Setembro de 2007
Do “rei do brilho” aos reis de Versalhes
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Conservadorismo

Do “rei do brilho” aos reis de Versalhes

Gregorio Vivanco Lopes


Passo com freqüência pela paulistana Praça Oswaldo Cruz, região central da cidade, e ultimamente tenho ali notado a presença de um engraxate, que acrescenta a seu ofício uma inegável nota de pitoresco. Junto a um canteiro coberto de vegetação, ele instala todas as tardes a característica cadeira elevada para os fregueses, posiciona adequadamente sua caixa de engraxar e estende um pano, já enegrecido pelo uso, sobre o qual esparrama considerável número de sapatos, chinelos, botas e outros que tais, como a indicar um trabalho afanoso que o aguarda.

Indiferente à tal lei “cidade limpa” da Prefeitura, ele coloca um anúncio bem visível junto a seus apetrechos: O Rei do Brilho [foto]. Em letra menor, acrescenta que, além de engraxar, ele faz qualquer coisa do ramo: pequenos consertos, pintar sapatos, etc. Cada vez que por ali passo, não deixo de olhar com atenção a cena, pois é uma nota de pitoresco autêntico que descansa a mente do barulho infernal dos ônibus, carros e motos que aceleram sem cessar, das lojas sofisticadas, das modas extravagantes dos passantes e da inautenticidade de certos mendigos que povoam a praça.

“Reis” de todas as condições sociais

Num desses dias, não me contive e parei para conversar um pouco com o “Rei do Brilho”. Ele se dignou dar-me audiência, mostrando ser de temperamento afável, serviçal, sem nada dessas revoltas classistas que caracterizam o ideal petista de viver, estando contente com sua “realeza”. Até me passou pela cabeça perguntar-lhe por que não se intitulava “o presidente do brilho”, mas felizmente me contive. Ele certamente não entenderia a pergunta, e me qualificaria de pedante.

Refletindo com meus botões, porém, lembrei-me de que não é só na classe humilde que encontramos “reis”, mas também nas dos endinheirados, como é o caso do “rei da soja”, “rei do aço” e outras "majestades" do gênero. E dei-me conta de que a idéia de realeza vincou fundo as almas de pessoas de todas as idades, raças e condições sociais, como sendo um paradigma de poder, ao mesmo tempo elevado e benfazejo, uma espécie de imagem de Deus na Terra.

Contra essa idéia recôndita sopraram, ao longo dos últimos séculos, revoluções de todo tipo, propagandas republicanas, atéias, laicas e tudo o mais que o leitor conhece. Mas, à maneira das pirâmides egípcias que enfrentam altaneiras as tempestades de areia e o impacto dos milênios, a imagem da realeza se manteve nas mentes humanas como sumamente aprazível, acolhedora, nobre: ao mesmo tempo que ela participa do que há de mais sublime, curva-se reverente e bondosa para acariciar o último de seus súditos. Daí o fato de que o prestígio de ser “rei” continua a estadear-se com desembaraço diante dos homens do século XXI, independente do fato de ter havido reis melhores e piores, alguns santos, outros perversos, como tudo o que é humano.

Passeio pelo “universo da realeza francesa”

Talvez isso explique o êxito que obteve a exposição na Pinacoteca do Estado de São Paulo, intitulada Imagens do Soberano. Com acervo pertencente ao Palácio de Versalhes, constituiu a primeira mostra organizada pelo Museu do Palácio de Versalhes na América Latina. São pinturas, gravuras, tapeçarias e também algumas esculturas, num total de 63 obras da época dos grandes reis do Antigo Regime francês: Luís XIV (o rei-sol), Luís XV (o bem-amado) e Luís XVI (o simples).

Além das imagens dos soberanos, a mostra colocava em relevo representações das rainhas respectivas, sobretudo Maria Antonieta, dos filhos que não chegaram a reinar, enfim todo um ambiente altamente monárquico. Constituiu um passeio pelo “universo da realeza francesa"–– como salienta um folheto explicativo –– que os paulistanos tiveram o privilégio de fazer, durante os dias em que durou a exposição (de 16 de maio a 5 de agosto).

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