Outubro de 2012
Nosso Senhor disse ao bom ladrão que naquele mesmo dia estaria com ele no Paraíso.
A Palavra do Sacerdote

Monsenhor JOSÉ LUIZ VILLAC

Pergunta — Nosso Senhor disse ao bom ladrão que naquele mesmo dia estaria com ele no Paraíso. Mas se Nosso Senhor passou três dias incompletos no sepulcro, depois ressuscitou e ficou ainda mais quarenta dias na Terra, para depois subir ao Céu — e foi Ele o primeiro a subir ao Céu em corpo — como poderia o bom ladrão estar naquele mesmo dia no Paraíso? E as santas almas que foram libertadas do limbo, onde ficaram durante os quarenta dias em que Nosso Senhor ficou na Terra?

Resposta — A inteligente pergunta da missivista já foi respondida por Santo Tomás de Aquino em cinco artigos da questão 52 da Parte III da Suma Teológica. Procuraremos resumir a resposta do Doutor Angélico, rica de preciosos ensinamentos, para uso da consulente e demais leitores de Catolicismo.

Jesus Cristo desceu ao limbo com sua alma e divindade

Na profissão de fé conhecida como Símbolo dos Apóstolos, que rezamos habitualmente no início do Terço, dizemos que Jesus Cristo “desceu aos infernos, ao terceiro dia ressuscitou dos mortos” (na nova versão em português, a palavra infernos é substituída por mansão dos mortos).

A palavra infernos significa lugares inferiores e abrange quatro categorias de almas em estados muito diferentes: 1) o inferno dos condenados, as almas dos réprobos que, totalmente e para sempre separadas de Deus, sofrem por sua irredutível obstinação no pecado mortal; 2) o limbo das crianças que morreram sem batismo, separadas de Deus só pelo pecado original (sobre a situação final destas almas ainda discutem os teólogos); 3) o purgatório, para as almas que morreram em estado de graça e se salvaram, mas ainda têm que pagar o débito de seus pecados pessoais; 4) o limbo dos justos do Antigo Testamento, isto é, as almas já purificadas dos seus pecados pessoais, mas que continuavam separadas de Deus pelo débito do pecado original. Foi só a este limbo que desceu Jesus, para anunciar a esses justos que seu débito estava finalmente pago por sua morte na Cruz.

Como desceu Jesus ao limbo dos justos? — Estando seu Corpo sacratíssimo no sepulcro, desceu apenas com sua alma e divindade. A este respeito, escreve Santo Tomás: “Na morte de Cristo, embora a alma estivesse separada do corpo, nem este nem aquela estavam separados da pessoa do Filho de Deus. Por isso, durante o tríduo da morte de Cristo, deve-se dizer que Cristo esteve todo inteiro no sepulcro; pois a sua pessoa aí esteve toda, mediante o corpo que lhe estava unido. E semelhantemente esteve todo no inferno [limbo], porque nele esteve toda a pessoa de Cristo, em razão de sua alma que lhe está unida. E também Cristo estava então todo em toda parte, em razão da natureza divina” (Suma Teológica, q. 52, a. III, solução).

Em seguida, Santo Tomás responde às diversas objeções, em particular a esta: “Algo de Cristo estava fora do inferno [limbo], porque o corpo estava no sepulcro e a divindade em toda parte. Logo, Cristo não esteve todo no inferno [limbo]”. Replica Santo Tomás: “A pessoa de Cristo está toda em qualquer lugar, porém não totalmente, por não ser circunscrita por nenhum lugar. Mas nem todos os lugares tomados simultaneamente podem compreender-Lhe a imensidade; ao contrário, é a sua imensidade que os abrange a todos. [...] De onde dizer Santo Agostinho: ‘Não afirmamos que Cristo está todo nos diversos tempos e lugares, de maneira que esteja todo num lugar, e todo em outro, noutro tempo; mas está sempre todo em toda parte’” (ibidem, resposta à terceira objeção). Por isso, estava todo no sepulcro (com seu corpo e divindade) e todo no limbo (com sua alma e divindade), conforme explicado.

Sobre o tempo que Jesus permaneceu no limbo

Diz Santo Tomás: “Assim como Cristo, para tomar sobre si as nossas penas, quis que seu corpo fosse depositado no sepulcro, assim também quis que sua alma descesse ao inferno [limbo]. Ora, o seu corpo permaneceu no sepulcro por um dia inteiro e duas noites, para comprovar a realidade de sua morte. Por isso também deve-se crer que sua alma se demorou no inferno [limbo] um tempo igual, de modo a saírem simultaneamente — a alma do inferno [limbo], e o corpo do sepulcro” (Suma Teológica, q. 52, a. IV, solução).

