Fevereiro de 2017
São Teotônio de Portugal
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Vidas de Santos

 

São Teotônio de Portugal

Embora pouco conhecido no Brasil, foi esteio da nação portuguesa e um dos grandes Priores da Idade Média, co-fundador do Mosteiro de Santa Cruz e seu primeiro Prior

          Plinio Maria Solimeo

 

         Teotônio nasceu no ano de 1082 em Ganfei, concelho de Valença, Portugal, e foi batizado na igreja do convento beneditino daquela cidade. Neste aprendeu as primeiras letras e a doutrina cristã até a idade de 10 anos. Foi então confiado aos cuidados de seu tio paterno, Crescêncio, bispo de Coimbra.

Com a morte do tio, Teotônio mudou-se para Viseu, a fim de terminar seus estudos. Esta cidade, localizada no centro do então Condado Portucalense, apresenta uma história digna de nota: “As terras de Viseu mudaram frequentemente de mãos entre cristãos e mouros, e só foi definitivamente tomada em 1058, com a vitória de Fernando I, de Leão. Mas o cerco desse monarca deixou tal destruição, que somente em 1147-1148, durante a Reconquista, a Diocese de Viseu teve condições de manter um bispo. Por muitos anos ela foi absorvida pelo Bispado de Coimbra, devido à intervenção dos priores, incluindo São Teotônio. [...] Durante o tempo do Condado Portucalense, Viseu serviu como sede a Henrique, conde de Portugal, e à Condessa Teresa, que lhe concederam em 1123 o foro de cidade. Viseu é um dos possíveis lugares do nascimento de seu filho, Afonso Henriques [o grande fundador da monarquia portuguesa], em 1109”.(1)

Foi nessa cidade que Teotônio recebeu a ordenação sacerdotal, sendo incorporado ao clero da igreja de Santa Maria. Pouco depois se tornou prior de sua Sé episcopal. “Teotônio, crendo-se mais obrigado pelo novo emprego a ser um modelo perfeito do estado eclesiástico, o conseguiu a expensas de uma conduta irrepreensível. Mas, não satisfeito de velar de [modo] contínuo sobre seus súditos para que desempenhassem bem o caráter de sua profissão, sempre solícito e sempre ansioso de que se celebrassem os divinos ofícios com a maior decência, deu à sua igreja preciosíssimos paramentos de seu próprio patrimônio”.(2)

Peregrinações à Terra Santa

         Como todo bom cristão da Idade Média, São Teotônio tinha ardente desejo de visitar os Lugares Santos. Por isso, deixando um substituto em seu lugar, partiu para a Palestina em hábito de peregrino.

         Depois de visitar com muita devoção a terra regada pelos suores e sangue preciosíssimos de Cristo, voltou à sua pátria, continuando a pregar ao povo, socorrer os pobres e visitar os enfermos.

         Mas, a lembrança da Terra Santa frequentemente lhe voltava à memória. Empreendeu então uma nova peregrinação. Estando em Jerusalém, permaneceu certo tempo no convento localizado junto à igreja do Santo Sepulcro — construída por Santa Helena — que o piedoso e heroico Godofredo de Bouillon edificara, após conquistar a Cidade Santa em 1099. O convento era atendido pelos Cônegos Regulares de Santo Agostinho que, edificados com a piedade e devoção do prior português, suplicaram-lhe que ficasse em sua companhia. Mas Teotônio não podia fazê-lo sem licença, pois estava ainda ligado à Sé de Viseu.

Voltou então a Portugal para regularizar sua situação, pensando depois em estabelecer-se definitivamente em Jerusalém.

 

Primeiro Prior do mosteiro de Santa Cruz

Tendo retornado a Viseu em 1131, enquanto regularizava sua situação para voltar à Terra Santa, o santo foi convidado por um grupo de eclesiásticos de Coimbra, liderados pelo arcediago Telo, a participar da fundação naquela cidade de um mosteiro dos mesmos Cônegos Regulares de Santo Agostinho.

Essa iniciativa contava também com o apoio de D. Afonso Henriques, então conde do Condado Portucalense, e de seu filho Dom Sancho. Esses dois grandes heróis da história portuguesa, no futuro seriam enterrados nesse mosteiro, que foi dedicado à Santa Cruz. São Teotônio foi escolhido para prior da nova fundação.

Esse mosteiro tornou-se famoso na Idade Média. Recebeu muitos privilégios papais e doações dos condes e depois primeiros reis de Portugal, tornando-se o mais importante do Reino. Uma de suas glórias seria o frade Fernando Martins Bulhões, futuro Santo Antônio de Lisboa ou de Pádua. Afirma-se também que nele estudou o grande poeta épico Luís de Camões, uma vez que um parente seu, D. Bento de Camões, também foi prior do mosteiro no século XVI.(3)

 

Fundação do reino de Portugal

         Quando o conde Dom Afonso Henriques procurava tornar-se independente do reino espanhol de Leão, São Teotônio foi um dos seus mais fervorosos incentivadores. O santo o secundou também em sua luta contra sua mãe, a infanta Da. Teresa de Leão, que se aliara a um conde castelhano em detrimento do filho. Dizem alguns que Teotônio chegou a excomungá-la.

         Foi confiado nas orações e nos conselhos do santo que o infante Afonso empreendeu a memorável batalha de Ourique, decisiva não só para a Reconquista, mas também para a formação do futuro reino.

Segundo a legenda, na véspera dessa batalha, dia consagrado a Santiago, o conde português teve uma visão de Cristo Jesus crucificado, rodeado de anjos. O Divino Salvador garantiu-lhe a vitória no combate.

