Setembro de 2007
De quebrantos e de anjos
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Discernindo, comentando, agindo

De quebrantos e de anjos

Os fenômenos de opinião pública são muito complexos; interpenetram-se fatores naturais ligados à psicologia das multidões e fatores sobrenaturais. Analisá-los com prudência e bom senso é salutar.

Cid Alencastro

Convido o leitor a prestar atenção num fenômeno de opinião pública pouco realçado, pouco comentado, mas que tem enorme influência, por vezes decisiva, nos rumos dos povos e portanto também nos rumos do Brasil.

Inicio relatando um exemplo. O presidente Lula vinha pairando com facilidade sobre todas as dificuldades de seu governo. Como um planador de movimentos caprichosos, não havia pedra que o atingisse; nem mesmo os descalabros provenientes de membros de seu governo ou de seu partido chegavam a macular sua aura.

Atenção! Este não é um artigo sobre a situação política, nem é uma análise da administração federal. Por enquanto só estou dando um exemplo. Prossigamos nele.

Por mais que repórteres especializados, comentaristas famosos, formadores de opinião e pensadores lançassem dardos perfurantes e flechas incendiárias contra a inoperância, os erros e os absurdos do governo, em alguma zona imponderável do imaginário e do pensamento humanos Lula permanecia incólume. Os fatos mais gritantes, os raciocínios mais bem feitos, a lógica mais implacável, a verdade mais evidente não conseguiam perfurar esse tule, entretanto tão leve e esvoaçante, com que uma fada má parecia cobrir a personalidade do presidente, a fim de ela poder rir-se do Brasil e dos brasileiros.

A vaia e o acidente

De repente... O imprevisto imprevisível aconteceu! Lula foi para a abertura dos Jogos Pan-Americanos –– uma festa, como ele próprio qualificou o evento. Todos ali estavam contentes, deveriam aclamá-lo, e eis que, pelo contrário, uma estrondosa vaia o atinge no peito e rasga de alto a baixo o tule mágico que o recobria. O rei está nu! Todos olham estupefatos, sem acreditar no que aconteceu; então uma segunda, uma terceira... uma sexta vaia o impedem até de fazer a abertura solene dos Jogos. Tudo isso ocorreu independente do que digam as pesquisas.

Ele sai contrariado, cabisbaixo, sem conseguir explicar para si mesmo o que aconteceu. A vaia atuou como a flecha certeira que buscou o calcanhar de Aquiles, o guerreiro grego até então com o “corpo fechado”, e o prostrou.

Veio depois o trágico acidente com o avião da TAM, seguido do noticiário fúnebre de 199 mortos. O presidente teve alguma culpa pelo desastre? Qual o alcance dessa culpa? Tais perguntas, muito pertinentes quando vistas sob a ótica da apuração dos fatos, não dizem respeito ao presente artigo. O que nos interessa aqui constatar é que os destroços lançados pela explosão do avião despedaçaram ainda mais aquele tule em torno de Lula, que a vaia já rompera.

O fenômeno se repete

 
Mudança inesperada da opinião pública aconteceu também com Getúlio Vargas, tido como um dos mais badalados populistas que o Brasil já conheceu, até o momento em que uma catarata de catástrofes desabou sobre sua cabeça

Esse exemplo, muito recente e muito ao alcance de nossas vistas, levanta um problema de opinião pública, que por vezes se dá na história dos povos de modo tão inesperado quanto estrepitoso. Algo disso aconteceu com Getúlio Vargas, tido como um dos mais badalados populistas que o Brasil já conheceu, até o momento em que uma catarata de catástrofes desabou sobre sua cabeça. Perón, na Argentina, passou por processo semelhante.

Vemos por vezes cantores, artistas famosos, eclesiásticos que se precipitam dos píncaros da fama para os porões da rejeição pública.

Como explicar esse fenômeno, que em intensidades e graus diferentes pode ser observado ao longo de toda a História?

Elementos naturais

Não tenho a pretensão de dar aqui resposta cabal a tais perguntas, que versam sobre assunto extremamente complexo. Levanto apenas alguns elementos que provavelmente farão parte da resposta.

Há algo ainda indecifrado na psicologia humana, sobretudo na das multidões, que prega surpresas. Certas revoltas como as ocorridas na Revolução Francesa de 1789, certas apoteoses delirantes na Alemanha hitlerista, ou ainda certas inércias ante a ditadura soviética, permanecem sem explicação adequada. O entusiasmo, e também o ódio ou o torpor, são contagiantes e sujeitos a manifestações inesperadas.

Em nível individual, notamos que alguns homens manifestam certos predicados da natureza, sem que tenhamos uma explicação inteiramente convincente de porque isso ocorre neles e não em outros. Assim, podemos encontrar num certo José o pressentimento, ou mesmo a premonição, referente a si mesmo ou ao curso dos acontecimentos, que outros não têm. Em outro de nome Pedro, notamos que possui o dom de acalmar, com sua simples presença, os temperamentos mais eriçados; enquanto João, pelo contrário, os excita. Haveria ainda a tratar os fenômenos ligados à hipnose, à percepção de fatos à distância, etc. Tudo isso pertence ao domínio da psicologia; em alguns casos, talvez, da psiquiatria.

Uma ação sobrenatural

 
Os magos que deslumbravam o antigo Egito produziam encantamentos e sortilégios tais, que tornavam o Faraó imune aos pedidos, increpações e ameaças de Moisés e Aarão

Sobrepondo-se a esse panorama natural, que a ciência pode alargar, temos de considerar também as imensas e magníficas perspectivas que a doutrina católica abre diante de nossos olhos maravilhados.

E aqui encontramos –– tanto do lado do mal, com os demônios, como do lado do bem, com os anjos –– uma ação constante sobre os homens, quer considerados individualmente, quer formando conjuntos, povos, nações.

Os magos que deslumbravam o antigo Egito produziam encantamentos e sortilégios tais, que tornavam o Faraó imune aos pedidos, increpações e ameaças de Moisés e Aarão.

De outro lado, o anjo que guiou Tobias foi quem desfez o quebranto que envolvia Sara, futura esposa de Tobias, expulsando o demônio que a tinha sob sua influência e acorrentando-o no deserto.

É conhecido o poder tenebroso que têm certos gurus indianos de hipnotizar serpentes. Mas de outro lado, quando Deus irou-se contra o povo hebreu por suas prevaricações e o quis castigar, lançou contra ele um oráculo, pela boca do Profeta: “Vou lançar serpentes contra vós, e víboras insensíveis aos encantamentos, que vos morderão” (Jer. 8,17).

Há ainda a considerar que, na prática, os aspectos naturais e os sobrenaturais muitas vezes convergem num mesmo episódio, e nem sempre é fácil distinguir um do outro.

É enriquecedora essa análise

Alguém poderia perguntar: qual a razão deste artigo, uma vez que ele não chega a nenhuma conclusão? A razão é simples. Assim como o espírito humano se enriquece com ouvir uma bela música ou contemplar um objeto artístico, encanta-se com um raciocínio bem feito, ou fortalece sua postura intelectual com um argumento novo, assim também abrir a mente para essas realidades, superiores ao cogitar pedestre do dia-a-dia, enriquece o senso de observação, a capacidade de análise; e empurra um pouco para diante as fronteiras do conhecimento humano.

Uma pergunta final ainda cabe: pode-se reconstituir o tule que foi esgarçado ou mesmo arrebentado? Também para essa pergunta não tenho uma resposta cabal. Não ouso dizer que seja impossível. De qualquer modo, entra pelos olhos que a operação é difícil.

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