Ao introduzir essa questão, Santo Tomás apresentara três objeções, das quais cabe destacar a terceira, que tem relação com a pergunta da missivista: “O Evangelho refere que Cristo, pendente da Cruz, disse ao ladrão: ‘Hoje estarás comigo no Paraíso’ — e isso mostra que no mesmo dia Cristo esteve no Paraíso. Ora, não pelo corpo, que estava depositado no sepulcro. Logo pela alma, que descera ao inferno [limbo]. E, portanto, parece que nenhum tempo se demorou no inferno [limbo]”.

Santo Tomás responde a essa objeção: “Essas palavras do Senhor devem entender-se, não do paraíso terrestre material, mas do paraíso espiritual, onde dizemos que estão todos os que gozam da glória divina. Por isso, o ladrão desceu com Cristo ao inferno [limbo], conforme lhe tinha sido dito — ‘hoje estarás comigo no Paraíso’. Mas, por prêmio, estando ali, gozava da divindade de Cristo, como os outros Santos” (Suma Teológica, q. 52, a. IV, ad 3). Nosso Céu será, como o de todas as almas que se salvarem, gozar da presença eterna de Deus!

E os justos do limbo, quando entraram no Paraíso?

Jesus Cristo desce ao limbo - Fra Angélico (1395-1455). Museu de São Marcos, Florença, Itália.

A Paixão de Cristo liberou o gênero humano, não só do pecado, mas também do reato da pena [isto é, a condição de réu (reato) implica numa pena devida ao pecado, da qual a Paixão de Cristo nos liberou]. Ora, de dois modos os homens estavam adstritos ao reato da pena: pelo pecado atual, que todos pessoalmente cometeram, e pelo pecado de toda a natureza humana, que se transmitiu originalmente dos primeiros Pais a todos, como diz o Apóstolo aos Romanos (5,12 ss.). E desse pecado, a pena é a morte corporal e a exclusão da vida da glória [...]. Por isso Cristo, descendo aos infernos [limbo], em virtude de sua Paixão, livrou os santos Patriarcas desse reato pelo qual estavam excluídos da vida da glória, de modo a não poderem ver a Deus em sua essência, no que consiste a perfeita beatitude” (Suma Teológica, q. 52, a. V, solução).

Em que momento isso se deu? Na resposta à terceira objeção, Santo Tomás explica: “Logo que Cristo morreu, sua alma desceu ao inferno [limbo] e fez aproveitar o fruto de sua Paixão aos santos detidos nesse lugar. Embora daí não saíssem enquanto Cristo se conservava no meio deles: pois a presença mesma de Cristo constituía-lhes o cúmulo da glória” (Suma Teológica, q. 52, a. V, ad 3).

Mas fica uma pergunta: e depois da ressurreição de Cristo, onde ficaram os justos do limbo e o “bom ladrão”? Não se sabe!

Comenta Frei Alberto Colunga O.P., que fez a versão e as introduções da edição espanhola desta parte da Suma Teológica da qual estamos reproduzindo alguns trechos: “Jesus Cristo, a Virgem Maria, e os outros santos, depois da ressurreição, levam o Céu consigo mesmos, e é muito acidental para eles este ou outro lugar. Mas, enfim, parece que eles devem ocupar algum. Qual seja, a teologia confessa hoje ignorá-lo”. E um pouco adiante acrescenta: “Em virtude da própria morte do Redentor, as almas dos mortos que estavam unidas a Ele pela esperança e caridade, e purificadas de suas imperfeições, receberam o fruto pleno da Redenção, isto é, a glória divina, o paraíso prometido ao ladrão. Onde quer que estivessem, viviam já em Deus, que era seu Céu” (Suma Teológica de Santo Tomas de Aquino, Tratado da Vida de Cristo, BAC, Madrid, 1960, tomo XII, p. 545).

E o próprio Cristo, onde esteve?

Frei Alberto Colunga conclui: “Depois da ressurreição, o Senhor continuou comunicando-se com os discípulos até o dia de sua Ascensão. Onde ficava no tempo em que estava ausente dos discípulos? Sempre em Deus, que o beatificava na alma e no corpo. Em que outro lugar? Também o ignoramos. E as almas dos justos, plenamente bem-aventurados, viviam em algum outro lugar além do que tinham em Deus? Não podemos concebê-las separadas de Jesus Cristo, seu Redentor; porém, fora disto, nada podemos dizer” (op. cit. p. 546).