Abril de 2013
A palavra do Sacerdote
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A Palavra do Sacerdote

 

Monsenhor JOSÉ LUIZ VILLAC

Pergunta — Nas palavras de Nosso Senhor a São Pedro, de que “as portas do inferno não prevalecerão contra ela [a Igreja]”, o que significa precisamente a expressão “portas do inferno”?

 Resposta Entre os orientais, era junto às portas das cidades ou dos palácios reais que se realizavam as sessões de justiça e outros atos oficiais, como a recepção de embaixadores, por exemplo. As portas de uma cidade — muitas vezes fortificadas e monumentais — constituíam, desse modo, o símbolo do poder real ou da autoridade do país. Assim, “portas do inferno” significam as potências do mal, o próprio reino do mal em luta contra o reino do bem.

Há, pois, dois reinos em luta. E ao dizer que “as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja”, Jesus Cristo anuncia a vitória final da Igreja contra as forças do mal.

Essa promessa de Nosso Senhor é da maior importância porque nos alerta sobre duas coisas: em primeiro lugar indica que o reino do mal está a todo momento tentando prevalecer contra a obra de Deus; em segundo lugar nos assegura que, por mais fortes e insidiosos que sejam os ataques e perseguições dos maus contra os bons, a vitória final caberá a estes últimos, congregados na Santa Igreja de Deus.

Cabe lembrar o contexto em que são ditas essas palavras: depois que Simão reconhece e proclama que Jesus é “o Cristo [o Messias], o Filho de Deus vivo” (Mt 16, 16), Nosso Senhor lhe diz: “E eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16, 18). Na língua que os judeus então falavam, não há diferença de gênero entre o nome próprio Pedro e o nome comum pedra (cephas). Assim, a partir desse momento, Simão passa a chamar-se Simão Pedro, ou simplesmente Pedro.

O reino infernal não pode vencer a Igreja porque ela está firme e estavelmente construída sobre a rocha, que é Pedro.

Verdade mais que oportuna nestes dias, depois dos momentos de perplexidade que se seguiram à renúncia de Bento XVI e a um conclave repetidamente anunciado, inclusive por vozes autorizadas, como portador de surpresas, o que efetivamente ocorreu. Um novo Papa, cujo nome — Francisco — constituiu a primeira surpresa, assume o comando da Barca de Pedro, a qual continuará batida pelas ondas do mar tempestuoso. Embora Jesus Cristo pareça dormir, Ele permanece atento para que a nave não soçobre. E por isso estamos certos de que “as portas do inferno não prevalecerão contra ela”.

 Apostasia silenciosa

As palavras de Jesus “não prevalecerão” indicam claramente que as portas do inferno não se limitam a investidas esporádicas, mas exercem constantes tentativas de prevalecer contra a Igreja. Cabe, pois, perguntar quais são os ataques que elas desfecham contra a Igreja em nossos dias, e que de modo particular o novo Papa terá de enfrentar. Nessa luta, o Papa Francisco — ao qual desde já manifestamos nossa reverência e obediência filiais, em toda a medida preceituada pelo Código de Direito Canônico — não pode e não deve estar sozinho. A cada um de nós, sacerdotes ou leigos, cabe uma parcela de responsabilidade, na medida de nossa capacidade e situação pessoal. Portanto, uma análise das manobras hodiernas das portas do inferno é útil e necessária para todos.

Ora, basta ter um mínimo de discernimento para ver que se desenrola diante de nossos olhos um distanciamento progressivo e contínuo de um número cada vez maior de fiéis da praxis católica, distanciamento esse que no Sínodo dos Bispos de 2012 foi muito apropriadamente denominado de “apostasia silenciosa” (cfr. XIII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, Instrumentum laboris, 19 de junho de 2012, n° 69).

Entenda-se bem que um distanciamento da praxis católica não implica apenas o abandono da missa dominical e da frequência aos sacramentos, mas dos próprios princípios da moral católica, muito particularmente no que se refere à constituição e à vida da família. A vida conjugal plena é atualmente antecipada já para o período denominado de namoro, como se este conferisse desde logo todos os direitos de um matrimônio legitimamente realizado perante a Igreja (um sacramento, portanto). De onde resulta que a contracepção — pecaminosa também dentro do casamento — é praticada desde os primeiros relacionamentos dos “namorados” ou “noivos”, com as suas quase imperiosas sequelas, como a promiscuidade dos “casais”, eventuais abortos, etc. O que, aliás, não impede que tudo isso coexista — muito incoerentemente — com uma prática religiosa mínima, como promessas feitas a Nossa Senhora, rigorosamente cumpridas no Santuário Nacional de Aparecida...

 A vida pública nas mãos dos inimigos da Igreja

Essa falta de sensibilidade para os princípios da moral católica na vida privada tem como consequência forçosa o desinteresse pela observância dos princípios da moral na vida pública. Em outras palavras, se os Mandamentos da Lei de Deus referentes à moral conjugal e à vida familiar são desprezados, a fortiori os Mandamentos que se referem à vida pública ou social vão sendo também desconsiderados. É o que explica um fenômeno que os cientistas sociais têm apontado: sendo a opinião pública brasileira majoritariamente conservadora no que se refere à organização social, política e econômica, nosso país está, não obstante, nas mãos das forças políticas de esquerda. De onde resulta que, embora a

Os fiéis elevam preces a Deus para que o novo Papa enfrente as portas do inferno com a força e a coragem com que São francisco expulsou os demônios de Arezzo (Afresco de Giotto, 1297-1299, Basílica Superior,Assis,Itália)

maioria da população seja pessoalmente favorável ao direito de propriedade e à livre iniciativa, os partidos e as pessoas que estão no poder são estatizantes, e oneram com tributos excessivos e crescentes os indivíduos e as empresas particulares. A tal ponto que, no espectro político brasileiro, não há nenhum partido autenticamente de direita, como seria um partido defensor da constituição cristã da família, das desigualdades legítimas e proporcionadas, da propriedade particular, da tradição, e com uma posição anticomunista e antinazista. A oposição ao governo de esquerda é exercida por partido... na realidade, de esquerda!

É uma consequência inevitável de quão pouco clara a população, majoritariamente conservadora, tem a noção de que os Mandamentos da Lei de Deus consagram também, além dos princípios da moral individual, os princípios da moral social. Esse desconhecimento levou grande parte dos católicos ao alheamento quase completo em relação aos deveres que lhe incumbem no campo da vida social, política e econômica. De onde pode acontecer que algum leitor desavisado de nossa revista esteja se perguntando qual o sentido de considerações deste tipo numa página de esclarecimento sobre pontos de doutrina e da Moral católica!

Para dar uma resposta rápida, bastaria lembrar a famosa encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII — seguida de várias outras dos Papas posteriores — por onde se vê que tais assuntos fazem parte da doutrina que um católico deve conhecer e praticar tanto em sua vida privada como pública.

 Os problemas internos da Igreja

Mas a explanação do tema não estaria completa se não lembrássemos que as “portas do inferno” não se limitam a fazer investidas de fora para dentro da Igreja. Elas conseguiram se infiltrar insidiosamente dentro da Igreja, difundindo heresias, provocando cismas, fomentando discórdias. Assim dividida internamente, a luta contra os inimigos externos fica mais difícil.

Sobre isto, a revista Catolicismo tem alertado e esclarecido continuamente os leitores, pelo que podemos nos dispensar de tratar aqui do tema. Ademais, foi ele exposto sinteticamente na Reverente e Filial Mensagem ao Papa ainda não conhecido, promovida via internet pelo Instituto Plinio Corrêa de Oliveira e entidades afins existentes ao redor do mundo, antes do Conclave que elegeu o Papa Francisco.

Ao novo Papa caberá lidar com esse aspecto da maior importância na investida das “portas do inferno” contra a Igreja. Acompanhamos com respeitosa atenção os primeiros atos com que Sua Santidade vai delineando os rumos do seu Pontificado. Sejam quais forem esses rumos, sabemos apenas que, de acordo com a promessa de Nosso Senhor Jesus Cristo a Simão Pedro, “as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja”. Promessa essa que Nossa Senhora reiterou em Fátima, quando disse:

— Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará!

Nessa expectativa pedimos à Santíssima Virgem que, se tais forem os desígnios de Deus, nos obtenha a graça de ver, ainda em nossos dias — depois dos castigos também anunciados em Fátima — o triunfo do seu Imaculado Coração! Assim seja.

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