Fevereiro de 2018
São João Maria Vianney, Patrono dos párocos
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São João Maria Vianney, Patrono dos párocos

O Santo Cura d’Ars foi um vigário inflamado de amor de Deus e zelo pelas almas, e pôde comunicar à sua paróquia algo desse amor, de modo a transformá-la de tíbia em fervorosa. Por isso ele é o patrono do clero, e especialmente dos párocos. Este ano, no qual se celebra o 150º aniversário de sua morte, foi declarado pela Santa Sé “Ano Sacerdotal”.

Plinio Maria Solimeo

Pintura da época do Santo Cura d'Ars
Um antigo axioma dizia que os fiéis estão sempre um degrau abaixo do fervor do seu pároco. Assim, se este for santo, o povo será piedoso; se for apenas piedoso, os fiéis serão modelares; se for apenas modelar, os fiéis serão corretos; e se for apenas correto, seus fiéis serão tíbios. Então, o que dizer de um padre tíbio e até, como infelizmente não raro ocorre, relaxado? Ante a decadência religiosa e o abandono da fé que presenciamos, é oportuno lembrar o formidável exemplo de São João Maria Vianney — o Santo Cura d’Ars, como ficou mais conhecido — neste ano jubilar em que se comemora 150 anos de seu falecimento.(1)



Fruto de um lar verdadeiramente cristão

Residência onde viveu o santo na cidade de Ars
A pequena cidade de Dardilly, perdida nas montanhas que circundam Lyon, na França, viu nascer no dia 8 de maio de 1786 um menino que se tornaria uma das glórias da Igreja e venerado como santo: João Batista Maria Vianney.

Era o terceiro dos seis filhos de um piedoso casal de agricultores, Mateus Vianney e Maria Béluse. Nesse lar modesto, a caridade cristã era uma herança de família. O pai de Mateus, Pedro Vianney, tivera anos antes a felicidade de albergar em sua casa o santo-mendigo, São Bento José Labre.

João Maria foi batizado no mesmo dia em que nasceu, e como todos seus irmãos e irmãs, foi consagrado à Santíssima Virgem, segundo o bom costume da época.

Assim que o menino começou a distinguir os objetos exteriores, sua mãe mostrava-lhe o crucifixo e imagens piedosas. E quando foi capaz de mover os bracinhos, levava-o a fazer o Sinal da Cruz. Quando a noite descia, naqueles felizes tempos sem televisão, em vez de se deteriorar com a frivolidade e a imoralidade das telenovelas, a família Vianney conversava, lia a História Sagrada e rezava o terço em conjunto.

Foi então quando se abateu sobre a França a tormenta que, durante anos, levou o terror e a devastação àquela nação antes verdadeiramente cristã: a Revolução Francesa.

Durante a tormenta revolucionária

Quarto do santo
Em janeiro de 1791 começou a vigorar no país a ímpia Constituição Civil do Clero, que obrigava todos os sacerdotes a prestar um juramento cismático de obediência àquela constituição, sob pena de prisão ou mesmo de morte.

O vigário de Dardilly foi dos que cederam, e prestou o juramento. Arrependendo-se depois dessa verdadeira traição, retirou-se para Lyon, e de lá para a Itália. Foi substituído por outro sacerdote “juramentado” (que também prestara o juramento). Como aparentemente nada mudara, aqueles camponeses simples, ignorando o significado desse juramento, continuaram a ir à igreja e a freqüentar os sacramentos.

Mas logo os Vianney souberam, por um parente, o que significava ser padre “juramentado”, ou seja, que ele se tinha tornado cismático por aquele juramento, que impunha a ruptura com o Papa. Sem titubear, eles deixaram de freqüentar a igreja local, passando a assistir às Missas clandestinas celebradas por padres “refratários” (aqueles que heroicamente tinham recusado o juramento cismático), em granjas ou celeiros.

Veio então o período do Terror, durante o qual a guilhotina ceifou a vida de inúmeros inocentes. Não se podia mais praticar em público a Religião: a igreja de Dardilly foi fechada, os revolucionários derrubaram as cruzes e monumentos piedosos; nas próprias casas, era-se obrigado a esconder crucifixos e imagens religiosas.

Primeira Comunhão: clima de terror e perseguição

Cozinha da casa do Santo em Ars
Uma lei de 19 de dezembro de 1793 fechou as escolas religiosas e obrigou as crianças a freqüentar as escolas públicas, sob pena de multa aos pais. Mas no ano seguinte um católico, o “cidadão Dumas”, pôde reabrir sua escola, e nela ingressaram João Maria e sua irmã Catarina.

