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Entrevista

Catolicismo — O Sr. não fica constrangido de criticar uma linha assumida por dois Papas?

Prof. de Mattei — O historiador não é um hagiógrafo. O grande historiador dos Papas, Ludwig von Pastor, não poupou respeitosas críticas aos numerosos pontificados por ele examinados. É do ponto de vista histórico que eu exponho juízos sobre Pio XII, João XXIII, Paulo VI e isso não deveria escandalizar ninguém.

Catolicismo — Mas o Sr. foi acusado, em algumas recensões, de ter saído de seu campo de estudo, a História, e não distinguir os textos do Concílio de seu contexto histórico, fundindo textos e contexto num único evento. Tal como faz a escola progressista de Bolonha para favorecer a interpretação dos textos segundo a “hermenêutica da ruptura”.

“É no plano histórico e não teológico que julgo o Concílio Vaticano II como uma Revolução na Igreja e, sob muitos aspectos, um evento desastroso”

Prof. de Mattei — Somente um leitor apressado e tendencioso pode lançar-me tal acusação, porque afirmo precisamente o contrário. Jamais neguei a distinção lógica entre texto e contexto. A impossibilidade de separá-los não significa impossibilidade de distingui-los. Nego a tese da escola de Bolonha, segundo a qual os textos são absorvidos no contexto, ou seja, no evento e no “espírito do Concílio”. Os textos têm autonomia, importância e dignidade próprias, e devem ser avaliados, enquanto textos, no plano teológico. Reivindico competência no plano histórico e é sob esse aspecto que estudo um contexto, que necessariamente inclui a elaboração dos textos. É no plano histórico e não teológico, no qual não tenho competência, que julgo o Concílio como uma Revolução na Igreja e, sob muitos aspectos, um evento desastroso.

Catolicismo — No que, então, sua análise difere daquela da escola progressista de Bolonha?

Prof. de Mattei — É que Giuseppe Alberigo e seus discípulos (que, por sinal, fizeram uma coleção monumental de documentos originais e tiveram a gentileza de facilitar-me plenamente o acesso) inverteram o método de interpretação do Magistério da Igreja, assumindo como ponto de referência não a Tradição, mas o próprio Concílio. A escola de Bolonha faz a leitura da Tradição à luz do Concílio, atribuindo, portanto, a este uma infalibilidade que nenhum de seus textos, per se, possui. Assim — segundo essa escola — é preciso procurar a infalibilidade do Concílio no próprio evento conciliar, no seu espírito, no carisma impalpável que anima os textos, não traduzidos em fórmulas definitórias, que estão ausentes.

Catolicismo — Donde, então, a afirmação de Bento XVI de que o Concílio Vaticano II deve ser interpretado em continuidade com o Magistério tradicional?

Prof. de Mattei — Não há dúvida. Mas essa afirmação do Papa pressupõe, de fato, a existência, nos documentos conciliares, de passagens dúbias ou ambíguas, que necessitam uma interpretação. Diante dessa realidade, ou se sustenta, como faz Mons. Gherardini, que as doutrinas do Concílio incompatíveis com as definições dogmáticas anteriores não são nem infalíveis nem irreformáveis, e portanto não vinculantes, ou então atribui-se ao Concílio uma autoridade tal, que anula os 20 concílios anteriores, abrogando e substituindo todos eles.

Catolicismo — No atual debate em torno da hermenêutica do Vaticano II, qual é então o papel do historiador?

Prof. de Mattei — A pesquisa histórica é complementar da pesquisa teológica, e isso não deveria incomodar ninguém. Seria preciso, por acaso, renunciar a escrever a história do Concílio Vaticano II em nome da “hermenêutica da continuidade”? Ou permitir que ela seja escrita exclusivamente pela escola de Bolonha, que tem oferecido contribuições cientificamente valiosas, mas ideologicamente tendenciosas? E se elementos de descontinuidade emergissem no campo histórico, por que ter receio de trazê-los à luz do dia? Como negar a existência de uma descontinuidade, senão nos conteúdos, pelo menos na nova linguagem do Concílio Vaticano II? O inexplicável silêncio sobre o comunismo, por parte de um Concílio que pretendia ocupar-se das principais questões do mundo contemporâneo, por exemplo, é um fato clamoroso e catastrófico que, a um historiador, simplesmente não é lícito ignorar!

Catolicismo — Seu livro foi também criticado por estabelecer uma continuidade entre o Concílio e o pós-Concílio.

