Janeiro de 2017
Santo Ildefonso, Bispo e Confessor
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Vidas de Santos

Santo Ildefonso, Bispo e Confessor

Arcebispo de Toledo defendeu a Imaculada Conceição de Maria Santíssima 12 séculos antes da proclamação do dogma.

      Plinio Maria Solimeo

 

O Pe. Ribadeneira, discípulo e biógrafo de Santo Inácio de Loyola, chama Santo Ildefonso — cuja festa comemoramos no dia 23 de janeiro — “luz da Espanha, espelho de santos prelados, glória da Igreja, ornamento de sua pátria e devotíssimo capelão da Virgem Nossa Senhora”.(1) Ao que acrescenta o célebre abade de Solesmes, Dom Próspero Guéranger: “Em meio a esse coro de ilustres Pontífices que honraram o episcopado espanhol nos séculos VII e VIII, aparece em primeiro lugar Ildefonso, o Doutor da Virgindade de Maria, como Atanásio o foi da Divindade do Verbo, Basílio da Divindade do Espírito Santo, e Agostinho da Graça”.(2)

Há quem diga erroneamente, baseado na importância de seus escritos, que Santo Ildefonso foi um dos Padres da Igreja(3) do Ocidente e Doutor da Igreja. (4) Entretanto, todos consideram Santo Isidoro de Sevilha (+636) como o último dos Padres ocidentais. Entretanto, Santo Ildefonso não consta das listas dos Padres e Doutores da Igreja.

 

Dados biográficos

Para reconstituir a biografia do santo, “além dos dados contidos em suas obras, dispomos principalmente do Beati Ildephonsi Elogiu, de São Julião de Toledo, seu contemporâneo e segundo sucessor na Sé toledana”, e de suas biografias um pouco posteriores.(5)

Santo Ildefonso nasceu em Toledo no ano 606, durante o reinado do visigodo Witterico (603 a 610) na Espanha. Vindos da França a pedido dos romanos, os visigodos entraram na Espanha em 456 para derrotar os igualmente bárbaros suevos, depois de muitos deles se terem instalado no país. Em 507, seus correligionários que haviam permanecido na Gália, derrotados pelos francos, confluíram em massa para a Espanha. Em vista disso, transferiram seu reino para esse território em 526, com a capital em Sevilha, posteriormente trasladada para Toledo.

O santo era de família nobre e sobrinho de Santo Eugênio III, bispo de Toledo, com quem iniciou sua brilhante educação literária. Foi depois discípulo de Santo Isidoro, arcebispo de Sevilha, expoente de um movimento educacional cujo centro era a sua própria Sé episcopal. No seu seminário, “prescrevia-se o estudo do grego e do hebreu, bem como das artes liberais, e encorajava-se o estudo do direito e da medicina”. Por sua influência e “pela autoridade do quarto concílio [de Toledo], essa política educacional tornou-se obrigatória para todos os bispos do reino. Bem antes de os árabes despertarem seu apreço pela filosofia grega, Santo Isidoro já havia introduzido Aristóteles a seus conterrâneos”.(6)

Segundo a biografia do santo, disponível no site da Arquidiocese de Toledo, da qual foi bispo, Ildefonso progrediu de tal maneira no estudo de filosofia e de humanidades nessa escola que, “era tal a dileção que seu mestre [Santo Isidoro] lhe tinha, que quando Ildefonso quis voltar para Toledo, aquele o impediu durante algum tempo, chegando mesmo a encerrá-lo para obrigá-lo a desistir”.(7) É curioso este fato, ocorrido entre dois Santos...

Entretanto, Ildefonso conseguiu voltar a Toledo, onde, “cativado pela ciência divina, desprezou o palácio em que havia nascido e, fugindo de seu pai cujo amor o perseguia com sua espada desembainhada, encerrou-se no mosteiro de Agali, asilo de paz entre as alamedas do Tejo, templo de virtude, que já havia dado três prelados à capital do reino”.(8)

Santo Eládio, bispo de Toledo, ordenou-o diácono, e ao falecer o abade do convento de Idelfonso, este foi eleito para ocupar o seu lugar. Nesta qualidade participou, na então capital, dos Concílios dos anos 653 e 655, responsáveis pela unificação da liturgia espanhola.

