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Luta categórica contra as blasfêmias

“Blasfêmias e trabalhos aos domingos, bailes, cabarés, serões nas vivendas e conversas obscenas, ele englobava tudo numa comum maldição”. Por anos a fio pregou contra isso, exortando no confessionário, no púlpito e nas visitas que fazia às famílias. Dizia ele do púlpito: “Não é um milagre extraordinário que a casa onde se acha um blasfemo não seja destruída por um raio ou cumulada com toda sorte de desgraças? Tomai cuidado! Se a blasfêmia reinar em vossa casa, tudo perecerá”. Procurava fazer da blasfêmia objeto de horror para as crianças e para os jovens: “O Cura d’Ars soube fazer tão bem a guerra contra toda espécie de blasfêmias, juramentos e imprecações, e até as expressões grosseiras — ele mesmo não receava nomeá-las de púlpito — que pouco a pouco desapareceram do vocabulário de Ars”.

Luta contra o trabalho aos domingos

Com zelo apostólico, conquistou a alma de seus paroquianos
A maior parte dos homens perdera o costume de fazer a comunhão pascal, nos muitos anos que ficaram sem sacerdote, e muitos deles não cumpriam essa obrigação essencial havia 15 ou 20 anos.

A luta contra o trabalho aos domingos foi também tenaz, durou quase oito anos, e ainda assim não conseguiu aboli-lo de todo. Em vez de seguir o preceito dominical, iam trabalhar em suas terras aos domingos. O Santo dizia a respeito disso com muita propriedade: “Deixai uma paróquia sem padre por 20 anos, e nela se adorarão os animais”.

A primeira vez que do púlpito abordou o tema, fê-lo com tantas lágrimas, tais acentos de indignação, com tal comoção de todo o seu ser, que meio século depois os velhos que o ouviram ainda se lembravam com emoção: “Vós trabalhais, mas o que ganhais é a ruína para a vossa alma e para o vosso corpo. Se perguntássemos aos que trabalham nos domingos: ‘Que acabais de fazer?’, bem poderiam responder: ‘Acabamos de vender a nossa alma ao demônio e de crucificar Nosso Senhor. Estamos no caminho do inferno’. [...] O domingo é um dom de Deus, é o seu dia. É o dia do Senhor. Ele fez todos os dias da semana. Bem poderia tê-los reservado todos para si, mas deu-nos seis e ficou apenas com um. Com que direito vos apoderais do que não vos pertence? Sabeis que os bens roubados não trazem proveito. O dia que roubais ao Senhor tampouco vos aproveitará. Conheço dois meios bem seguros para alguém empobrecer e chegar à miséria: trabalhar no domingo e tirar o alheio. Ide pelos campos dos que trabalham durante os dias santos: sempre têm terras para vender”. Insistia em que quem trabalha no domingo acaba empobrecendo. Entretanto, quando o mau tempo persistia e a colheita perigava, ele não se opunha a que trabalhassem durante o repouso dominical. Mas não autorizava diretamente esse trabalho: “Façam o que quiserem, o negócio é vosso”.

Por que os homens se sentem no direito de não praticar a Religião, deixando-a só às mulheres e crianças? — perguntava ele. “Os homens, como as mulheres, têm uma alma a salvar. Em tudo costumam ser os primeiros. Por que não o hão de ser também em servir a Deus e em render homenagem a Jesus Cristo no sacramento do seu amor?”.

“Sua piedade, seus sermões e seu zelo de pastor restauraram pouco a pouco o fervor religioso em sua paróquia. [...] Passava dias inteiros confessando, convencido de que seu objetivo de trazer de volta seus paroquianos para Deus poderia ser ganho se houvesse confiança na misericórdia divina”.

Aos poucos os camponeses começaram a comparecer mais regularmente aos ofícios dos domingos. Um bom número deles chegava a passar uma hora inteira diante do Santíssimo Sacramento exposto.

O santo cura comprazia-se em contar o caso daquele camponês que, antes do trabalho, ia fazer uma visita ao Santíssimo Sacramento. A um amigo que lhe perguntou o que fazia durante tanto tempo nessas visitas, ele respondeu: “Olho para Deus, e Deus olha para mim”. O Santo Cura d’Ars emocionava-se contando o fato, e dizia: “Ele olhava para Deus e Deus olhava para ele. Tudo consiste nisso, meus filhos”.

Assim, depois de muita insistência, em Ars o domingo se tornou verdadeiramente o Dia do Senhor.

Desde o começo de seu apostolado, o Santo Cura d’Ars procurou organizar uma elite que, formando com ele o coração da paróquia, o ajudasse na obra de penetração e conquista. E assim conquistou a castelã de Ars e muitas outras senhoras do povoado para esse apostolado. Sob sua direção, muitas chegaram mesmo a uma grande perfeição.

Aos poucos se verá em Ars, ao som do sino, todos os paroquianos acorrerem à igreja para a recitação do rosário e da oração da noite.

Combate aos bailes, ocasião de pecado

Ars era o lugar predileto dos jovens dançarinos das vizinhanças. Tudo era pretexto para um baile. Para acabar com eles, o Santo Cura d’Ars levou 25 anos de combate renhido. Explicava que não basta evitar o pecado, mas deve-se fugir também das ocasiões. Por isso abrangia no mesmo anátema o pecado e a ocasião.

Atacava assim, ao mesmo tempo, a dança e a paixão impura por ela alimentada: “Não há um só mandamento da Lei de Deus que o baile não transgrida. [...] Meu Deus, poderão ter olhos tão cegos a ponto de crerem que não há mal na dança, quando ela é a corda com que o demônio arrasta mais almas para o inferno? O demônio rodeia um baile como um muro cerca um jardim. As pessoas que entram num salão de baile deixam na porta o seu anjo da guarda, e o demônio o substitui, de sorte que há tantos demônios quantos são os que dançam”.

O santo era inexorável não só com quem dançasse, mas também com os que fossem somente “assistir” ao baile, pois a sensualidade também entra pelos olhos. Negava-lhes a absolvição, a menos que prometessem nunca mais fazê-lo. Ao reformar a igreja, erigiu um altar em honra de São João Batista, e em seu arco mandou esculpir a frase: “Sua cabeça foi o preço de uma dança”. Sempre dizia que uma moça apaixonada pela dança não poderá gostar dos gozos simples e puros.

Ele empregava todos os meios a seu dispor para evitar os bailes. Certa vez perguntou ao músico que ia tocar naquela noite quanto lhe pagavam para tocar; e pagou-lhe em dobro para não tocar, frustrando a realização do baile. Outro dia foi ao taberneiro que ficava na praça onde haveria o baile, e perguntou quanto calculava que iria ganhar naquele dia. E pagou-lhe também o dobro para que fechasse seu estabelecimento naquela tarde.

A vitória do Pe. Vianney nesse campo foi total: os bailes desapareceram de Ars, como também outros divertimentos que ele julgava indignos de bons católicos, mesmo não sendo diretamente pecaminosos.

Junto aos bailes, combatia também as modas femininas que julgava indecentes. Não permitia jamais que as moças e as senhoras fossem à igreja decotadas ou com os braços nus. Às moças, dizia: “Com seus atrativos rebuscados e indecentes, logo darão a entender que são um instrumento de que se serve o inferno para perder as almas. Só no tribunal de Deus [o confessionário] se saberá o número de pecados de que foram causa”.

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