Dezembro de 2015
Clinton, nas pegadas de Nixon, capitula diante do comunismo jet-set chinês
História Contemporânea

Clinton, nas pegadas de Nixon, capitula diante do comunismo jet-set chinês

Há 26 anos, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira diante do entreguismo de Nixon em face do comunismo chinês, previu, com penetraçäo, capitulaç­öes maiores que se realizaram durante a recente viagem do presidente Clinton à China

Luís Dufaur

 
Clinton passa em revista as tropas na praça da Paz celestial em Pequim, acompanhado pelo presidente chinês Jiang Zemin. o Presidente norte-americano aceitou comparecer a uma cerimônia no local onde foram massacrados milhares de chineses dissidentes em 1989, ignorando reações da opinião pública norte-americana

Desde tempos imemoriais a China constituiu o cerne do mundo amarelo, quer pela sua situaçäo geográfica, dimensäo territorial e contingente populacional, quer pela irradiaçäo cultural. Era a China dos mandarins, das porcelanas, dos marfins entalhados, das pinturas em lenços de seda, da poesia e da música, das especiarias e das maravilhas de arte sutil e quintessenciada.

O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira narrava um fato ocorrido com ele num restaurante romano, no início dos anos 60. ± mesa, entre Prelados de várias nacionalidades, havia chineses. O fundador da TFP conversava por meio de intérprete e ficou maravilhado com a musicalidade da língua chinesa. Ela lembrava gongos emitindo todos os matizes e riquezas de som que se possa imaginar.

Pondo de lado os aspectos malsäos e deformantes do paganismo -- muito pronunciados sob diversos ângulos -- o papel cultural da China no mundo amarelo era comparável ao da França no Ocidente.

O gigante chinês tinha entretanto uma organizaçäo política muito elástica e vaporosa, que lhe permitiu conservar-se unido apesar das invasöes de naçöes vizinhas.

Ao lado da China, destaca-se o Japäo. Em certo sentido esse país é o oposto de seu vizinho continental. Ele é constituído por um arquipélago de superfície exígua, ocupado por um povo industrioso que preza altamente a condiçäo militar. A classe nobre e o povo japonês formavam um conjunto homogêneo, fechado e coeso em torno do Imperador. O papel do Japäo no Extremo Oriente é análogo ao da Alemanha na Europa.

Aquele país, fiel à sua natureza belicosa, invadiu partes da China. Até a II Guerra Mundial controlava ele importante parcela de território chinês: o assim-chamado Manchou-kuo, hoje denominado Mongólia.

Após os famigerados acordos de Yalta, a China, através de uma revoluçäo marxista, foi lançada na esfera comunista. A parte mais dinâmica dos chineses anticomunistas refugiou-se entäo na ilha de Formosa, ou Taiwan.

O comunismo chinês ficou tristemente célebre pela devastadora e sangüinária Revoluçäo Cultural dos anos 60, que praticou toda a sorte de desvios no sentido igualitário. Ela inspirou a metamorfose marxista em favor de uma Revoluçäo Cultural promovida nos moldes da globalizaçäo. A China tornou-se foco contínuo de guerras de expansäo do comunismo. As mais importantes ocorreram na Coréia, no Vietnä, no Cambodge e no Laos.

O Japäo, contudo, permaneceu na esfera do Mundo Livre, constituindo um dique potencial ao expansionismo comunista. Ele manteve estreita colaboraçäo com os Estados Unidos e influenciou grande número de países do Extremo Oriente.

A viagem precursora de Nixon

 
Pequim, fevereiro de 1971: encontro de Nixon e Mao-Tsé-Tung, marco decisivo da desatrosa política de distenção do Ocidente com o mundo comunista

Em 21 de fevereiro de 1972, o entäo presidente americano Richard Nixon iniciou polêmica viagem à China. Tal iniciativa representou mais um passo da política de distensäo com o comunismo, análoga à aproximaçäo que a Ostpolitik vaticana empreendeu em relaçäo às naçöes do bloco soviético.

Naquela viagem Nixon fez todas as concessöes que pôde. Porém, moderou várias e adaptou sua linguagem, a fim de abafar a onda de reaçöes surgida nos Estados Unidos.

O macro-capitalismo publicitário, os empresários ocidentais simpáticos ao comunismo e os comuno-progresistas -- sempre iguais a si próprios -- festejaram o lance. Os gestos generosos dos Estados Unidos, diziam, desarmariam o comunismo amarelo; as torrentes de dólares inundariam a China, a boa vontade e a colaboraçäo prevaleceriam. No fim de uma cascata de concessöes, a paz chegaria.