         Ao falecerem seus pais, Ildefonso se tornou herdeiro de grande fortuna, que empregou na fundação de um mosteiro de monjas.

 

Arcebispo de Toledo

Em 657 Ildefonso foi escolhido pelo rei Recesvinto (653 a 672), pelo clero e pelo povo, como era costume na época, para suceder Santo Eugênio na Sé de Toledo. O rei precisou empregar toda a sua autoridade para que o santo aceitasse o ônus episcopal.

Bispo segundo o Coração de Maria, a Ela dedicou sua inteligência e sua alma. Diz-se que, nos momentos vagos de sua sábia administração da arquidiocese, o santo passava horas e horas diante da imagem da Virgem, desfiando as Ave-Marias. “É o primeiro anel de uma grande tradição mariana que, muitos séculos mais tarde, outro espanhol se encarregará de recolher. Com tanta justiça quanto a São Domingos de Gusmão, pode-se chamar-lhe precursor da devoção ao Rosário”.(9)

 

 

Tratado sobre a Virgindade

Sobre sua magistral obra “De virginitate perpetua sanctae Mariae adversus tres infideles” (Sobre a perpétua virgindade de Santa Maria contra três infiéis), em defesa da virgindade de Maria Santíssima, escreve o já citado Frei Justo Pérez de Urbel, comentando palavras do santo: “O amor não mede as palavras; por isso o livro de Ildefonso está cheio de fogo, de ira, de indignação, de golpes furiosos e cintilar de espadas. [...] Seu livro sobre a Virgindade de Maria [é] um hino triunfal à Virgem, no qual, indignado na veemência de sua lealdade amorosa, clama assim contra o caluniador de sua Dama e de sua Rainha: ‘Que ousas dizer, caos de loucura, daquela morada de Deus, daquela corte do Rei das vitórias, claríssima com o brilho do pudor, daquele palácio do Imperador das coisas celestiais e assento gloriosíssimo. Daquela a quem não podes compreender a plenitude e a diversidade dos lugares? O tronco da vida daria ramos de morte? O horto cerrado, no qual brotou a flor da peregrina virgindade, haveria de produzir abrolhos e serpentes? Da fonte da vida, selada com o parto virginal, emanaria o lodo da impureza? Peço a Deus que o sepulcro de tua boca seja atormentado pela dor, que nessa caverna fique tua língua imóvel, e que teus lábios se fechem para que não saia o mau cheiro insuportável de tuas palavras”.(10)  

Sobre essa obra, afirma Dom Guéranger: “O arcebispo de Toledo expôs seu ensinamento com profunda doutrina e grande eloquência, provando, ao mesmo tempo, contra os judeus, que Maria concebeu sem perder sua virgindade; contra os adeptos de Joviniano, que permaneceu Virgem no parto, e contra os sequazes de Helvídio, que foi Virgem depois do parto”.(11)

A Santíssima Virgem, como narram os biógrafos do santo, aprovou esse livro: “No dia de Santa Leocádia (9 de dezembro), esta mártir célebre de quem Ildefonso desejava intensamente encontrar as relíquias, dignou-se manifestar-se a ele, indicou o lugar onde repousava o seu corpo, e terminou com estas palavras: ‘Ildefonso, por ti é mantida a minha Soberana, que reina do alto dos céus!’ Era alusão ao livro sobre a virgindade de Maria”.(12)

 

Capelão da Virgem Maria

Entretanto, conforme narram todos os biógrafos do santo, quis a Mãe de Deus agradecer-lhe diretamente pelo seu livro sobre a sua virgindade santa. “Na noite de 18 de dezembro de 665 [então festa da Expectação de Nossa Senhora], Santo Ildefonso, junto com seus clérigos e alguns outros, foram à igreja cantar hinos em honra da Virgem Maria. Encontraram a capela brilhando com uma luz tão deslumbrante, que sentiram temor. Todos fugiram, exceto Ildefonso e seus dois diáconos. Estes entraram e se aproximaram do altar. Diante deles estava a Virgem Maria, sentada no trono do bispo, rodeada por uma companhia de virgens entoando cânticos celestiais. Maria fez sinal para que o Santo se acercasse. Tendo obedecido, Ela fixou sobre ele os olhos, e disse: ‘Tu és meu capelão e fiel notário. Recebe esta casula, que meu Filho te envia de sua tesouraria’. Tendo dito isto, a própria Virgem o revestiu, dando-lhe instruções para usá-la somente nos dias festivos designados em sua honra”. Continua a narrativa: “Esta aparição e a casula constituíram provas tão claras, que o Concílio de Toledo ordenou um dia de festa especial para perpetuar sua memória. O evento aparece documentado na Acta Sanctorum como A Descida da Santíssima Virgem e de sua Aparição”.(13)

Os historiadores afirmam que até mesmo os árabes, ao converterem a Basílica cristã em Mesquita durante a dominação muçulmana, respeitaram o lugar dessa aparição, sucedida na Espanha visigótica e transmitida ininterruptamente ao longo dos séculos. “Esta circunstância permite afirmar que o milagre era conhecido antes da invasão muçulmana, e que não se trata de uma das muitas histórias piedosas medievais que brotaram da piedade popular”.(14)

 

Retrato do santo

Para terminar, tracemos o retrato do santo, como o descreve o Pe. Ribadeneira: “Seu aspecto era grave com brandura, e brando com gravidade; seu porte compunha os que o olhavam; sua paciência e mansidão amansavam os coléricos e mal sofridos; sua sabedoria era admirável; sua agudeza no dispor tão excelente e elegante, e copiosa sua maneira de dizer, que mais parecia divina que humana, e por isto o chamaram Crisóstomo, que quer dizer ‘Boca de Ouro’”.(15) Frei Justo Pérez acrescenta este testemunho dos discípulos do santo: “Temeroso de Deus, religioso, cheio de piedade; em seu andar, grave e modesto; paciente e amável em sua conduta; insuperável na sabedoria; agudo no raciocinar, e tão favorecido nas graças da eloquência que, quando falava, dir-se-ia não ser um homem, mas o próprio Deus que falava por sua boca”.(16)

 

_________________ 

Notas:

1.       Flos Sanctorum, in La Leyenda de Oro, L. González y Compañia – Editores, Barcelona, 1896, tomo I, p. 238

2.       Dom Próspero Guéranger, El Año Liturgico, Editorial Aldecoa, Burgos, 1954, tomo I, p. 755

3.       Dessa maneira são chamados os grandes homens da Igreja entre os séculos II e VII, considerados “Pais” tanto no Oriente como no Ocidente, por terem sido aqueles que firmaram os conceitos da nossa fé, enfrentando as heresias com o seu saber, carisma e iluminação. São os responsáveis pela fixação das tradições e ritos da Igreja.http://www.franciscanos.org.br/?p=48339

4.       Cfr. Id. ib.; http://www.franciscanos.org.br/?p=48339

5.       https://es.wikipedia.org/wiki/Ildefonso_de_Toledo

6.       John B. O'Connor, St. Isidore of Seville, in The Catholic Encyclopedia, CD Rom edition.

7.       http://www.architoledo.org/San%20Ildefonso/Biografia.htm

8.       Fr. Justo Pérez de Urbel, O.S.B.,Año Cristiano, Ediciones Fax, Madri, 1945, tomo I, p.132.

9.       Id. ib. p. 133.

10.   Id. ib.

11.   Op.cit. p. 755.

12.   Pe. José Leite, S.J., Santos de Cada Dia, Editorial A.O., Braga, 1993, tomo I, p. 110

13.   https://es.wikipedia.org/wiki/Ildefonso_de_Toledo

14.   Id.ib.

15.   Op.cit. p. 240.

16.   Op. cit. p. 132.

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