Fevereiro de 2015
Santa Brígida
Vidas de Santos

Santa Brígida

Padroeira da Irlanda, taumaturga, fundou vários mosteiros e foi favorecida com o dom dos milagres.

*       Plinio Maria Solimeo

Embora Santa Brígida tenha vivido no século V, existem sobre ela várias biografias. A mais antiga é a que Santo Ultan, bispo-abade de Ardbraccan, escreveu para seu discípulo São Brogan Cloen de Rostruirc, falecido no ano de 650.(1) São Donato, que viveu no século IX na Irlanda, refere-se também a outra biografia escrita por Santo Aileran (século VII). Temos assim a vida de Santa Brígida escrita por outros santos.

Como são imperscrutáveis os desígnios de Deus! Santa Brígida, que se tornaria padroeira da Irlanda, taumaturga, abadessa de milhares de religiosas e modelo de santidade, nasceu na escravidão e fora do sagrado vínculo matrimonial!

Filha de pai pagão, tornou-se religiosa

A futura santa nasceu pelo ano 451 na cidade de Gaughart, condado de Louth, que corresponde hoje à Irlanda. Seu pai, grande senhor, comprara uma escrava de muito boa aparência, da qual se enamorou, cometendo com ela adultério. Sua esposa conseguiu que ele a afastasse, apesar de alguns servos de Deus predizerem que a escrava daria à luz uma menina que seria grande aos olhos de Deus.

Como o pai de Brígida era pagão, deu à filha o nome da deusa pagã do fogo, uma das mais poderosas do seu culto.

Alguns dos biógrafos da santa afirmam que, tanto ela quanto a mãe, foram convertidas por São Patrício.

Quando Brígida entrou na adolescência, como era muito formosa, o pai trouxe-a para casa, a fim de casá-la com um dos muitos pretendentes. A filha, no entanto, queria consagrar-se inteiramente a Deus. Segundo seus biógrafos, dando-se ela conta de que era sua beleza que atraía os pretendentes, pediu a Deus que a tornasse feia, de modo a afastá-los. Uma súbita moléstia na face provocou-lhe então a cegueira de um olho, deixando-a tão disforme que ninguém mais quis saber dela. O pai consentiu então que ela entrasse num convento.

 

Funda o primeiro mosteiro na Irlanda

Estátua de São Conleth
Naquele tempo não havia ainda mosteiros na Irlanda, e as virgens consagradas viviam em suas próprias casas. Brígida recebeu o véu das mãos de São Maccaille, e fez sua profissão religiosa com São Mel, de Ardagh, que lhe conferiu poderes de abadessa para reunir virgens sob sua direção, como no continente. Foi quando, de acordo com o Martirológio Romano e seus primeiros biógrafos, Brígida, tocando o altar, que era de madeira seca, este floresceu. Acrescentam alguns que lhe voltaram então a vista e a formosura da face. Pois, segundo eles, Nosso Senhor não podia deixar de dar um tal presente à sua eleita no dia de suas núpcias.

Brígida retirou-se então com outras sete virgens para uma região isolada, onde erigiu um convento sob um grande carvalho.

Tornou-se logo muito conhecida e famosa pelo bom senso e, sobretudo, pela santidade. Já a consideravam santa em vida.

Por volta do ano 470, Brígida fundou o mosteiro duplo de Cill Dhara, atual Kildare, com freiras e monges, vivendo em prédios separados, sob a direção de São Conleth. Junto ao mosteiro ergueu-se aos poucos uma vila, que veio a ser a sede metropolitana da província.

O mosteiro tornou-se com o tempo um dos mais prestigiosos da Irlanda e famoso em toda a Europa cristã. Por indicação de Brígida, São Conleth foi eleito para a Sé episcopal de Kildare.

Afresco que ilustra um dos inúmeros milagres feitos por Santa Brígida
Superiora de todos os mosteiros da Irlanda

Segundo seus biógrafos, Santa Brígida escolheu São Conleth “para governar o convento de Kildare junto com ela” [...] “Desse modo, por séculos, Kildare foi regido por uma dupla linha de abades-bispos e abadessas. A Abadessa de Kildare era considerada Superiora Geral de todos os conventos da Irlanda”.(2)

No mosteiro masculino de Kildare Santa Brígida fundou uma escola de arte, presidida também por São Conleth. Entre outros trabalhos artísticos lá executados, estavam aqueles feitos em metal, sobretudo as iluminuras que tornaram o mosteiro famoso, pois os livros eram todos escritos à mão, não existindo ainda imprensa.

Consta que uma das obras-primas desse mosteiro-escola foi um maravilhoso livro dos Evangelhos, ricamente ilustrado com iluminuras, o que causou a admiração geral não só dos contemporâneos, mas dos séculos seguintes, até a pseudo-reforma protestante, quando desapareceu.

