Outubro de 2012
A Conquista de Jerusalém – O Reino fundado pelos cruzados
Episódios Históricos

A Conquista de Jerusalém – O Reino fundado pelos cruzados

Os cruzados conquistaram a Terra Santa, mas isso não significou o fim da luta. O Reino de Jerusalém precisava ser reorganizado por meio de instituições sadias modeladas pelas Leis de Deus. Sob a influência da Igreja, surgem as Ordens de Cavalaria.

Ivan Rafael de Oliveira

No dia 15 de Julho de 1099, em Jerusalém, cânticos de louvor foram entoados por todo o clero e o povo cristão. Multidão de fiéis católicos, desde a igreja da Ressurreição, saiu em procissão, dirigindo-se ao encontro dos cruzados que acabavam de conquistar a cidade, por ocasião da I Cruzada.

Os cruzados passaram os primeiros dias no júbilo da vitória, visitando os santos lugares e enterrando os heróis mortos em batalha. Os nativos agradeceram também a Pedro o Eremita que, apesar de ter cometido graves faltas no percurso dessa cruzada, com sua eloquência ajudou a libertá-los da dominação dos infiéis. Ele terminou seus dias na França, em 1115, numa tranquila cela do monastério de Huy, por ele fundado.

Eleição do rei e Batalha de Ascalon

Entretanto, era urgente a eleição de um comandante para governar a cidade, pois um grande exército muçulmano aproximava-se para tentar retomá-la.

Alguns príncipes elegíveis preferiram retirar-se de qualquer disputa, enquanto em outros se descobriram impedimentos. O grande Godofredo de Bouillon surgiu como a escolha natural. O único “gravame” que nele encontraram foi o de permanecer demasiado tempo na igreja, mesmo após a Missa; ele ficava a inquirir sobre cada quadro do templo e sua história, enquanto em seu castelo a comida esfriava. Godofredo era conhecido por todos como um homem de muita dignidade, valente, prudente em seu conselho e irrepreensível em seus costumes; virtudes que determinaram sua escolha unânime.1 Quiseram fazê-lo rei.

Ao ser informado da escolha de seu nome, Godofredo recusou o honroso título, pois não queria usar uma coroa de ouro onde Nosso Senhor fora coroado com espinhos. Recebeu então o título de “Defensor do Santo Sepulcro”.2 Um capelão da Normandia, de nome Arnulfo, foi eleito Patriarca de Jerusalém. Em sinal da proteção vinda do Céu, pouco depois foram encontradas as relíquias da Santa Cruz.

Estátua de Godofredo de Bouillon com uma coroa de espinhos — Hofkirche, Innsbruck, Áustria.

Godofredo de Bouillon deposita os trofeus conquistados aos árabes diante do Santo Sepulcro. Quadro de François-Marius Granet (1839). Chateau de Versailles, France.

Constituídas as autoridades, imediatamente Godofredo e os cruzados partiram para a batalha. Os sarracenos vindos do Egito encontravam-se na cidade de Ascalon. Do lado muçulmano havia mais de 200 mil soldados, entre etíopes, beduínos e árabes. Em 14 de agosto travou-se o combate. Embora o exército católico fosse constituído por apenas cinco mil cavaleiros e 15 mil infantes, já no primeiro ímpeto do combate dispersou os inimigos. A vitória foi brilhante. Por muitos anos, a fama das hostes católicas ajudou a dissuadir os muçulmanos de qualquer novo ataque.

Certo dia, um emir, querendo comprovar essa fama do exército de Godofredo, pediu-lhe que com a espada cortasse, num só golpe, o pescoço de um camelo. Godofredo o fez sorrindo, e depois ainda repetiu o feito com uma cimitarra sarracena.

Estabelecimento do Reino de Jerusalém

O Reino de Jerusalém abrangia todos os territórios conquistados pelos cruzados na Ásia. Abarcava os principados da Síria e de Jerusalém — cujo príncipe era o próprio soberano de Jerusalém —, o principado de Antioquia, o condado de Edessa, o condado de Trípoli e diversos pequenos feudos e senhorios, como o principado de Tiberíades.

Godofredo desempenhava sua tarefa com religiosa gravidade, era justo para com todos, protegia as fronteiras, favorecia o comércio e o tráfego. Segundo um contemporâneo, “era um santo monge com hábito guerreiro e ornamentos ducais. Até chefes árabes o consultavam sobre os litígios de suas tribos, pela confiança que lhes inspirava”.3

A constituição do novo reino foi inspirada na organização das nações ocidentais, com seus feudos, suas hierarquias e a noção de subsidiariedade ensinada pela Igreja. Godofredo também encarregou homens prudentes de viajar e conhecer leis, costumes e tradições de outros povos, para depois poder estudar o que fosse encontrado de bom e aperfeiçoar a legislação.

