Fevereiro de 2017
Vitória da Cristandade na Batalha de Mohács
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Episódios Históricos

A batalha de Mohács e a queda de Maomé IV

 

Em 1526, o Sultão Solimão “o Magnífico” venceu o rei Luís II da Hungria na planície de Mohács. Desde então, as investidas muçulmanas para adentrar ainda mais a Europa e destruir a Cristandade não cessaram de aumentar. Veneza, Polônia e Áustria, países membros da Santa Liga convocada pelo Papa em 1683, reuniram-se para livrar a Europa desse perigo.

      Ivan Rafael de Oliveira

 

Enquanto transcorriam os acontecimentos vitoriosos para a reconquista da cidade de Buda em 1686, como foi descrito no artigo anterior (outubro/2016), Veneza e Polônia também encetaram investidas contra os otomanos. Estes, no entanto, continuavam na posse de importantes regiões húngaras. A Cristandade considerava ser preciso dar continuidade às batalhas até extinguir a ameaça dos inimigos de Cristo.

 

Expedição polonesa em 1686

Esse ano não foi tão bem sucedido para os poloneses. Então o rei João Sobieski, prevendo que os russos iniciariam seu avanço contra os muçulmanos, tentou nova expedição à Moldávia e concebeu ousado plano para chegar até Adrianópolis, na Turquia.

Mas Sobieski só pôde iniciar sua campanha em agosto, pois além de a aristocracia polonesa se opor a seus extensos planos, o exército tardou em se reunir. Por sua vez, os russos acabaram não chegando, enquanto os turcos sempre se retiravam, eliminando qualquer suprimento nos lugares por onde os poloneses passariam. Com isso, estes ficaram sem nenhuma possibilidade de vitória. E decorrido apenas um mês do início da marcha, Sobieski foi obrigado a recuar.

 

Progressos de Veneza

Os venezianos alcançaram naquele ano notáveis progressos na conquista do Peloponeso, a grande península grega. Os morlacos e outros povos da Dalmácia, que viviam sob o jugo otomano, uniram seus esforços a Veneza. Em junho e julho foram conquistadas na Grécia as cidades de Navarino, Argos e Náuplia, e na Dalmácia as cidades de Sinj e Herseg Novi. A Senhoria de Veneza ficou tão satisfeita com tais êxitos, que concedeu ao comandante Francisco Morosini o título de “Peloponésico”, e ao comandante Cornaro o título de “Dalmático”. Otto Königsmark, tenente sueco a serviço de Veneza, conquistou Modon, enquanto a cidade de Patras, capital da Acaya, caiu em poder de Morosini. Mas as grandes conquistas venezianas desse ano foram as cidades de Corinto e Mistras, a antiga Esparta.

No ano seguinte, Königsmark recebeu o privilégio de dirigir o cerco de Atenas. Os turcos haviam convertido o templo do Partenon em armazém de pólvora; atingido por uma bomba, o orgulho da antiga Atenas voou pelos ares. Os leões de mármore, que davam fundamento para o porto de Pireu ser denominado Porto dos Leões, foram transportados para Veneza, cujo Arsenal parecem hoje custodiar.

 

 

 

 

 

 

Em Mohács, o grande revide

O ano de 1687 também registrou outra grande vitória da Cristandade. Estando o Grão-Vizir Solimão com 120 mil homens na cidade de Osijek, Carlos de Lorena saiu a seu encontro para forçá-lo a empreender uma batalha decisiva. Embora o exército imperial contasse com apenas 60 mil homens, as vitórias dos últimos anos haviam elevado sua confiança. No dia 12 de agosto daquele ano, travou-se na cidade de Harkany uma batalha campal que passou para a História como a segunda Batalha de Mohács. Ela recebeu esse nome devido à denominação da aldeia vizinha, onde 161 anos antes Solimão, o Magnífico, havia derrotado o infeliz rei húngaro Luís II e conquistado assim boa parte do país.

A vitória dos austríacos foi esmagadora. Enquanto os imperiais perderam somente mil homens, os otomanos, especialmente devido à confusão da fuga, amargaram 20 mil mortos. Ademais, sofreram destruições e perdas consideráveis: 78 peças de artilharia, 160 bandeiras e estandartes, grande quantidade de balas, fuzis e de 300 camelos. O príncipe Eugênio de Saboia, comandante dos dragões, completou o triunfo empreendendo o assalto ao acampamento turco. A magnífica tenda do Grão-Vizir transformando-se no botim do príncipe Maximiliano II da Baviera. Eugênio foi enviado a Viena com a notícia da vitória, tendo então sido presenteado pelo imperador com o retrato deste circundado de diamantes. Quando o Sultão Maomé IV teve conhecimento de mais essa derrota, desgostado, não conseguiu comer durante três dias.

 

 

A queda de Maomé IV

Uma das principais consequências dessa derrota para os turcos foi a perda da Eslavônia. Reunindo-se após a fuga, o exército muçulmano começou a proclamar que a culpa cabia ao Grão-Vizir Solimão, “o Trapaceiro”. Este astuto, percebendo que oferecendo riquezas aos soldados conseguia acalmá-los, fugiu para Constantinopla.

Os amotinados elegeram Siawusch Paxá como novo Grão-Vizir e enviaram uma petição ao Sultão, na qual pediam a deposição de Solimão. Quando Maomé IV confirmou a nomeação de Siawusch, os amotinados exigiram a execução de Solimão e se puseram imediatamente em marcha contra Constantinopla. A perplexidade de Maomé IV foi imensa.