Prof. de Mattei — O Concílio não pode ser apresentado como um evento que nasce e morre no espaço de três anos, como se não tivesse tido raízes profundas e conseqüências igualmente profundas na vida da Igreja e da sociedade! Já no dia seguinte do seu término, o horizonte da Igreja nublou-se pela queda das certezas dogmáticas, pelo avanço do relativismo de uma nova moral permissiva, pela anarquia no campo disciplinar, pelo abandono do sacerdócio por parte de dezenas de milhares de padres e pelo afastamento da prática religiosa de milhões de fiéis. E o que dizer da retirada dos altares de crucifixos, estátuas de santos, etc. das igrejas? Mas, sobretudo, da queda vertiginosa das vocações sacerdotais e religiosas? Nos institutos religiosos masculinos, nos 40 anos, de 1965 a 2005, a queda chegou a um terço! Como negar a existência de uma profunda crise na Igreja pós-Conciliar, muitas vezes admitidas por Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI? Ora, todo grande acontecimento supõe uma causa proporcionada. É inimaginável ser o Vaticano II estranho à crise do pós-Concílio e que uma má “recepção” dos textos possa ser considerada uma causa proporcionada para explicar tudo o que aconteceu? Pode-se separar a Revolução pós-conciliar do Concílio?

Plinio Corrêa de Oliveira (círculo) diante da Basílica de São Pedro, por ocasião do Concílio

“Tive que consultar muitas fontes e, entre elas, o Catolicismo, que é uma das melhores para estudar as correntes católicas conservadoras latino-americanas”

Catolicismo — De acordo. Em tese é assim, mas como provar que foi isso que se deu na prática?

Prof. de Mattei — Para isso basta recordar um só episódio da “crise pós-conciliar”: quando, em 1968, Paulo VI promulgou a encíclica Humanae Vitae, um dos líderes da contestação foi o Cardeal Suenens. Quem era o Cardeal Suenens? Era o prelado a quem o próprio Paulo VI havia concedido um privilégio sem precedentes, apresentando-o à multidão, a seu lado, na janela do Palácio Apostólico, poucos dias depois de sua eleição. Era o jovem cardeal de Bruxelas que tinha aconselhado João XXIII a imprimir um caráter pastoral ao Concílio. Era o homem que, desde seu início, havia selado um pacto com D. Helder Câmara. Era o homem escolhido para guiar os quatro Moderadores do Concílio. Era o homem que, já durante o Concílio, tinha levantado o problema do controle da natalidade, pronunciando em plena basílica de São Pedro, em tom veemente, as palavras: “Não repitamos o processo de Galileo!” Ninguém mais do que ele desempenhara no Concílio o papel de protagonista.

O Cardeal Suenens, rebelde em relação a Paulo VI e à Igreja em 1968, era, por acaso, uma pessoa diferente daquele que, três anos antes, havia entoado o canto da vitória, após o encerramento do Concílio? Havia, por acaso, mudado de mentalidade, havia distorcido os documentos do Concílio, havia mal interpretado seu espírito? Suenens não precisava forçar ou distorcer os documentos conciliares, porque Suenens — como Frings, Alfrink, Bea e tantos outros — era o Concílio!

A pretensão de separar o Concílio do pós-Concílio é tão insustentável quanto pretender separar os textos conciliares do contexto pastoral no qual foram escritos. Nenhum historiador sério — e acrescento, nenhuma pessoa de bom senso — poderia aceitar esta separação artificial, que nasce de um preconceito e não da avaliação serena e objetiva dos fatos.

Ainda hoje vivemos as conseqüências da “Revolução conciliar”. Por que esconder isso? A Igreja “não deve temer a verdade”, como afirmou Leão XIII ao abrir o Arquivo Secreto do Vaticano aos pesquisadores.

Catolicismo — Muito obrigado pelo tempo que nos concedeu e por sua sinceridade, professor. Desejaria dizer algo mais aos leitores de nossa revista?

Prof. de Mattei — Para escrever o livro, tive que consultar todas as fontes disponíveis, e entre elas, o Catolicismo, que é uma das melhores fontes para estudar as correntes católicas conservadoras latino-americanas. Sua leitura tornou-se-me fácil e agradável, porque o italiano é próximo do português e, ainda jovem, aprendi seu belo idioma para poder ler no original as obras de Plinio Corrêa de Oliveira; e, mais tarde, para conversar com ele. Posso aqui confidenciar que Dr. Plinio está um pouco na origem de meu último livro. Porque, numa dessas saudosas conversas, ele explicou-me que, em sua estadia durante a primeira sessão do Concílio, havia notado que, na Itália em geral e em Roma em particular, existia um filão do clero que era piedoso e autenticamente conservador, mas que sentia medo de exprimir-se. E que meu papel contra-revolucionário devia ser levantar-lhe o ânimo com boas publicações e dizer a ele: “Ousai, monsenhores, ousai!”

Espero que, do Céu, ele esteja intercedendo junto a Nossa Senhora a fim de que esse trabalho contribua para uma autêntica restauração da Igreja, em favor da qual ele tanto lutou!

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