Em 1799, apesar de o sanguinário Robespierre já ter caído em 1794, a perseguição continuava, e centenas de sacerdotes foram deportados para a Guiana. O próprio Papa Pio VI tornou-se prisioneiro da Revolução. Foi nesse clima ainda de terror e perseguição que João Maria, aos 13 anos, recebeu a Primeira Comunhão das mãos de um sacerdote “refratário”, numa casa particular, com portas e janelas fechadas. Recorda sua irmã: “Meu irmão achava-se tão contente, que não queria mais sair do lugar onde teve a felicidade de comungar a primeira vez”.

No dia 9 de novembro de 1799 (18 brumário, segundo o calendário “ecológico” da Revolução), com um golpe de força o general Napoleão Bonaparte assumiu o poder na França com o título de Primeiro Cônsul. Para consolidar-se politicamente, aliviou a perseguição religiosa: as igrejas foram reabertas e muitos sacerdotes regressaram do exílio. Em Ecully, perto de Dardilly, dois sacerdotes “refratários” passaram a celebrar publicamente a Missa, e a família Vianney ali acorreu com todo fervor.

É de se notar que essa família genuinamente católica não deixou de santificar o domingo , até nos anos do Terror, quando o dia oficial do descanso era a década.

A longa caminhada para o sacerdócio

João Maria passara a ajudar o pai nos trabalhos mais pesados: lavrava a terra, cuidava da vinha, recolhia nozes e maçãs, podava as árvores, empilhava a lenha. Tudo fazia com recolhimento e espírito sobrenatural. Dirá mais tarde: “É mister oferecer a Deus nosso trabalho, nosso repouso e nossos passos. Oh, como é belo fazer tudo por Deus! Se trabalhas com Deus, és tu que trabalhas, mas é Deus que abençoa o teu trabalho. De tudo [Deus] tomará nota. A privação de um olhar, uma provação, serão anotadas”.(2)

À noite João Maria lia o Evangelho e a Imitação de Cristo antes de repousar. Quando completou 17 anos, consolidou-se nele a idéia de ser padre, mas o pai não queria nem ouvir falar disso.

Mais tarde o jovem soube que o Pe. Balley abrira uma escola em Ecully, para a formação de futuros sacerdotes. Voltou então a insistir com o pai para nela ingressar. Finalmente, pressionado pela esposa, Mateus Vianney concedeu a licença.

A gramática latina foi um tormento para esse camponês, já com 20 anos de idade. Mais habituado ao trato com os animais e a lavoura do que com as letras, tinha dificuldade em reter na memória o que aprendia. Apesar de estudar com tenacidade, seus progressos no estudo eram quase nulos. Fez então uma peregrinação a Louvesc para visitar o túmulo de São João Francisco de Régis, taumaturgo da região. Este atendeu o pedido com muita parcimônia: com muita dificuldade João Maria aprendeu o estritamente necessário para ser ordenado.

Desertor do exército contra a vontade

Entretanto, outro desastre se abateu sobre o esforçado seminarista. Napoleão, que se autoproclamara imperador, decretou o recrutamento de 20 mil jovens, e entre esses estava João Maria.

Tendo adoecido, teve dificuldades em juntar-se a seu regimento, perdendo-se no caminho; para não ser punido como desertor, ocultou-se sob um nome falso, sendo ajudado por uma viúva, que o escondeu até Napoleão proclamar uma anistia. João Maria pôde voltar para casa e continuar os estudos para o sacerdócio; seu irmão mais moço o substituiu no exército.

Enfim, ordenado sacerdote do Altíssimo

Cálice de Missa de São João Maria Vianney
Aos 25 anos João Maria recebeu a primeira tonsura. Cerca de cinco anos mais tarde foi aceito para a ordenação sacerdotal, de maneira quase milagrosa. Com as perseguições da Revolução Francesa, o país estava à míngua de padres. Por isso, o vigário-geral de Lyon sentiu-se inclinado à indulgência para com aquele seminarista tão esforçado, e perguntou ao Pe. Balley:

–– Ele sabe rezar o rosário?

–– Sim, é um modelo de piedade.

–– Se é um modelo de piedade, eu o admito às ordens menores. A graça de Deus fará o resto.

Nunca uma profecia se cumpriu com mais liberalidade!

Finalmente, no dia 13 de agosto de 1815, o bispo de Grénoble conferiu-lhe a ordem sacerdotal. Foi nomeado coadjutor de seu protetor Pe. Balley, em Ecully, mas sem licença para ouvir confissões. Aquele que passaria depois jornadas inteiras no confessionário, e seria modelo de confessor, tinha que estudar mais para ser considerado apto a atender confissões.

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