Segundo o escritor, historiador e eclesiástico do século XII, Giraldus Cambrensis, “nada do que ele tinha até então visto era comparável ao ‘Livro de Kildare’, cada página do qual era belamente ornada com iluminuras; ele conclui sua nota muito laudatória dizendo que o trabalho de encadernação e a harmonia das cores deixavam a impressão de que ‘todo esse trabalho era não de habilidade humana, mas angélica’”. Acrescenta “que o livro ia sendo feito noite após noite, enquanto Santa Brígida rezava, e ‘um anjo fornecia os modelos para o monge-artesão’”.(3)

Milagres operados com o Sinal da Cruz

Muitos milagres são atribuídos à padroeira da Irlanda. Seus seguidores afirmam que ela os fazia utilizando o Sinal da Cruz: expulsava os demônios, restituía a visão aos cegos e curava os leprosos.

Nesse sentido, narram as crônicas que dois leprosos se dirigiram a ela certo dia para pedir a cura. A santa fez o Sinal da Cruz numa vasilha com água, recomendando aos leprosos que um lavasse o rosto do outro com aquela água. O primeiro que foi lavado ficou tão contente com a cura, e com tanto medo de pegar novamente a lepra, que não quis tocar no segundo para lavá-lo, como lhe tinha sido recomendado pela Santa. No mesmo instante as úlceras voltaram, enquanto o outro era curado pela intercessão de Brígida.

Milagre duplo, prodígio feito e desfeito

Outro caso que maravilhou os contemporâneos foi o duplo milagre que ela operou em favor de uma virgem consagrada que era cega. A pedido desta, a santa fez o Sinal da Cruz sobre seus olhos, e a virgem começou a enxergar. Mas depois, iluminada interiormente, considerou que tudo o que via neste mundo era perecedouro e caduco; ademais, que muita coisa poderia ser empecilho para o progresso de sua alma. Pediu então a Brígida que lhe restituísse a cegueira. O que a santa fez do mesmo modo como lhe tinha restituído a vista.(4)

Catedral de Santa Brígida
Morte e glorificação da padroeira da Irlanda

Segundo a opinião mais provável, Santa Brígida faleceu no dia 1º. de fevereiro de 523 em seu mosteiro de Kildare, e foi enterrada na igreja de sua abadia. Consta que, para honrar sua memória, as religiosas do mosteiro instituíram um fogo sagrado perpétuo, que passou a ser chamado de “Fogo de Santa Brígida”.(5)

Seus restos mortais foram depois transportados para Downpatrick, a fim de se juntarem aos dos outros dois padroeiros da Irlanda, São Patrício e São Columba. Entretanto, segundo Mons. Paul Guérin, eles foram depois transferidos para a catedral dessa mesma cidade. Aconteceu então que, depois da apostasia da Inglaterra, por ordem de Henrique VIII, a igreja que conservava os restos mortais da santa foi destruída, e suas cinzas lançadas ao vento.

Da profanação salvou-se entretanto o crânio de Brígida, que se encontrava em Neustadt, na Áustria. Conservado na capela do palácio imperial austríaco até 1587, Rodolfo II presenteou-o ao embaixador da Espanha, João de Borgia. Este o doou à igreja de São João Batista, dos jesuítas, em Lisboa, onde é atualmente venerado.(6)

A devoção a Santa Brígida é muito grande em seu país de origem, tendo-se espalhado por outras nações da Europa e do mundo com a imigração irlandesa. Sua festa se comemora no dia 1o de fevereiro.

Santa Brígida é chamada pelos irlandeses a “Rainha do Sul”, ou “Maria de Gael”, nome cujo significado desconhecemos.(7)

Algumas vezes ela é também chamada de “Santa Brígida da Escócia”, como o fez, no século XVI, Pedro de Ribadeneira, discípulo de Santo Inácio de Loyola. Isso se explica, segundo os “Pequenos Bolandistas”, pelo fato de que os Escotos, que deram nome à parte setentrional da Grã- Bretanha, habitavam no século V a região que veio a ser a Irlanda, que era chamada indiferentemente de Escócia ou Hibérnia.(8)

E-mail para o autor: catolicismo@terra.com.br

_________

Notas:

1. Cfr. W.H. Grattan-Flood, The Catholic Encyclopedia, CD Roon edition,Saint Ultan of Ardbraccan.

2. W.H. Grattan-Flood, St. Brigid of Ireland, The Catholic Encyclopedia, CD Roo edition.

3. Id., Ib.

4. Cfr. Pedro de Ribadeneira, Santa Brigida de Escócia, in Flos Sanctorum, apud Dr. Eduardo Maria Vilarrasa, La Leyenda de Oro, L. González y Compañia – Editores, Barcelona, 1896, 1º. Tomo, p. 350.

5. Cfr. Mgr. Paul Guérin, Sainte Brigitte, surnommée La thaumaturge, Les Petits Bollandistes, Vies des Saints,            ‘Bloud ET Barral, Libraires-Éditeurs, Paris, 1882, tomo 2., p.186.

6. Id., Ib. p. 186.

7. Cfr. W.H. Grattan-Flood, St. Brigid of Ireland, op. cit.

8. Mgr. Paul Guérin, op. cit. p. 185, nota 1.