Maio de 2013
"Desconstrução", nova "palavra-talismã"
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Entrevista

“Desconstrução”,

nova “palavra-talismã”

 

 

Juan Antonio Montes

“O ‘desconstrutivismo’, que parece uma espécie de absurdo relativista, está influenciando cada vez mais a vida de todos os dias de cada um de nós”

Ouvimos com frequência palavras cujo significado não conhecemos bem. À força de serem repetidas terminam entrando de modo impreciso no vocabulário e na mentalidade do público. Uma delas é “desconstrução”.

Qual é a sua origem? O seu sentido mais profundo? A radicalidade de sua meta? Estas e outras perguntas nós as formulamos ao Sr. Juan Antonio Montes, chileno, autor de um livro de recente publicação intitulado Da Teologia da Libertação à teologia eco-feminista.

Co-autor de duas outras obras sobre a atual crise da família publicadas no Chile, Juan Antonio Montes é presidente da Fundação de Estudos Culturais Roma e diretor da Associação Ação Família, de cujo boletim informativo é o redator. Foi durante muitos anos diretor da Sociedade Chilena de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) e já tem colaborado para Catolicismo.

 *       *       *

Catolicismo — O Sr. poderia explicar aos nossos leitores como e em que medida eles podem ser afetados por esse novo conceito de “desconstrução” que está sendo posto em voga?

Juan A. Montes Mais do que à primeira vista pode parecer. Na realidade, muitas vezes os fenômenos sociais são vistos dissociados e distantes da vida de cada um de nós. Mas, para percebê-los melhor, imagine o leitor saindo de sua casa e sendo abordado por um desconhecido que lhe dissesse ao ouvido que sua família deveria ser “desconstruída”. Certamente o olharia com descaso, pensando tratar-se de um louco ou de um brincalhão pouco oportuno, e prosseguiria seu caminho.

Imagine ainda que, chegando ao local de trabalho, encontrasse na entrada do estacionamento uma placa com os estes dizeres: “Atenção, estacionamento fechado por desconstrução”. Com certeza franziria a testa, pensando tratar-se de uma coincidência.

Imagine, finalmente, se já em seu escritório, sentado diante do computador, recebesse algumas mensagens escritas de modo abreviado ou simplesmente fonético. Por exemplo, oferecendo um serviço para sua “ksa”, em vez de “casa”. Perguntando a um colega sobre o porquê desse modo de escrever, este lhe explica que é uma linguagem “desconstruída”, habitual nas comunicações rápidas da Internet.

Todo esse conjunto de situações convergindo sobre uma mesma palavra chamaria provavelmente a sua atenção, mas a sua tendência seria procurar esquecer esse mau começo.

Plaza de Castilla, Madrid

Se no final de semana o leitor quisesse ir à Missa dominical e ouvisse o pároco dizer no sermão que a religião e a teologia deveriam ser “desconstruídas”, começaria certamente a considerar o tema importante e grave.

Então se perguntaria qual o significado dessa enigmática palavra “desconstrução” e sua recorrência nas mais diversas circunstâncias de sua vida diária, podendo perceber o quanto ela o afeta.

 Catolicismo — Mas qual é o significado de “desconstrução”?

Juan A. Montes Comvários significados nem sempre iguais, o conceito de “desconstrução” foi criado pelo sociólogo francês Jacques Derrida (1930-2004), discípulo do filósofo alemão Heidegger. Ambos forjaram uma corrente de pensamento de fundo inteiramente relativista baseada na ideia de que não existe nenhuma verdade objetiva e que tudo quanto se aceita como normal ou verdadeiro não é senão a imposição de um estereótipo cultural anterior.

Em função desse pressuposto, de acordo com Derrida, em qualquer ordem de coisas deve-se aplicar um critério de “suspeita” para cada afirmação feita. Isto é, deve-se perguntar o que cada uma delas representa dos estereótipos culturais e quais são os conceitos ausentes na afirmação realizada. E, uma vez vistos tais estereótipos e ausências, dever-se-ia “desconstruir” o afirmado para ver como se salvar deles.

Isto, que parece uma espécie de absurdo relativista próprio de filósofos encerrados em dissertações bizantinas, está influenciando cada vez mais a vida de todos os dias de cada um de nós. 

Catolicismo — O Sr. poderia dizer que doutrina está por detrás disso e quais são as suas consequências na vida quotidiana de cada um?

Juan A. Montes Darei alguns exemplos concretos para se compreender melhor essa doutrina e sua influência na vida diária. Tomemos a arquitetura, que influi sobre os que vivem numa cidade. Provavelmente todo mundo já se deparou com edifícios que dão a impressão de estarem prestes a cair, ou nos quais o arquiteto se esqueceu de aplicar as leis da simetria e da lógica, produzindo um mal-estar indefinido em quem os vê. Tais impressões não são fruto nem de uma casualidade nem de um mau arquiteto; representam precisamente o desejo “perturbador” da arquitetura “desconstrutivista”.

