Outubro de 2012
Teologia da Libertação, luta de classes e conflito social
Entrevista

Teologia da Libertação, luta de classes e conflito social

Gerados pela doutrina marxista, esses itens “trigêmeos” têm levado populações de diversos países à miséria espiritual e material. Em nome do “povo”, da “justiça” e da “igualdade”.

Dr. Carlos del Campo:

"Segundo os defensores da Teologia da Libertação, a violência é um meio indispensável para a imposição de uma 'ordem' social igualitária"

Após vários fracassos decorrentes de suas doutrinas sócio-econômicas e, sobretudo, das condenações que recebeu nos meios católicos, a corrente vinculada à Teologia da Libertação atualmente está voltando ao noticiário com as mesmas ideias “requentadas”. Por exemplo, ao incentivar o estabelecimento de governos que façam a “opção preferencial pelos pobres”. Em nome “dos pobres”, é bom lembrar, o comunismo subjugou diversas nações e vimos no que deu... Um exemplo do passado: a queda da Cortina-de-Ferro. Um exemplo do presente: a miséria reinante em Cuba...

Por que os “teólogos da libertação” voltam a insistir no “conflito social” e no igualitarismo socialista para se chegar ao poder? Para obter os mesmos resultados fracassados? A fim de responder a estas e outras questões, Catolicismo entrevistou o Dr. Carlos Patricio del Campo, agrônomo formado pela Universidade Católica do Chile, com doutorado em Economia Agrária e título de Master of Science em Economia Agrária pela Universidade da Califórnia (Berkley - EUA). Ele é autor do livro Is Brazil Sliding Toward the Extreme Left? (O Brasil resvalando para a extrema esquerda? – 1986) e das partes técnicas e econômicas de duas outras obras em que foi co-autor com Plinio Corrêa de Oliveira: Sou católico: posso ser contra a Reforma Agrária? (1981) e A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista (1985).

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Catolicismo — O Sr. crê que a Teologia da Libertação — mesmo em sua versão purificada de certos conceitos marxistas e de pregações a favor da violência, mas ainda firmemente ancorada nas ideias da luta de classes e distribuição igualitária da riqueza — pode constituir uma solução para resolver os problemas de pobreza existentes na América Latina?

Dr. Carlos del Campo — Em primeiro lugar, importa dizer que é um erro imaginar que possa ser pacífico um movimento social construído sobre a ideia de que para se obter uma sociedade mais justa as condições necessárias sejam a luta de classes e a distribuição igualitária da riqueza.

A luta de classes e o conflito social estão necessariamente interligados; um não pode existir sem o outro como método de ação político-social. A isso se acrescenta o fato de que, segundo os defensores da Teologia da Libertação, a violência é um meio indispensável para a imposição de uma “ordem” social igualitária, pois sendo o igualitarismo contrário à própria ordem natural das coisas, ele só pode nascer e subsistir sob o império da violência. A História o comprova à saciedade. Portanto, a Teologia da Libertação enraizada na luta de classes e no igualitarismo, embora se julgue pacífica, é contraditória em si mesma e, por isso, inviável.

Estabelecida esta preliminar, passo a responder à pergunta propriamente dita. Para isso imaginemos a Teologia da Libertação em seu aspecto frequentemente apresentado como essencial e básico, a saber, a “opção preferencial pelos pobres”, entendendo-se por tal a formação de um ambiente, a tomada de atitudes e medidas enérgicas destinadas a diminuir a pobreza.

Nesse sentido e sem sombra de dúvida, com base na experiência e em fatos concretos, pode-se afirmar que o melhor caminho para diminuir a pobreza — e quiçá o único — seja a implantação do regime de economia baseado em três princípios fundamentais: a propriedade privada, a livre iniciativa e a ação subsidiária do Estado.

A plena vigência desses princípios básicos da verdadeira ordem social é condição necessária para limitar e minorar a pobreza. Entretanto, não é condição suficiente. Cumpre primordialmente que a sociedade esteja impregnada do espírito e da moral cristãos, fontes da autêntica justiça e da caridade.

