Murchou o cravo de abril
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Internacional

Murchou o cravo de abril

A derrota do Partido Socialista nas últimas eleições em Portugal revela uma apetência da opinião pública portuguesa pelos valores que estão sendo desprezados pela União Européia

Pedro Amarante

LISBOA, 23 de janeiro – A vitória de Aníbal Cavaco Silva nas eleições presidenciais rompeu a hegemonia da esquerda — de mais de 30 anos — na chefia do Estado em Portugal, conseqüência da Revolução dos cravos de abril de 1974.

Aníbal Cavaco Silva
Cavaco Silva, apoiado por uma coligação de centro-direita, venceu já no primeiro turno com mais de 50% dos votos, tornando-se o primeiro presidente do país eleito no 1° turno e desalojando a esquerda do Palácio de Belém.

Por certo a vitória de Cavaco Silva é do centro e da direita, e revelou o desencanto da população com as políticas da esquerda. Mas o resultado eleitoral carrega em seu bojo diversas outras conclusões.

A esquerda não parece suficientemente dinâmica para congregar em torno de um projeto arrebatador a opinião pública, nem sequer suas próprias hostes. Os candidatos de esquerda, de diversos matizes, declaravam como meta principal a derrota de Cavaco Silva ou, pelo menos, a realização de um segundo turno eleitoral. Nada disto alcançaram.

Mas a eleição evidenciou mais. Há anos os partidos socialistas em todo o mundo — sobretudo após a queda do Muro de Berlim — demonstram considerável desorientação tática. Obrigados a camuflar cada vez mais suas metas radicais, produzem em suas próprias fileiras incompreensões, divisões e rupturas. Foi o que se verificou com o Partido Socialista em Portugal.

Mesmo “camuflados, os socialistas são rechaçados

Mário Soares
O grupo “pragmático” do primeiro-ministro José Sócrates, que domina atualmente o Partido Socialista, decidiu indicar como candidato oficial o ex-presidente Mário Soares, ícone da agremiação e figura proeminente da política portuguesa. O grupo “dissidente”, mais abertamente perfilado com a ideologia de esquerda, apresentou o poeta Manuel Alegre, figura de destaque na Revolução dos Cravos. O Partido Socialista assim se dividiu, e seu candidato oficial Mário Soares acabou por obter apenas o 3° lugar, atrás de Manuel Alegre, com menos de 15% dos votos. Uma dupla derrota! Houve quem afirmasse que o Partido Socialista, como era até agora conhecido, acabou na eleição de 22 de janeiro.

É impossível negar que a votação vitoriosa de Cavaco Silva denota também os fortes temores que, de modo crescente, se fazem sentir na opinião pública face a projetos de lei que as esquerdas de todos os matizes tentam impor, como a despenalização do aborto e a legitimação do aberrante e malchamado “casamento” homossexual.



Expressiva frustração com União Européia

Manuel Alegre
A vitória de Cavaco Silva revela igualmente o crescente distanciamento do eleitorado em relação às máquinas partidárias e aos políticos profissionais, um fenômeno de alcance cada vez mais universal. Cavaco Silva, apesar de já ter sido primeiro-ministro, é sobretudo conhecido enquanto economista e professor catedrático, e boa parte de seu prestígio provém de estar distante do mundo dos políticos profissionais.

Era notório que a opinião pública buscava um candidato representando o fortalecimento e a estabilidade das instituições, e que sobretudo pudesse constituir uma esperança diante do panorama político e social sem futuro e sem horizontes que se vive no país após mais de 30 anos de governos esquerdistas.



O exército sublevado, nas ruas de Lisboa, durante a Revolução dos Cravos (1974)
A crescente frustração com o projeto político da União Européia, distante dos anseios profundos das populações e de suas reais aspirações, foi outro fator a justificar a grande votação no candidato do centro-direita. A derrota do projeto de Constituição européia, nos plebiscitos da França e da Holanda, cristalizou e cimentou tais descontentamentos em Portugal, e o eleitorado buscou uma salvaguarda para seus legítimos sentimentos de nacionalidade em Cavaco Silva, paradoxalmente o homem que introduziu o país na Comunidade Européia.

* * *

Em Portugal, no já distante abril de 1974, os aderentes da Revolução dos Cravos saíam às ruas com cravos vermelhos, símbolo do esquerdismo que se implantava pela força das armas. Em janeiro de 2006, o entorpecido cravo socialista murchou acentuadamente. Espera-se que nasçam lá flores e plantas melhores, capazes de reverdejar campos hoje meio desertos e abandonados.


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