Agosto de 2009
São João Maria Vianney, Patrono dos párocos
Comente
Leia os comentários
Envie para amigos
Versao para impressão
Capa

Numa pequena comunidade de 230 habitantes

Púlpito da igreja de Ars
No dia 17 de dezembro de 1817 falecia o Pe. Balley, amigo e benfeitor do Pe. Vianney, e este ficou com todo o ônus da paróquia. Mas por pouco tempo, pois logo foi designado para a cidadezinha de Ars, um aglomerado de algumas dezenas de casas, com apenas 230 habitantes. O humilde sacerdote tornaria esse vilarejo universalmente famoso.

Como na maior parte das localidades rurais da França, sacudidas durante anos pelos vendavais da Revolução Francesa, em Ars a decadência religiosa era total. Os habitantes viviam num paganismo prático, formado de negligência, indiferentismo e esquecimento das práticas religiosas. Era corrente o péssimo hábito de blasfemar. Nas noites de sábado, os homens se reuniam em alguma das quatro tavernas da cidade para entregarem-se à bebedeira. O descanso dominical não era observado. Os jovens eram apaixonados pelos bailes, mas ignoravam até os rudimentos da doutrina católica. As crianças começavam a trabalhar desde cedo nos campos, e mal apareciam nos catecismos. Tampouco havia escola permanente para instruí-las. Havia certo fundo religioso, mas muito pouca piedade.

Como transformar aquela paróquia tíbia num modelo de vida católica? Eis o desafio para o Cura d´Ars (cura era o nome que designava um vigário de aldeia). Primeiro, pela oração e sacrifício aceitou o desafio. Já no dia seguinte ao de sua chegada, deu o colchão a um pobre e deitou-se sobre uns ramos junto à parede, com um pedaço de madeira como travesseiro. Como a parede e o chão eram úmidos, contraiu de imediato uma nevralgia que durou 15 anos. O seu jejum era permanente: passava três dias sem comer; e quando o fazia, alimentava-se somente de batatas cozidas no início da semana, emboloradas. Mais do que tudo, passava horas ajoelhado diante do Santíssimo Sacramento, pedindo a conversão dos seus paroquianos.

“Seu programa meditado diante do sacrário era o de todo pastor inquieto com a salvação de seu rebanho: entrar em contato com os seus paroquianos; assegurar a cooperação das famílias de mais destaque; melhorar os bons, reconduzir os indiferentes, converter os pecadores e escandalosos; e sobretudo orar a Deus, de quem dimanam todos os dons. Enfim, santificar-se a si mesmo para poder santificar os outros, e fazer penitência pelos culpados”.

A um sacerdote que lhe perguntou qual o segredo de suas primeiras conquistas, respondeu: “Meu amigo, o demônio não faz muito caso da disciplina e de outros instrumentos de penitência. O que o põe em debandada são as privações no comer, no beber e no dormir. Nenhuma coisa o faz temer tanto como isso, e por outro lado nada é tão agradável a Deus. Ah! como tenho experimentado essas coisas! [...] Chegava a passar três dias sem comer. [...] Então, conseguia de Deus o que queria, para mim e para os outros”.

Mas ele próprio reconhecerá mais tarde que, quando jovem sacerdote, no seu anseio de converter suas ovelhas, ultrapassara todos os limites da mortificação. E chamará tais excessos “loucuras da juventude”.

A casa de Deus tinha que ser o melhor lugar possível

Uma das primeiras medidas práticas do Cura d’Ars foi reformar a igreja. Por respeito ao Santíssimo Sacramento, desejava que estivesse nas melhores condições possíveis, queria o que há de melhor para o culto divino. Em Lyon, onde ia fazer suas compras, logo se tornou conhecido. Comentavam entre si os lojistas: “No campo há um pároco magro e mal arranjado, com ares de não ter um centavo no bolso, mas que compra para sua igreja tudo o que há de melhor”. Ele queria embelezar a casa de Deus para a glória do Senhor, e também para que fosse atraente para os humildes camponeses que ele tinha de ajudar a irem para o Céu.

Escreveu ao prefeito em 1820: “Desejaria que a entrada da igreja fosse mais atraente. Isso é absolutamente necessário. Se os palácios dos reis são embelezados pela magnificência das entradas, com maior razão as das igrejas devem ser suntuosas. [...] Não quero poupar nada para isso”. E o prefeito o ajudou na reforma, para que a igreja fosse o palácio de Deus e dos pobres.