A experiência na América Latina é uma prova disso. Os bolsões de pobreza existentes em diversos países do continente nada têm a ver com a economia de mercado. Pelo contrário, sua origem reside justamente nas políticas implantadas em desacordo com esta última. Um caso dos mais característicos é a política que a CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina), órgão dependente da ONU, promoveu na América Latina nas décadas de 40 e 50 do século passado. Ao colocar em prática um processo de industrialização forçada, de substituição de importações, ela penalizou os setores primários, especialmente a agricultura — empregadora na época da maior parte da população menos qualificada e de menor renda —, favorecendo ao mesmo tempo uma minoria de maior qualificação, cujos ingressos aumentaram. Isso provocou um aumento da desigualdade na distribuição da renda e fomentou o surgimento de bolsões de pobreza.

Catolicismo — As reformas estruturais do gênero da Reforma Agrária resolveram efetivamente os problemas de pobreza de certos setores da América Latina?

Dr. Carlos del Campo — Os dados objetivos revelam exatamente o contrário. A Reforma Agrária e algumas experiências de socialismo de Estado realizadas na América Latina o demonstram.

Os casos mais característicos são o de Cuba e o do Chile no tempo de Allende. A pobreza de Cuba, transformada por Fidel em ilha-prisão, é emblemática. A maioria da população vive amontoada em tugúrios, sujeita a um terrível racionamento de alimentos. Para aumentar os ingressos, muitas famílias são forçadas a entregar suas filhas à prostituição para satisfazer inescrupulosos turistas estrangeiros. A carne, o peixe, o leite etc. são artigos de luxo para maioria da população. Para se ter uma ideia da situação, citarei alguns dados do ano 2011. O salário médio mensal era de 460 pesos cubanos (equivalentes a US$ 21,03), sendo que 43% da população recebiam um valor inferior a esse. A cesta de racionamento custava 17,40 pesos, contribuindo com 41,2% das calorias mínimas recomendadas. Para se alcançar esse mínimo, era preciso incorrer num gasto adicional de 403 pesos. Sobravam 40 pesos (equivalentes a US$ 1,83!), com os quais se procurava pagar os serviços básicos como água, eletricidade, gás, transporte, produtos de higiene pessoal e do lar, e todos os gastos com as pessoas dependentes. Missão impossível! Estima-se que o umbral de pobreza se situaria em 841,40 pesos mensais por pessoa. Com o salário chegando somente a 460 pesos, pode-se bem imaginar a amplitude da pobreza e o grau de dificuldade para se viver em Cuba. Esses dados foram extraídos do artigo “A Pobreza em Cuba”, de autoria de Raúl A. Sandoval González, economista e professor da Faculdade de Economia da Universidade de Havana, publicado no site progreso-semanal.com em 28-3-12.

No Chile, dois anos após a Unidade Popular subir ao poder, a situação social e econômica do país era trágica. Nos dois últimos anos do governo de Allende (1972-1973), o produto geográfico bruto (PGB) teve uma diminuição em termos per capita de –2,9% e –7,1%, respectivamente. Como consequência da Reforma Agrária, nos anos 1971, 1972 e 1973 a produção agropecuária sofreu uma queda de –1,8%, –7,4% e –10,3%, respectivamente. Surgiram graves problemas de abastecimento de bens essenciais, gerando enormes filas, que se tornaram o drama diário da população, especialmente dos mais pobres, que não tinham condições para adquiri-los no mercado negro. A inflação chegou a níveis alarmantes, na ordem de 500% ao ano. Ou seja, três anos de governo em conformidade com os princípios da Teologia da Libertação conduziram o Chile ao caos econômico e social.

Catolicismo — A luta de classes fomentada por personagens como Hugo Chávez e Evo Morales resolveram realmente os problemas de pobreza nos seus respectivos países?

Dr. Carlos del Campo — Os dados disponíveis revelam que o desempenho da Venezuela e da Bolívia está de modo geral abaixo da média da América Latina. Segundo informações da CEPAL, publicada no “Panorama social da América Latina 2011”, a média anual de crescimento econômico do Continente foi de 2,3% no período de 2000-2008, –3,1% em 2009 e 4,9% em 2010. Para esses mesmos períodos, os valores da Venezuela foram 2,6%, –4,8% e –3,0%, e os da Bolívia 1,7%, 1,6% e 2,4%, respectivamente.

