A carrocinha
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Esplendores da Cristandade

 


Esplendores da Cristandade



A carrocinha

W. Gabriel da Silva

Na torre da velha igreja da paróquia o relógio marca as 10 horas de uma esplêndida manhã primaveril, no antigo condado do Perche, província histórica que só no século XVI foi incorporada ao Reino da França e desmembrada entre quatro departamentos em 1790.

Destronada pelo automóvel, ali em frente uma antiga carrocinha, pitoresca e bem conservada, transformou-se em floreira. E como as flores lhe vão bem!

Pode-se imaginar a carrocinha em outros tempos, a levar seus donos à Missa nessa mesma paróquia de Chassant: o chefe de família, sua esposa e as crianças. E o vigoroso cavalo percheron a trotar pelas estradinhas de terra, acostumado aos duros trabalhos do campo nessa região eminentemente rural.

A Missa de outrora, com a solenidade que lhe dava o antigo rito conhecido como de São Pio V, mas que na realidade remonta aos primórdios da Igreja, era o momento mais importante da semana, pondo em contacto as famílias e os amigos em trajes domingueiros. Além de ato eminentemente religioso, era pretexto para uma boa prosa, um convite, um galanteio, uma tratativa.

Em suma, a carrocinha carrega também outro tipo de flores — uma insuspeitada lembrança de outros tempos. No Brasil, diríamos “saudades”...

* * *

A carrocinha lembra o leiteiro, o padeiro, o oveiro, o feirante, o lavrador — personagens todos conhecidos do vilarejo. E que lhe davam vida. A era do automóvel e da televisão os matou. E agora todos se entregam ao tédio de uma diversão contínua e sem sabor, mas que lhes transmite a sensação enganosa de que possuem o mundo.

O homem moderno tem ao seu alcance um universo de conhecimentos, de máquinas, de técnicas que lhe dão a ilusão do poder. Seu antepassado, ao contrário, era lento, acompanhava o trote do cavalo ou o passo do burrinho. Esse ritmo natural lhe permitia ver uma cena e dela tirar um tesouro de observações. O homem de hoje vê um filme, deglute mil informações, mas não tem tempo para digeri-las, para pensar no seu conteúdo. Se se aplicasse, o homem antigo poderia tornar-se sábio. Se não tiver preguiça, o de hoje será um sabichão. Este conhecerá as coisas. Aquele, a vida.

* * *

Com um pouco de exagero didático, talvez se possa dizer que aí se encontra a diferença fundamental entre o homem típico do século XIX e o homem médio do século XX. Sobre o século XXI, que vai se alçando, paira uma interrogação angustiante.

Até agora, o que vimos? O uso dos conhecimentos acumulados para a destruição. Já as guerras do século XX foram espantosas. Mas atentados terroristas — como o de 11 de setembro de 2001 em Nova York, e o de 11 de março de 2003 em Madrid, ou os de quase todas as semanas em Bagdá — primam pela violência estúpida, brutal, contra inocentes, sem a menor sombra de humanidade.

Por quê? Certamente devido à maldade dos homens, que não encontra mais remédio na Religião católica. No tempo da carrocinha, o Deus verdadeiro ainda ocupava um lugar nos corações. Hoje o ateísmo e as falsas religiões dominam a cena, e os meios católicos estão infiltrados por todo tipo de absurdos morais e doutrinários.

A ciência, evidentemente, não é um mal em si. Ao contrário, é um bem. Mas, se o homem não faz acompanhar o progresso da ciência pelo progresso da moral, ela se transforma em arma poderosa nas mãos de loucos.

 


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