Abril de 2013
Santo Estêvão Harding, Confessor
Comente
Leia os comentários
Envie para amigos
Versao para impressão
Vidas de Santos

Santo Estêvão Harding, Confessor

 Co-fundador e alma da Ordem religiosa de Cister, na qual São Bernardo de Claraval ingressou, dando a ela grande incremento

 Plinio Maria Solimeo

 
Certo dia sete anacoretas que viviam na floresta de Collan, na França, procuraram Roberto, abade do mosteiro de São Miguel de Tonerre, pedindo-lhe que se tornasse seu superior. Mas os monges desse mosteiro, embora não dessem grande apoio ao abade nas reformas que ele queria empreender, impediram-no de sair.

Os anacoretas apelaram então ao Papa São Gregório VII, obtendo o que desejavam. Em 1075, no mosteiro de Molesmes, no vale de Langres — do qual Roberto se tornara abade —, os monges seguiam a antiga disciplina monástica: viviam em extrema pobreza, executavam trabalhos manuais e dedicavam a maior parte do tempo à oração.

Inglês de nascimento, Estêvão Harding nasceu em meados do século XI em Dorset, tendo sido educado primeiro no mosteiro de Sherborne e depois em Paris e Roma. Certo dia, ao passar pela França de volta para casa, ouviu falar do mosteiro de Molesmes, recém-fundado e em seu primitivo fervor. Nele decidiu ingressar.

Edificado com a vida dos monges, o povo da redondeza se pôs a fazer tantas doações a Molesmes, que sua abundância esfriou infelizmente o espírito inicial da instituição, que começou a decair.

Após várias tentativas frustras de reviver o antigo fervor do mosteiro, o abade São Roberto se retirou com Santo Alberico, Santo Estêvão e mais 18 religiosos desejosos de reforma. Foram para um lugar deserto da diocese de Châlons-sur-Saône — hoje diocese de Dijon —, habitado somente por bestas selvagens, onde deram início a uma nova vida. Assim começou Cister.

         Um ano depois São Roberto foi chamado de volta a Molesmes. Na mesma ocasião faleceu Santo Alberico, que havia ficado como superior de Cister. Santo Estêvão teve então de arcar com todo o ônus da fundação, tornando-se a alma de Cister.

 “Que magnífica empresa de santidade!”

A sábia direção de Santo Estêvão deu tanto lustro a Cister, que um historiador contemporâneo, Guilherme de Malmesbury, não duvidou em escreveu: “A religião [a Ordem religiosa]de Cister apareceu de repente como o caminho mais excelente para se chegar ao Céu. Que magnífica empresa de santidade! Que esplêndida reforma realizada por estes heróis do deserto! Os séculos bendirão eternamente a memória destes cavaleiros de Cristo, que venceram a natureza. Dormem sobre uma tábua nua, vestidos e cingidos. Levantam-se à meia-noite para Matinas, e já não voltam ao dormitório. O trabalho, a oração e a salmódia enchem seu dia. O abade cumpre a Regra como os demais. Desde setembro até a Páscoa só tomam alimento uma vez por dia. Não saem do mosteiro senão para ir ao trabalho no campo. Nunca rompem o silêncio. É angélica sua ternura com os pobres e os peregrinos e, para dizer em uma só palavra, eles são o grande espetáculo que oferece nosso tempo como modelo para os fervorosos, e aguilhão para os tíbios”.(1)

         Como na época os livros eram ainda escritos à mão, continham muitas incorreções por defeito dos copistas. Homem de letras, Santo Estêvão ordenou a revisão dos livros litúrgicos usados em Cister, e mesmo da Bíblia. Para sanar as incorreções, consultou numerosos manuscritos e pediu explicações a alguns judeus sobre o texto em hebraico. