Setembro de 2007
O Evangelho de Judas
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A Palavra do Sacerdote

Cônego José Luiz Villac

Pergunta — Algum tempo atrás, foi anunciada a publicação do Evangelho segundo Judas, uma tentativa de reabilitação do Apóstolo que traiu Jesus. Sendo um evangelho apócrifo, já condenado por Santo Irineu no século II, isso não perturba a fé de nenhum católico, porque todos percebem que se trata de mais um lance da investida atéia contra a Igreja Católica. No entanto, tenho visto alguns católicos atrapalhados com o que se lê nos próprios evangelhos canônicos. Assim, São João diz no capítulo 13, versículo 18: “Não falo de todos vós; sei os que escolhi; porém é necessário que se cumpra o que diz a Escritura: O que come o pão comigo levantará o seu calcanhar contra mim”. E São Mateus, no capítulo 26, versículo 24, completa: “O Filho do homem vai ser entregue, como está escrito dele, mas ai daquele homem, por quem será entregue o Filho do homem! Melhor fora a tal homem que não tivesse nascido”. Se a traição de Judas já estava prevista na Sagrada Escritura, ele estava apenas realizando um desígnio divino, estava cumprindo a Escritura. E portanto não pode ser condenado por isso. Tal parece ser o argumento dos que querem reabilitar Judas. Como explicar isso?

Resposta — A explicação se encontra no próprio evangelho de São João, logo no versículo seguinte ao que o prezado consulente cita: “Desde agora vo-lo digo, antes que suceda, para que, quando suceder, creiais que sou eu [o Messias]” (Jo 13, 19).

Apesar de Jesus Cristo praticar milagres portentosos, os olhos dos judeus em geral, e dos próprios Apóstolos em particular, estavam tão fechados, que era preciso dar-lhes sinais também extraordinários para furar as camadas espessas que cobriam os seus olhos (Milagre da conversão da água em vinho - Carl Bloch, séc. XIX)

A Sagrada Escritura anuncia com antecedência vários fatos que haveriam de suceder com Jesus Cristo, para que os judeus, vendo tais fatos acontecerem, reconhecessem que Ele era o Messias.

Apesar de Jesus Cristo ser uma pessoa absolutamente extraordinária — ao mesmo tempo Deus e homem, e que irradiava um esplendor divino em torno de si, além de multiplicar milagres portentosos –– os olhos dos judeus em geral, e dos próprios Apóstolos em particular, estavam tão fechados, tão opacos por suas paixões, que era preciso dar-lhes sinais também extraordinários para furar as camadas espessas que cobriam os seus olhos.

Na verdade, porém, só depois de terem recebido o Espírito Santo, no dia de Pentecostes, os olhos e os ouvidos deles se abriram — abriram-se as suas mentes e seus corações — para compreender o que tinham visto e ouvido. Então — e só então — entenderam todos os sinais que lhes haviam sido dados. É o que registram, cada um a seu modo, os quatro evangelhos canônicos, de São Mateus, São Marcos, São Lucas e São João.

Os evangelhos apócrifos (não canônicos, e frequentemente falsos), provenientes muitas vezes das seitas heréticas e gnósticas, eram justamente uma tentativa do demônio de lançar areia nos olhos dos fiéis, para confundi-los e perturbar a sua fé. O dito evangelho segundo Judas, bem como o alegado evangelho de Maria Madalena, que serviu de pasto para o famigerado romance Código Da Vinci, podem ser colocados nessa categoria.

A pré-ciência divina e o livre arbítrio

Judas, ao trair o Divino Mestre, atuou movido por suas livres deliberações. Com isso, cumpriu o que prediziam as Escrituras, mas permaneceu o único e exclusivo responsável por seu nefando ato.

A resposta acima, entretanto, resolve apenas parte da questão, pois deixa de lado o principal problema, que é o conhecimento que Deus tem dos futuros contingentes. Só o enunciado da questão terá assustado muitos dos leitores: Futuros contingentes, o que é isso? E se o conceito é difícil de compreender, mais ainda o é, para o comum dos mortais, a solução que para o problema dá Santo Tomás de Aquino na Suma Teológica, Parte Primeira, questão 14, artigo 13. Fica aí a indicação para os espíritos eruditos. Como devo escrever para o comum dos leitores, recorrerei mais adiante a uma metáfora que os catequistas católicos usam com o fim de explicar, para o povo simples, essa complicada questão.