De acordo com aqueles que os estudaram, “o desconstrutivismo é um movimento arquitetônico nascido em fins da década de 80. Caracteriza-se pela fragmentação, pelo processo de desenho não linear, o interesse pela manipulação das ideias da superfície das estruturas que se empregam para distorcer e deslocar alguns dos princípios elementares da arquitetura. A aparência visual final dos edifícios da escola desconstrutivista se caracteriza por uma estimulante imprevisibilidade e um caos controlado”. Um dos principais arquitetos que transformaram essas ideias em edifícios foi o norte-americano de origem judaica Peter Eisenman, que traçou as bases filosóficas do movimento literário da desconstrução e colaborou com Derrida em alguns projetos (para se conhecer algumas de suas obras, ver: http://www.plataformaarquitectura.cl/tag/peter-eisenman/).

Este caos intelectual produz um profundo mal-estar naqueles que possuem ainda vivas as noções de ordem, pois a desordem sempre causa desagrado e choca-se com as noções de beleza, bondade e verdade impressas nas almas de todos os homens.

Prédio em Dusseldorf, Alemanha

“As cidades modernas vão se povoando de edifícios por assim dizer ‘desconstrutivos’, os quais vão introduzindo um caos visual e mental nas almas”

Produzir esse efeito chocante, mas ao mesmo tempo “encantador” como uma serpente diante de um pássaro prestes para ser devorado por ela, é o desafio da desconstrução da arquitetura. De acordo com seus postulados, “a tentativa do desconstrutivismo é libertar a arquitetura das regras modernistas que seus seguidores julgam construtivas, como ‘a forma segue-se à função’, ‘a pureza da forma’ e ‘a verdade dos materiais’”.

Este movimento é na arquitetura o que os subversivos são na ordem política: pretende subverter a ordem vigente e transformá-la em edifícios ou construções que estabeleçam outro modo de ser ou de se apresentar.

As cidades modernas vão se povoando de edifícios por assim dizer “desconstrutivos”, os quais vão introduzindo um caos visual e mental nas almas de seus habitantes. Isso exerce naturalmente uma importante influência em nosso modo de pensar e sentir.

 Catolicismo — Quanto à arquitetura moderna, creio que com a sua explicação a intenção dos chamados “desconstrutivistas” ficou bem clara. O Sr. poderia fornecer outro exemplo?

Juan A. Montes Permito-me uma precisão. Não se trata da “arquitetura moderna”, pois esta ainda aceitava certas normas de estética. A arquitetura desconstrutivista distingue-se da moderna e adota o nome de “pós-moderna”. Respondendo agora à sua pergunta, é necessário sublinhar que esta corrente afeta todas as manifestações da vida. Por exemplo, outro alvo da desconstrução é o ensino. Como é natural, a educação transmite as convicções e os modos de ser — os “estereótipos culturais”, diriam os desconstrutivistas — de uma geração à que se lhe segue. Impõe-se, pois, acabar com essa transmissão pela introdução de uma nova forma de educar.

Sintomático nesse sentido foi o seminário sobre o tema “Re-sintonizando a educação”, organizado em 2012 pela Fundação Telefónica do Chile, o qual contou entre os palestrantes com Alejandro Piscitelli. Na sua intervenção, tentando responder à pergunta “que coisas estamos fazendo para transformar (re-sintonizar) a educação?”, ele descreve um contexto marcado pelo signo de uma nova ecologia do conhecimento.

Alejandro Piscitelli: "A ruptura entre o ócio e o estudo para aprender também jogando e divertindo-se

“Outro alvo da desconstrução é o ensino. Como é natural, a educação transmite as convicções e os modos de ser de uma geração à que se lhe segue”

Entre os princípios fundamentais dessa nova forma de ensinar encontra-se a necessidade de “fragmentar o binômio mestre-aluno para gerar uma multiplicidade de vias, mediações e mediadores de aprendizagem”. Ele continua: “A ruptura entre o ócio e o estudo para aprender também jogando e divertindo-se; que os sujeitos sejam ativos não só na construção do conhecimento, mas também de uma cidadania guiada pelos valores de justiça, colaboração e solidariedade”.

Como se pode intuir desta ou de outras normas da desconstrução no aprendizado, o estudo já não seria penoso para as crianças, pois se transformaria em um entretenimento, em um jogo que elas fariam diariamente com seus professores em ambiente lúdico e igualitário.

Subsidiária da empresa mundial do mesmo nome, a Fundação Telefónica concedeu o “Prêmio à inovação educativa 2012” a esta iniciativa de nova aprendizagem, da qual participaram mais de três mil professores de 30 países atendendo a milhares de crianças — melhor seria dizer de vítimas — de vários continentes. (Para maiores detalhes, pode-se consultar http://premioeducacion.fundaciontelefonica.com/).

 

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