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Lição para os sacerdotes –– calúnias, obsessões do demônio

Seria de supor que um sacerdote tão santo estivesse livre de perseguição e de calúnia. Isso não é assim, pois Nosso Senhor era infinitamente justo, no entanto sofreu o que sofreu.

Muitos estavam desgostosos com a franqueza com que fustigava os vícios, o que ele considerava seu dever: “Se um sacerdote quiser se salvar, precisa, quando encontrar alguma desordem na paróquia, saber calcar aos pés o respeito humano, o temor de ser desprezado e o ódio de seus paroquianos, ainda mesmo estando certo de que, ao baixar do púlpito, vai ser assassinado. Isso não o deve amedrontar. Um pároco que quiser cumprir o seu dever, deve estar sempre de espada em punho. [...] Depois de proferir violentas invectivas contra os maus exemplos dos pais, se quer fazer-lhes conhecer as suas faltas e as de seus filhos, eles se enfurecem, vituperam-no, falam mal dele e o fazem objeto de mil contradições”.

O Santo Cura d’Ars não era amigo de meias medidas: “Se nunca foi brusco quando se devia manifestar conciliador e suave, tampouco hesitou quando se impunham resoluções enérgicas. Através do pecador, por quem sentia grande compaixão, ele via o pecado, para com o qual não tinha misericórdia”.

Os libertinos de Ars chegaram a dizer do Pe. Vianney toda série de infâmias e injúrias, e tornaram-no objeto de canções burlescas. Mais terríveis que as injúrias dos homens, no entanto, foram as provações divinas. Só ele mesmo poderia dizer por quantas provações passou durante sua vida. Além disso, sofria com as obsessões dos demônios, que o assaltavam freqüentemente com ruídos e insultos, arrastando os móveis e mesmo pondo fogo no colchão no qual dormia, como ele contou uma vez à sua irmã: “Algumas vezes ele [o demônio] me agarra pelos pés e me arrasta pelo quarto. Faz isso porque converto almas para Deus”.

O zelo pela instrução das crianças

A comuna de Ars não tinha escolas. No inverno chamava-se um professor de fora, que dava aulas para meninos e meninas reunidos numa mesma classe. Isso desgostava profundamente o Pe. Vianney. Combinou então com o prefeito que se criassem duas escolas na cidade, uma para meninos e outra para meninas. Para cuidar das meninas, escolheu duas jovens piedosas, Catarina Lassagne e Benita Lardet, e mandou-as fazer um curso com as religiosas de São José, numa cidade vizinha. A elas juntou outra jovem menos instruída, mas apta para os trabalhos domésticos. Alugou uma casa, e em 1823 era aberta a escola para meninas. Deu-lhe o nome de Casa da Providência, que logo passou a albergar órfãs. Essa instituição será a “menina dos olhos” de São João Vianney. Ele dizia “que só no dia do Juízo poderemos ver o bem operado nessa casa”. Foi na sala de aula da Providência que começaram os famosos catecismos de Ars. A princípio só para as alunas, mas depois foram invadidos pelos peregrinos e até por prelados.

“Meus irmãos, Ars já não é a mesma!”

Após anos de ministério, o Pe. Vianney podia afirmar: “Encontro-me numa paróquia de muito fervor religioso, e que serve a Deus de todo o coração”. Mais tarde exclamava entusiasmado do púlpito: “Meus irmãos, Ars não é mais a mesma! Tenho confessado e pregado em missões e jubileus. Nada encontrei como aqui”.

É que, ao mesmo tempo em que reprimia os abusos, semeava também a boa semente. Ele aspirava para seus paroquianos o ideal de perfeição que julgava serem eles capazes de alcançar. Recomendava-lhes que rezassem antes e depois das refeições, recitassem o Ângelus três vezes ao dia onde quer que estivessem, e que, ao levantar e deitar, fizessem a oração da manhã e a da noite. Esta passou a ser feita também em comum na igreja, ao toque do sino. Os que ficavam em casa ajoelhavam-se diante de algum quadro ou imagem religiosa, e ali faziam suas orações.

Com o tempo passou-se a dizer que em Ars o respeito humano fora invertido: tinha-se vergonha de não fazer o bem e de não praticar a Religião.

Ars tornou-se também um centro de piedade e religiosidade. A tal ponto que o próprio demônio desabafou pela boca de um possesso: “Que asquerosa terra é esta Ars! Nela tudo cheira mal. Em Ars todos cheiram mal”. Cheiravam mal para o maligno, pois tinham o bom odor de Jesus Cristo.