Naquela época, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, analisando as informaçöes da imprensa, previu que tal empreendimento traria conseqüências catastróficas. Em 17-7-71, comentando o anúncio da viagem e seus possíveis resultados, em conferência pronunciada para sócios e cooperadores da TFP, afirmou:

"A guerra do Vietnä fica praticamente liqüidada. .... Em que espírito vai ser liqüidada a guerra? Num espírito de entrega. Quer dizer, os Estados Unidos aceitam uma tal humilhaçäo com a viagem do Nixon à China, .... näo pairando dúvida de que eles deixam transparecer que aceitaräo .... uma rendiçäo incondicional. As potências anticomunistas do Extremo-Oriente ficam abandonadas .... Cambodge, aquilo tudo."

Tal previsäo viu-se logo tragicamente confirmada. Em 29-3-73 os últimos soldados americanos abandonaram o Vietnä, que se rendeu incondicionalmente aos comunistas em 30-4-75.

Ficaram para a História as fotografias de vietnamitas desesperados, tentando subir no último helicóptero superlotado que deixava o teto da embaixada americana em Saigon e sendo repelidos pelos tripulantes. Como também a cena do presidente norte-americano Gerald Ford correndo, fugindo dos jornalistas, incapaz de apresentar uma resposta convincente para explicar aquela tragédia.

A bandeira americana foi banida do Vietnä maculada de vergonha, näo por falta de coragem ou capacidade militar de seus soldados, mas devido ao otimismo imbecil e entreguista da política de concessöes.

Como conseqüência desse espírito, o comunismo foi engolindo os demais países da antiga Indochina.

No Cambodge, o horror atingiu o clímax. Em abril de 1975, os guerrilheiros khmer-rouge, pró-chineses, ocuparam a capital, Phnom Penh. Em 24 horas, a populaçäo foi evacuada pela força. Nos hospitais, as intervençöes cirúrgicas foram interrompidas pelo meio, e os doentes que näo podiam caminhar foram chacinados. Os guerrilheiros incendiaram os bairros populares para desalojar os habitantes escondidos. Quando estes apareciam entre as chamas, eram cruelmente metralhados. A populaçäo foi levada brutalmente a campos de extermínio no mato. Essa operaçäo constituiu um dos piores genocídios da História, quando cerca de 30% a 40% da populaçäo cambogiana pereceu em poucos meses. Foram assentamentos pioneiros, diriam, talvez, alguns partidários da Reforma Agrária socialista e confiscatória radical...

Na referida conferência sobre a viagem de Nixon à China, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira também previu que esta tornaria "um fato consumado que a China fosse admitida no Conselho de Segurança da ONU, substituindo Chang-Kai Chek [Taiwan]". Em 25-10-71, antes mesmo de Nixon pisar no solo chinês, o regime de Taiwan foi expulso da ONU e pouco depois a China era admitida no Conselho de Segurança.

Dissipando eventuais objeçöes, o Fundador da TFP afirmou: "Existe lá Hong-Kong, que é um território britânico. A Inglaterra näo será de algum auxílio para essa gente?" E respondeu: "Hong-Kong vai murchar. Eu creio que näo levará muito tempo para que a Inglaterra entregue Hong-Kong aos chineses." A previsäo também se cumpriu anos mais tarde.

A exemplo de Nixon, Clinton abandona o Japäo

E o Japäo? Sobre seu futuro, assim exprimiu-se o insigne pensador católico: "O Japäo fará uma proeza mantendo-se independente durante um certo tempo. Se o Japäo näo ficar protegido por um guarda-chuva atômico, .... terá condiçöes de resistir?"

O Japäo manteve-se um quarto de século após a viagem de Nixon. Agora o presidente Clinton foi à China nas pegadas tintas de sangue e de vergonha de seu predecessor, para completar sua obra. Já antes de chegar, a imprensa internacional salientava que o grande sacrificado neste lance seria o Japäo. Efetivamente, Clinton recusou-se a pisar o território japonês durante a viagem, obedecendo a exigências de Pequim. Os ambientes nipônicos mais empenhados em defender seu país levaram com isso um golpe demolidor.

Nixon entregou a antiga Indochina, disputada pelas armas. Hoje, em plena guerra comercial e financeira e na crise que abala um mundo globalizado, Clinton empurra o Japäo e seus aliados econômicos para a esfera de influência chinesa.