Para aplacar a fúria dos insurrectos, o Sultão condescendeu e enviou ao acampamento a cabeça do antigo Grão-Vizir. Não obstante, os rebeldes continuaram avançando, pedindo depois a cabeça de todos os altos funcionários que lhes desagradavam. Em Constantinopla havia urgente necessidade de troca no trono. O subgovernador turco Koproli e os chefes religiosos muçulmanos depuseram então Maomé IV, substituindo-o por Solimão, seu irmão mais velho. Maomé IV resignou-se à sua sorte, enquanto Solimão II, muito apreensivo e vacilante, subiu ao trono em 9 de novembro de 1687.

Com a chegada dos amotinados a Constantinopla, a cidade esteve durante algum tempo exposta a todos os horrores praticados por uma sublevação soldadesca. Os rebeldes exigiam a cabeça de seus adversários; se lh’a entregavam, exigiam dinheiro; se este lhes era concedido, reclamavam postos e empregos. E foram aceitas todas as suas imposições.

Indignado com aquela situação, o agar chefe dos Janízaros apunhalou o principal promotor da rebeldia, mas foi feito em pedaços pelos amotinados. Quando o próprio Siawusch tentou restabelecer a paz, seu palácio foi cercado e assaltado, sendo ele morto pelos mesmos que o haviam escolhido.

Constantinopla esteve durante alguns dias na situação de cidade tomada de assalto. Em nenhum motim anterior de soldados ocorreram fatos tão escandalosos. Os habitantes da cidade começaram então a se levantar contra a sublevação. Intimidados, os sublevados perderam o ânimo. Mas, naquela fase, muitas províncias haviam seguido o exemplo da capital, Constantinopla, que entrou em caos.

 

 

 

Coroação de José I na Hungria

Os imperiais aproveitaram essas turbulências e avançaram rapidamente, conquistando a fortaleza do rebelde Tököly. Ao mesmo tempo, Tebas caiu em poder dos venezianos, e pouco depois Knin, na Croácia. Alba Regia foi recuperada no ano seguinte, após um século e meio de domínio turco. O Marquês Luís de Baden-Baden penetrou na Bósnia e derrotou o seu paxá em Derventa.

Carlos de Lorena se dirigiu à Transilvânia e fez anunciar ao príncipe Miguel Apaffy que esperava um recebimento amistoso, a libertação de seu país dos turcos. Havia alguns anos que se discutiam tratativas de paz com a Transilvânia. Apaffy permaneceria em seu posto e, se aceitasse, haveria liberdade religiosa, além de muitas outras concessões. Com a chegada do exército imperial às fronteiras, a decisão precisava ser tomada. Em 27 de outubro de 1687 ajustou-se em Blaj uma aliança entre o Imperador austríaco Leopoldo I e o príncipe Apaffy.

Em 31 de outubro realizou-se em Bratislava uma Dieta, convocada por Leopoldo I. Como resultado dessa assembleia, José, o primogênito do imperador, com apenas nove anos, recebeu o título de Rei da Hungria. Em 9 de dezembro de 1687, o Primaz húngaro Jorge Szelepcsényi, Arcebispo de Esztergom, teve aos 90 anos a felicidade de colocar a coroa de Santo Estêvão na cabeça do descendente dos imperadores. Esse fiel prelado, que havia prontamente ajudado o imperador nas duras despesas da guerra, aproveitou a ocasião para exortar o jovem rei com estas nobres palavras: “Vence sobre teus inimigos exteriores, vence sobre a meia-lua! Mas, dentro da pátria, sê rei, o altar ao qual todos os súditos se dirijam com confiança. A maior defesa e apoio do rei é ser amado. Crê-me, um rei nunca pode fiar-se em medidas que inspirem o temor. Não serás feliz, se não fizeres os outros felizes. Vive, portanto, ó rei, de forma a seres amado por Deus e também por teus povos”.

 

 

Hungria finalmente libertada

Em 6 de setembro de 1688 os cristãos, sob comando do príncipe da Baviera, conquistaram Belgrado, a última grande cidade húngara em poder do inimigo. Na batalha, 7.000 morreram e 1.300 foram aprisionados. O terror por tantas derrotas foi tão grande, que o sultão enviou mensageiros de paz. Para completar a vitória, Leopoldo I anunciou anistia geral para todos os que voltassem a obedecer ao rei. Tököly, líder dos húngaros aliados dos turcos, temendo uma deserção geral, tentou impedi-la com o terror: 15 nobres foram empalados, 10 enforcados e 96 foram decapitados. Em vão! Entre as tropas rebeldes, a deserção foi enorme. Dentro de 35 dias, 14 condes, 17 condados e 12 cidades livres reais juraram fidelidade ao rei.

Mais do que poder político, conquistar a Hungria era para os muçulmanos uma porta para a destruição da Cristandade. Belgrado não pôde gozar por muito tempo de sua liberdade. Pouco depois, a cidade foi novamente dominada pelos inimigos. Em futuro artigo será exposta a batalha definitiva.

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Notas:

Principal fonte consultada:Historia Universal, Juan Baptiste Weiss, Editora Tipografia La Educación, Tradução da 5° edição alemã, Barcelona, 1930, Vol. XI, p. 921 a 930.

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