Deus é onisciente, isto é, sabe desde toda a Eternidade todas as coisas, presentes, passadas e futuras. Que Deus conheça as coisas presentes, não constitui maior problema, pois sendo onipresente, isto é, estando presente em todas as partes, vê tudo que se passa. Inclusive no interior de nossas almas, em nossas mentes e no mais íntimo de nossos corações. Vê o que pensamos e queremos de bom, como também os maus pensamentos e maus desejos em que tenhamos consentido. E nos premia ou castiga, respectivamente, por todos eles. Por isso devemos conservar sempre puros nossos corações e nossas mentes, pois não escaparemos do juízo de Deus, favorável ou desfavorável.

Quanto às coisas passadas, Deus as conhece também, pois já se realizaram; e, ademais, realizaram-se na sua presença. O problema começa a se pôr com relação aos acontecimentos futuros. Esquematicamente, estes se dividem em duas categorias:

a) os que dependem exclusivamente de causas naturais, como, por exemplo, o movimento dos astros; e, mais perto de nosso dia-a-dia, o tempo atmosférico (pelo menos enquanto não afetado pela atividade humana, o que o colocaria na segunda categoria);

b) os que dependem da livre atuação dos seres racionais, como os anjos e os homens. São estas últimas ações que constituem os mencionados futuros contingentes, isto é, que podem realizar-se ou não, conforme a deliberação, muitas vezes caprichosa, dos homens (para simplificar, deixemos de lado a atuação, também livre, dos anjos).

Quanto aos acontecimentos da categoria “a”, até os cientistas estão, em certa medida, em condições de prevê-los. Quanto mais Deus, que tem uma Sabedoria infinita, e que conhece perfeitamente a natureza que criou, e que está submetida às leis por Ele mesmo estabelecidas.

O grande problema, portanto, é explicar como Deus conhece os acontecimentos do tipo “b” que dependem exclusivamente do livre arbítrio dos homens.

Ainda neste campo, é preciso ter presente que um bom observador pode prever como se comportará determinada criatura diante de determinada situação. Um professor pode prever que um aluno será reprovado, porque não estuda nem faz as lições de casa. Um médico pode prever que determinado paciente, incapaz de se abster do álcool ou do fumo, morrerá de uma crise hepática ou de câncer. Quanto mais Deus, que conhece o fundo das mentes e dos corações, é capaz de prever como reagirá cada homem diante de determinadas circunstâncias.

E assim como a previsão do professor não é a causa da reprovação do aluno, nem o prognóstico do médico a causa da morte do paciente, Deus não é causa de que os homens procedam mal.

A metáfora a que aludimos acima dá-nos alguma idéia disso: imaginemos um observador colocado no alto de uma montanha, em torno da qual serpenteia uma rodovia, de modo que ele está em condições de ver dois automóveis que se movem em sentidos contrários numa pista única, sem se verem um ao outro. Notando que um dos motoristas se desloca numa velocidade imprudente e conduz o veículo de modo afoito, o observador está em condições de prever que um acidente fatalmente ocorrerá.

Assim, conhecendo o futuro, Deus anunciou nas Escrituras determinados acontecimentos que autenticariam a pessoa do Messias. Ao fazê-lo, não eliminou o livre arbítrio dos homens, que continuaram responsáveis pelos seus atos, como o observador no alto do monte não interferiu para que o acidente se produzisse. Em outras palavras, o acidente ocorreu, não porque o observador previu, mas por culpa da imprudência do condutor do veículo, pelo mau uso do seu livre arbítrio.

Da mesma maneira, Judas, ao trair o Divino Mestre, atuou movido por suas livres deliberações. Com isso, cumpriu o que prediziam as Escrituras, mas permaneceu o único e exclusivo responsável por seu nefando ato.

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