Com relação à pobreza, os resultados não foram melhores. A América Latina como um todo teve uma diminuição significativa da pobreza nos últimos 20 anos. Na década de 90, cerca de 45% da população era considerada pobre; em 2010 esse valor caiu para a ordem de 22%. No caso da Bolívia, ao contrário, a queda foi muito pequena, na ordem de 55% a 60% na década de 90 para 54% em 2007. No caso da Venezuela, a pobreza na década de 90 chegava a valores entre 40% e 50%, diminuindo para 28% em 2010; desempenho inferior ao da média da América Latina.

No outro lado do espectro latino-americano observam-se resultados bem superiores. No Chile, por exemplo, a pobreza diminuiu da ordem de 30% nos anos 90 para 11% em 2009. No Peru, da ordem de 48% nos anos 90 para cerca de 31% em 2010.

Sabe-se que os dados sobre pobreza e diminuição de renda em geral estão sujeitos a desvios não pequenos, por dificuldades práticas de obter informações confiáveis de renda e de outras variáveis. Somam-se ademais, a essa dificuldade, algumas modificações nos métodos de cálculo ocorridas no transcurso do tempo. Mas uma coisa parece certa: a verdadeira revolução econômico-social inspirada em grau maior ou menor na Teologia da Libertação posta em prática em alguns países da América Latina não obteve os resultados propalados pelos seus adeptos.

Mas tais resultados a ninguém deveriam surpreender. Sobram provas do fracasso das políticas estatizantes e intervencionistas na economia em plano universal. Bastam dois exemplos. O primeiro foi a queda do Muro de Berlim, que deixou patente a miséria a que estavam submetidos os países sob o jugo do socialismo e do comunismo.

O segundo exemplo, de grande atualidade, é a crise que vive a Europa em decorrência de uma política de forte participação estatal praticada por uma parte considerável dos países do Velho Mundo, sujeitos ademais às imposições da União Europeia. Destaca-se, nesse sentido, a implantação de uma moeda única, adotada sem levar em consideração a realidade econômica, política e ideológica dos países europeus.

Catolicismo — Para os “teólogos da libertação” é inclusive mais importante obter a igualdade das classes do que a superação da pobreza. De onde os elogios deles a Cuba, onde todos são pobres, mas iguais. O Sr. crê que esta seja uma visão cristã da sociedade?

Dr. Carlos del Campo — Evidentemente, não. A igualdade de classes é contrária à ordem natural criada por Deus. Nesse sentido, é interessante citar textualmente o que afirma o grande pensador católico Plinio Corrêa de Oliveira em seu livro Revolução e Contra-Revolução: “Santo Tomás ensina que a diversidade das criaturas e seu escalonamento hierárquico são um bem em si, pois assim melhor resplandecem na criação as perfeições do Criador. E diz que tanto entre os Anjos quanto entre os homens, no Paraíso Terrestre como nesta terra de exílio, a Providência instituiu a desigualdade. Por isso, um universo de criaturas iguais seria um mundo em que se teria eliminado em toda a medida do possível a semelhança entre criaturas e Criador. Odiar, em princípio, toda e qualquer desigualdade é, pois, colocar-se metafisicamente contra os melhores elementos de semelhança entre o Criador e a criação, é odiar a Deus”.

Vem também muito a propósito recordar aqui um trecho da encíclica de João XXIII Ad Petri Cathedram, de 29 de junho de 1959: “Aqueles que se atrevem a negar a desigualdade das classes sociais contradizem as leis da própria natureza, e os que se opõem a esta amistosa e imprescindível união e cooperação entre ditas classes, pretendem sem dúvida perturbar e dividir a sociedade humana, com grave perigo e dano do bem público e privado”.

Termino com outra citação do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, desta vez de sua obra Nobreza e elites tradicionais análogas: “A opção preferencial pelos nobres e a opção preferencial pelos pobres não se excluem, e menos ainda se combatem, segundo ensina João Paulo II: ‘Sim, a Igreja faz sua a opção preferencial pelos pobres. Uma opção preferencial, note-se, não, portanto, uma opção exclusiva ou excludente, porque a mensagem da salvação é destinada a todos’. […] Sirvam estas palavras de esclarecimento para os que, animados pelo espírito de luta de classes — de momento, num evidente declínio — imaginam existir uma relação inevitavelmente conflituosa entre o nobre e o pobre”.