Mais tarde quis honrar a Virgem Imaculada com uma capela lateral na igreja, e pagou um pintor para orná-la. Depois mandou construir outra capela lateral em louvor de seu patrono, São João Batista. E assim foi reformando ou reconstruindo a igreja toda, embelezando-a com pinturas e imagens. Dizia: “Muitas vezes basta a vista de uma imagem para nos comover e converter. Não raro as imagens nos abalam tão fortemente como as próprias coisas que representam”.   

A importância de se aprender o catecismo

Outra de suas solicitudes foi para com a juventude, que durante os terríveis anos da Revolução crescera ignorando as mais comezinhas práticas de piedade e os rudimentos da fé. Por isso começou a atrair todos para o catecismo — que se tornou depois célebre com a presença de peregrinos, eclesiásticos e mesmo bispos. Só admitia à Primeira Comunhão quem estivesse devidamente preparado. Instava com os meninos e adolescentes para que levassem sempre consigo o rosário, e tinha no bolso alguns extras para aqueles que o houvessem perdido.

Paulatinamente os esforços do santo foram se coroando de êxito, de maneira que os jovens de Ars chegaram a ser os mais bem instruídos da região.

Segredo do pregador: preparar bem os sermões

Confessionário de uso do santo
O Pe. Vianney empregou também todo seu zelo para instruir os fiéis por meio da pregação. Pregava em geral sobre os deveres de cada um para consigo, para com o próximo e para com Deus. Desejava ardentemente a salvação de seus paroquianos, e por isso falava constantemente do inferno e do que precisamos fazer para evitá-lo.

Como fazia para instruir seus paroquianos um sacerdote tão mal preparado, com memória fraca e poucos talentos? Ele preparava longamente seus sermões. Ia escrevendo tudo o que lhe vinha à cabeça, depois procurava reter na memória o que tinha escrito. Então lia tudo em voz alta, para si mesmo. Uma, duas, três vezes.

No dia seguinte, pronunciava seu sermão com voz gutural, na qual predominavam as notas agudas. No começo, fazia um esforço tremendo quando pregava. Alguém lhe perguntou: “Por que o Sr. fala tão alto quando prega, e tão baixo quando reza? É que quando prego, falo a surdos, e quando rezo falo a Deus, que não o é”.

Ele exigia a devida compostura na igreja, por respeito à presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento.

Dizia também que a salvação para a gente do campo era muito fácil, porque podiam rezar livremente durante o trabalho e não tinham nada que os pudesse distrair do caminho da salvação.

Seguindo as diretrizes do Concílio de Trento, que prescrevia como dever dos párocos explicar freqüentemente aos fiéis as cerimônias da Missa, o Pe. João Maria se esforçava para tornar acessíveis a seus paroquianos cada uma de suas partes.

“Vereis arruinados todos aqueles que abrirem tabernas”

Num povoado pequeno como Ars, havia quatro tabernas. Aos domingos uma boa parte dos homens, em vez de ir à Missa, ia para uma taberna. O santo cura os exprobrava do alto do púlpito, servindo-se dos termos de São João Clímaco: “A taberna é a tenda do demônio, a escola onde o inferno prega e ensina a sua doutrina, e o lugar onde se vendem as almas, onde as fortunas se arruínam, onde a saúde se perde, onde começam as rixas, e onde se cometem os assassinatos”.

Fulminava também os taberneiros com os anátemas divinos: “O sacerdote não pode nem deve dar a absolvição aos proprietários de tabernas –– que dão de beber a bêbados durante a noite ou durante a santa Missa –– sem se condenar a si mesmo. Ah, os taberneiros! O demônio não os importuna muito, pelo contrário, despreza-os e lhes cospe em cima”.

Aos poucos, por falta de fregueses, as tabernas foram fechando. Alguns tentaram reabri-las, mas logo tiveram que fechar. A maldição de um santo pesava sobre eles: “Vós vereis arruinados todos aqueles que aqui abrirem tabernas”, disse no púlpito. E assim foi. Quando as tabernas se fecharam, o número de indigentes diminuiu, pois se suprimiu a causa principal da miséria, que era moral.

voltar 1 | 2 | 3 | 4 Continua
Comente
Leia os comentários
Envie para amigos
Versao para impressão