         A bela narração antiga desse acontecimento traz todo o sabor da piedade medieval. Citamos apenas um pequeno trecho, por ser muito saboroso: quando viu aparecer-lhe o Rei do Universo pregado na cruz, o conde, perplexo, mas cheio de fé, exclamou: “Senhor!... Por que me apareceis?... Que me quereis dizer?... Desejareis, porventura, acrescentar fé a quem tanta traz no peito? Se o inimigo Vos pudesse ver, como eu Vos estou vendo, talvez esse pudesse acreditar em Vós! Por mim, creio que sois o Deus verdadeiro, Filho da Virgem e do Padre Eterno!”.(4)

Essa visão ocorreu no ano de 1139, após a qual D. Afonso obteve, ainda segundo a lenda, estrondosa vitória sobre cinco reis mouros. O invicto guerreiro proclamou-se então rei, com o apoio da nobreza do novo país. Na bandeira portuguesa aparecem ainda hoje as cinco quinas azuis, “que representam as primeiras batalhas na conquista do País (diz-se que são os cinco mouros vencidos na Batalha de Ourique por D. Afonso Henriques); cada quina contém cinco pontos brancos: as cinco chagas de Cristo, que ajudaram D. Afonso Henriques a vencer esta batalha”.(5)

                A lembrança desse milagre alimentou durante muito tempo a fé dos portugueses, até que, no século XIX, com o iluminismo e o racionalismo, começou-se a duvidar das coisas mais santas. A esse propósito observa bem o escritor português Gentil Marques: “Muito se tem falado, discutido e escrito sobre o já famoso milagre de Ourique. Porém, a nós, interessa-nos apenas o verdadeiro aspecto lendário de cada história — aquele meio-termo que se situa sempre entre a realidade e o sonho, entre o natural e o sobrenatural, entre a banalidade das coisas correntes e a poesia das coisas raras. Por essa razão, voltando as costas às polêmicas acesas em torno do caso, vamos contar aqui apenas a lenda — sem dúvida uma das belas de Portugal”.(6)

 

Consolidação do reino de Portugal

Segundo os historiadores, o novo rei, Afonso I, não intentava nenhuma empresa que não tivesse a aprovação do ilustre Prior, em cujos méritos ele havia colocado a sua confiança.

Orientado por Teotônio, “desde então D. Afonso Henriques procurou consolidar a independência por si declarada. Fez importantes doações à Igreja e fundou diversos conventos. Dirigiu-se ao Papa Inocêncio II, declarou Portugal tributário da Santa Sé, tendo reclamado para a nova monarquia a proteção pontifícia. Em 1179, o Papa Alexandre III, através da bula Manifestis Probatum, confirma e reconhece Portugal como reino independente e soberano, protegido pela Igreja Católica”.(7)

         Outra grande vitória de Dom Afonso I constituiu a conquista de Santarém. Incentivado pelo santo, “sitiou este religioso príncipe a fortaleza de Santarém, ocupada pelos mouros. E manifestou ao santo que determinava dar o perigoso avance depois de largo cerco, para que este o ajudasse com suas poderosas orações. Estas foram feitas com toda sua comunidade. No mesmo dia o rei, pés descalços, deu assalto àquela importantíssima praça”.(8) Entretanto, “a conquistou definitivamente somente em 15 de março de 1147, num golpe audacioso perpetrado pelo rei, durante a noite, com um escasso exército que tinha reunido”.(9)

“Realizou o grande rei Afonso Henriques várias expedições contra os mouros de Andaluzia e, voltando vitorioso, trouxe entre os cativos africanos muitos escravos cristãos [...]. Sabendo disso, o santo prior [Teotônio] foi ter com o monarca, e de tal sorte lhe ponderou o pecado que cometia um príncipe cristão trazendo cativos os fiéis, que o famoso soberano português, compungido, deu liberdade a mais de mil homens, sem contar mulheres e meninos. Teotônio, ainda não satisfeito com esta ação heroica, deu-lhes domicílio próximo ao mosteiro, e manteve-os vários anos como se fora pai de todos”.(10)

 

Glorificação

         Depois de exercer o priorado durante 20 anos, desejoso de uma vida de oração e contemplação a fim de se preparar para a morte, o santo suplicou a seus coirmãos que elegessem um novo Superior. Foi eleito então seu sobrinho, João Teotônio. A grande alma do santo voou para o Céu no dia 18 de fevereiro de 1162.

Após seu falecimento, foram tantos os milagres obtidos por sua intercessão, que Teotônio foi canonizado apenas um ano depois de sua morte, como o primeiro santo da nova pátria portuguesa.

_______________

Notas:

  1. https://en.wikipedia.org/wiki/Viseu

  2. Pe. Pedro de Ribadeneira, Flos Sanctorum, in La Leyenda de Oro, L. Gonzalez y Compañia – Editores, Barcelona, 1896, tomo I, p. 444.

  3. https://pt.wikipedia.org/wiki/Mosteiro_de_Santa_Cruz

  4.  http://www.lendarium.org/narrative/lenda-do-milagre-de-ourique-1/?tag=495

  5. http://www.junior.te.pt/servlets/Rua?P=Portugal&ID=211.

  6. MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume II, pp. 365-369, in http://www.lendarium.org/narrative/lenda-do-milagre-de-ourique-1/?tag=495

  7. https://pt.wikipedia.org/wiki/Independ%C3%AAncia_de_Portugal

  8. Ribadeneira, op. cit., p. 445.

  9. https://pt.wikipedia.org/wiki/Santar%C3%A9m_(Portugal)

  10. Pe. José Leite, S.J., Santos de Cada Dia, Editorial A.O., Braga, 1993, tomo I.

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