O governo do primeiro “Defensor do Santo Sepulcro” infelizmente foi de breve duração, pois morreu em 18 de julho de 1100, com apenas 39 anos. Em seu túmulo na igreja da Ressurreição, lia-se esse singelo epitáfio: “Aqui jaz Godofredo de Bouillon, que conquistou todo este país para o cristianismo. Sua alma descansa em paz”.

As Ordens de Cavalaria

Dessa especial união entre a Igreja e a Cavalaria, existente na primeira cruzada, surgiram as Ordens de Cavalaria que tanto se empenharam para a conservação da Terra Santa. Eram cavaleiros orantes e monges armados, cujos mosteiros eram castelos. Cavaleiros que recebiam as expedições de peregrinos, amparavam-nas, curavam os feridos e enfermos. Obedeciam com o mesmo fervor ao sino para a oração e à trombeta que os convocava para a batalha. Eram os primeiros no ataque e os últimos na retirada. Enquanto lutavam, suas orações e cantos elevavam-se entusiasmados ao céu. O espírito das cruzadas, a união do heroísmo com a devoção, do amor ao próximo e da virilidade, da espada e da penitência, manifestavam-se com suas mais brilhantes luzes nas Ordens de Cavalaria.

A Ordem dos Templários

Representação de cavaleiros templários

Em 1118, Hugo de Payens com mais oito cavaleiros, em honra da Mãe de Deus, fizeram diante do Patriarca de Jerusalém os votos de castidade, pobreza e obediência, bem como o juramento de acompanhar e defender os peregrinos nos Santos Lugares, protegendo os caminhos contra as investidas dos infiéis. A ordem nascente era tão pobre, que no inicio dois cavaleiros cavalgavam um mesmo cavalo, fato que deu origem ao brasão da ordem.

Nenhuma associação podia responder melhor à tendência daquela época e às suas urgentes necessidades. Assim sendo, a ordem adquiriu rapidamente a estima geral. O Rei Balduíno II concedeu-lhe uma parte de seu palácio, o qual se erguia junto ao chamado Templo de Salomão. Por esta razão, a congregação tomou o nome de Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão (Templarii Milites, Fratres Templi, Ordo Pauperum Commilitonum Christi Templique Salominici) – ou simplesmente Templários, como ficaram conhecidos.

São Bernardo de Claraval entrega aos Templários a severa Regra cisterciense

Dez anos depois, a Ordem foi confirmada pelo Papa Honório II no Concílio de Troyes. O hábito a ser usado pelos cavaleiros consistia num manto branco, símbolo da pureza de coração; e nele uma cruz vermelha, sinal do martírio.

São Bernardo de Claraval interessou-se por essa Ordem e transferiu aos cavaleiros a ideia fundamental da severa Regra cisterciense: “Combatem somente pelos interesses de seu Senhor — escreve São Bernardo —, sem temor de incorrer em algum pecado pela morte de seus inimigos e sem perigo nenhum pela sua própria, porque a morte que se dá ou recebe por amor de Jesus Cristo, muito longe de ser criminosa, é digna de muita glória. Oh! Com quanta glória voltam do combate esses vencedores! Oh! Com quanta ventura morrem esses mártires na peleja! Regozija-te, campeão valoroso, de viver no Senhor, mas regozija-te ainda mais de morrer e ser unido ao Senhor. Eis, pois, valorosos cavaleiros, marchai com segurança, expulsai com uma coragem intrépida os inimigos da Cruz de Nosso Senhor”.4

Visão medieval sobre as cruzadas

A respeito da legitimidade das cruzadas, São Bernardo escreveu o seguinte: “Com efeito, se de nenhum modo fosse permitido a um cristão fazer guerra, por que teria o precursor do Salvador declarado no Evangelho que os soldados devem estar contentes com seu pagamento, e não proibiu toda sorte de guerra?”.

A posse de Jerusalém não foi considerada pelos medievais como uma conquista política, mas religiosa5, inclusive porque os cruzados deram liberdade aos peregrinos que buscavam a Terra Santa e que antes eram perseguidos e mortos pelos muçulmanos. O que os cruzados acima de tudo tinham em vista é que, depois de mais de mil anos, aquela terra regada pelo preciosíssimo sangue de Cristo, preço da salvação dos homens, agora pertencia àquele mesmo Senhor. É por isso que as cruzadas são hoje vistas como a projeção do intenso sentimento religioso da Idade Média.6

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Notas:
1. Guillermo de Tyro, loc. cit., IX cap.1-2, in Historia Universal, Juan Baptiste Weiss, Editora (Tipografia La Educacíon), Barcelona, 1933, Vol. V, p. 480.
2. http://ascruzadas.blogspot.com/2008/04/o-cerco-de-arsur-e-o-triunfo-da.html
3. Weiss, op. cit., p. 482.
4. http://ascruzadas.blogspot.com/2008/11/elogio-dos-templrios-feito-por-so.html
5. Plinio Corrêa de Oliveira, Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza romana, Livraria editora Civilização, Porto 1993, p. 321
6. Oliveira Lima, História da Civilização, 13° Edição, Edições Melhoramentos, S. Paulo, 1963, p. 186.