“Aqueles agricultores abastados — pois, apesar de serem caritativos para com os pobres, eram trabalhadores e econômicos — causavam admiração aos forasteiros. Suas reflexões eram sensatas; seus corações, enobrecidos pela graça e pela fé; tinham uma educação à sua maneira: simples, ingênua, porém misturada, como nos antigos patriarcas, duma distinção, duma delicadeza não comuns. Fora a Religião sua mestra”, e o Pe. Vianney o instrumento.

O corpo do Santo Cura d´Ars encontrado incorrupto

Altar com o corpo do Santo Cura d’Ars
Muito poder-se-ia narrar ainda sobre este exemplar sacerdote e grande santo, mas que ultrapassariam os limites deste artigo. Concluímos dizendo que ele faleceu há exatos 150 anos, no dia 4 de agosto de 1859. Foi beatificado por São Pio X em 1905, e canonizado por Pio XI em 1924.

Por ocasião da beatificação, seu corpo foi exumado e encontrado incorrupto, apesar de seco e escurecido. E é assim que permanece até o dia de hoje em Ars, para maravilhamento e edificação dos inúmeros peregrinos que para lá ainda se dirigem, a fim de respirar um pouco daquele ar abençoado pela vida e virtudes de São João Maria Vianney — santo que todo o clero católico deveria ter como modelo de perfeição.

 

 

O que explica a eficácia do apostolado de São João Maria Vianney

O coração do Santo Cura d‘Ars
“O que distinguia o Santo Cura d´Ars? Não tendo ele nenhuma das qualidades naturais para exercer um sacerdócio extraordinário, entretanto foi um sacerdote magnífico, um apóstolo estupendo, um confessor com discernimento raríssimo, um pregador com uma influência profunda sobre as almas, e sobretudo um sacerdote santo. Foi o próprio modelo de sacerdote, título que é a arquitetura de todo o resto.

Qual a razão da eficácia do apostolado desse santo? Como disse bem Santa Teresinha do Menino Jesus, ‘para o amor, nada é impossível’. Ele amava verdadeiramente a Deus Nosso Senhor e a Nossa Senhora, e por isso obteve os meios para fazer aquilo para o que a Providência Divina o chamava. Por causa disso, foi um pregador extraordinário. Sem subir às altas regiões da teologia, seus sermões cuidavam das noções catequéticas comuns para um sacerdote instruir o povo. Mas aquilo que ensinava, ele pregava com tanta unção, compenetração, fé e amor de Deus, que contagiava.

Dom Chautard, em seu livro A Alma de Todo Apostolado, conta este fato característico. Um advogado ímpio esteve na cidadezinha de Ars, e voltou convertido. Alguém então perguntou-lhe:

–– O que é que o senhor viu em Ars?

— Eu vi Deus num homem!

Havia a presença de Deus naquele sacerdote, notava-se que Deus estava com ele. Ars tornou-se um centro de peregrinação, para onde iam pessoas da França e da Europa inteira a fim de ouvir esse sacerdote que mal dominava corretamente a teologia, mas que fazia conversões estupendas.

O que diria um Santo Cura de Ars sobre as moças indecentemente trajadas e sobre as danças imoralíssimas de nosso tempo?

Se de todos os púlpitos da Cristandade se ouvissem coisas na linha dos sermões do Cura d´Ars, a impureza não recuaria enormemente? O que aconteceria com as modas imorais?

Se todos os pregadores fossem como o Cura d´Ars, o mundo estaria diferente! Por que o mundo não é como deveria ser? Antes de tudo, porque os pregadores não pregam o que deveriam pregar. E por que não pregam o que deveriam pregar? Porque não são o que deveriam ser”.

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Trecho de conferência do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira sobre o Santo Cura d’Ars,
em 9 de julho de 1968

 

 

Notas:

1. Todas as citações entre aspas (com exceção da que é identificada com o nº 2) foram extraídas da obra clássica de Mons. Francis Trochu, O Cura d’Ars, São João Batista Maria Vianney, Tipografia do Centro, Porto Alegre, 1939, pp. 25, 28, 110, 120, 122, 155, 157, 133, 134, 134, 217, 135, 136. 136. 137, 175, 140, 161, 163, 162, 227, 193 e 199.

2. Pe. Alfred Monnin, Le Curé d’Ars, Pierre Téqui, Libraire-Éditeur, Paris, 1922, t. I, p. 200.

 

 

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