Fevereiro de 2000
Nossa Senhora desterrada entre pagãos
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Leitura Espiritual

Nossa Senhora desterrada entre pagãos

“Frei Luís de Granada (1504-1588) é dos escritores que mais contribuíram para formar o caráter e o espírito cristão do povo espanhol. Escreve sempre para o povo, pondo a seu alcance, com uma clareza e precisão inigualáveis, as doutrinas mais excelsas do cristianismo. Ninguém, como ele, soube unir à elevação do pensamento e profundidade, bem como à  segurança de doutrina, a amenidade e transparência de estilo, acessível a todos. Nenhum livro foi tão lido e meditado na Espanha como os seus” (Obra Selecta, coletânea dos textos capitais de Frei Luís de Granada, B.A.C., Madrid, 1952, Prólogo). Dessa obra extraímos as considerações abaixo, referentes à fuga da Sagrada Família para o Egito (pp. 769-770).

Esta meditação é muito apropriada para a Festa litúrgica de Nossa Senhora do Desterro, a qual se refere aos anos em que a Sagrada Família permaneceu desterrada no Egito. Tal festividade comemora-se no dia 17 deste mês, na cidade e na Catedral de Florianopólis, cuja Padroeira é Nossa Senhora do Desterro.

*    *    *

A fuga para o Egito

“Até aqui, sacratíssima Virgem, tudo tem sido para Vós alegrias, tudo favores do Céu, tudo maravilhas das maravilhas. É tempo que comeceis a beber o cálice de vosso Filho, e de saber que coisas são os trabalhos deste mundo. Tempo há, diz o Sábio (Ecl. 3,5), de abraçar, e tempo de afastar-se dos abraços.

Viagem da Sagrada Família ao Egito: conjunto escultural, Catedral de Florianópolis
“Até aqui foi tempo de gozar dos abraços de vosso Filho; já é tempo que comeceis a beber do cálice que Ele bebeu. Não espereis, Senhora, outro fruto deste mundo. No vale de lágrimas em que estamos, no lugar de desterro, na terra de condenados junto aos rios de Babilônia onde estão emudecidos os instrumentos musicais de Sião e onde tão poucas vezes se ouvem cantares de alegria.

“Portanto, aprontai-vos, Virgem, para as lágrimas, pois o tempo e o lugar não vos convidam a outra coisa. Hoje se encerra vossa aleluia. Hoje se dá fim aos vossos prazeres, e se vos dá para comer a amaríssima fruta deste século.

“Consideremos, pois, com que pressa se levantaria a sacratíssima Virgem nesta hora [em que São José, alertado por um Anjo em sonhos, comunicou-lhe que era necessário fugir para o Egito], tomaria em seus braços o Menino, e deixaria sua pobre casa sem despedir-se de ninguém, porque a pressa do negócio não dava lugar a mais, e começaria a andar com grande pressa seu caminho. Porque, a que tão bem saberia estimar o tesouro que tinha, não faria caso de perder todas as coisas para assegurar tão grande bem.

“Oh noite escura! Oh noite tenebrosa! Oh noite de lágrimas e de dor! Oh, se desta maneira soubessem os homens estimar a Cristo, se soubessem pôr o valor que convinha neste tesouro, que quando corresse o risco de perdê-Lo ou de perder tudo o demais, soubessem perder para ganhar! E mesmo tivessem, com o Apóstolo, todas as perdas por lucros (Fil 3,8), quando elas conservassem este Bem! Porque, se a astuta serpente sabe pôr todo o corpo em perigo para assegurar a cabeça, na qual consiste sua vida, quanto mais deveríamos pôr a risco todo o demais para assegurar a Cristo, nossa cabeça, em Quem está nossa vida.

“Tornando, pois, a Vós, Virgem Santíssima, que tão grandes foram os trabalhos que passastes nesta jornada, abandonando vossa terra, vossa casa, vossos doces conhecidos parentes, e, caminhando para terras estranhas, bem como terras de idólatras e infiéis, com esse tão delicado Menino em vossos braços, onde não tínheis casa nem abrigo nem fazenda para servi-Lo.

“Se entre vossos naturais não achastes mais que estábulo e um presépio para o nascimento do Menino, que acharíeis entre infiéis, bárbaros e estranhos? Onde chegaríeis? Quem vos acolheria? Quem usaria convosco de caridade onde reinava a infidelidade?

“E sobretudo isto: que sentiria vosso piedoso coração morando em terra de infiéis, vendo ali tão desterrado e morto o conhecimento de Deus, e tão vivo o culto e serviço dos demônios?

“Se, do santo Lot se diz que morava entre aqueles que atormentavam a alma do justo com suas más obras (Gn 13,6), e se do Apóstolo São Paulo se lê (At 17,16) que se afligia seu espírito vendo a cidade de Atenas entregue ao culto dos ídolos, que sentiríeis Vós que, quanto maior graça tínheis, tanto mais sentíeis a desonra de Deus e a perda de tantas almas?

“E Vós, ó santíssimo Menino, por que tão rapidamente quereis começar a padecer trabalhos? Por que não quereis perdoar os ternos anos de idade?”

 

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