de sermos chamados a enfrentar esse último assalto. Somos poucos a lutar, somos parcos e fracos em recursos humanos. Porém, como não somos nós que lutamos — é Deus que luta pelos nossos braços — podemos ter a certeza da vitória.

Cumpre, portanto, afirmar com altaneria que a restauração da civilização cristã não só é necessária, mas possível, pois será a Providência divina que dará força aos nossos braços, de si inermes e impotentes. Nessa luta, distingue-se, porém, uma novidade importante: na primeira linha de combate aparece Aquela que Deus armou “terrível como um exército em ordem de batalha” terribilis ut castrorum acies ordinata (Cântico dos Cânticos 6,9). Será a Santíssima Virgem que comandará a batalha em que serão esmagados todos os inimigos de seu Divino Filho.

Esse triunfo foi anunciado 100 anos atrás, quando Nossa Senhora apareceu em Fátima, a três pastorzinhos portugueses, também eles inermes: Lúcia, Jacinta e Francisco. Depois de descrever todo o processo pelo qual o mundo passaria, Ela terminou dizendo: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará”.

E São Luís Maria Grignion de Montfort especifica: “Para que venha o Reino de Cristo, venha o Reino de Maria” (Tratado da Verdadeira Devoção, n° 217).

Note-se bem: o triunfo de Maria significa o triunfo de Cristo Rei!

 

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