Tal entrega se fez de modo desairoso. Clinton chegou à China elogiando o regime de Pequim pelo fato de este ter ameaçado os Estados Unidos de desvalorizar a moeda chinesa e haver sido salvo pelo dinheiro americano. Agiu como quem cede a uma chantagem e depois ainda agradece a atitude responsável do chantagista; e por fim, rebaixa-se diante dele. Manifestou assim todos os sintomas de que os Estados Unidos säo uma potência incapaz de continuar a sê-lo. E reverenciou a "grande potência do século XXI", que se ergue com... os próprios capitais norte-americanos!

Pequim, sem dúvida, abocanhará as vítimas oferecidas na bandeja. Mas foi só uma entrega financeiro-comercial?

A China exigiu e obteve de Clinton tecnologia de vanguarda para guiar seus mísseis nucleares. E apontá-los contra o quê? Suas virtuais províncias asiáticas? Os Estados Unidos? Possuindo a China bomba atômica, mísseis e satélites avançados, torna-se realidade outra previsäo do fundador da TFP: "O Pacífico sul caminhará para ser um mare nostrum comunista".

Enquanto isso, a China fornece mísseis ao Paquistäo, empenhado numa agressiva corrida nuclear contra a Gndia. E a Coréia do Norte faz ameaças de lançar bombas atômicas fornecidas pelo comunismo jet-set de Pequim.

Política que elimina a razäo de ser americana

Desde seus primórdios os Estados Unidos se autoatribuíram a missäo messiânica -- aliás contestável -- de implantar no mundo a democracia e os direitos humanos da Revoluçäo Francesa. E, de fato, foram os executores moderados, mas de mäo firme, dos pseudo-ideais que atingiram seu paroxismo na Revoluçäo Francesa, durante a era do Terror em 1793.

Porém, com o tempo essa bandeira tornou-se velha face às formas igualitárias mais avançadas do comunismo. Na fracassada versäo soviética, primeiro; e na versäo jet-set chinesa, depois.

Sob esse ponto de vista, a viagem de Clinton representou outra claudicaçäo fundamental. Exceçäo feita de algumas frases genéricas visando anular opositores, Clinton tornou patente que os Estados Unidos näo levaräo mais a sério as exigências de democratizaçäo e de direitos humanos quanto ao comunismo chinês. Isto é, os Estados Unidos abdicaram do messianismo humanitário, laico e democrático que adotaram como razäo de ser.

Clinton obteve algo em troca?

Sim. A promessa de que os mísseis chineses näo continuem apontados contra o seu país. Porém, tais mísseis poderäo ser reconfigurados contra ele em apenas 10 minutos, graças à tecnologia que o próprio Clinton está cedendo ao dragäo vermelho. O Chefe do Executivo americano também obteve licença do presidente chinês para falar diretamente ao público pela televisäo. Porém, em termos que agradassem o regime, diante de auditórios selecionados pelo mesmo regime e sem traduçäo simultânea. O que revelou uma ingenuidade primária por parte do presidente norte-americano. Na melhor das hipóteses, só pouquíssimos elementos de confiança do regime entenderam... palavras que näo prejudicavam o regime!

Em matéria comercial, Clinton concedeu tudo e nada ganhou. Resumindo, recebeu "promessas cínicas" e envergonhou os Estados Unidos, segundo ressaltou o conhecido jornalista do "New York Times", William Safire.

Pecado de ateísmo atrai castigo divino

Clinton preferiu fazer concessöes morais e materiais devastadoras. Sacrificou a honra americana e compromissos assumidos, com a ilusäo de obter as vantagens de uma calmaria da crise econômica asiática. Nisto imitou Nixon antes da catástrofe do Vietnä e do genocídio cambogiano, e, mais remotamente, Chamberlain e Daladier em Munique face a Hitler, antes dos morticínios da II Guerra Mundial.

O que concluir de todos esses acontecimentos? Que os prognósticos do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, em 1971, sobre a viagem precursora de Nixon adquirem realidade ainda maior com a ida de Clinton. De modo especial, quando considerados na perspectiva dos grandes castigos anunciados por Nossa Senhora em Fátima.

Com efeito, para o Prof. Plinio, a política de entrega iniciada por Nixon pressupöe "um pecado de ateísmo atroz". "Por que de ateísmo?, perguntava ele naquela ocasiäo. Porque, quando um indivíduo afirma que a vida terrena vale mais do que tudo, .... ainda que ele creia em Deus, na prática, seu procedimento é ateu. Esse pecado de ateísmo é a rejeiçäo completa de Deus, que traz os castigos de Deus".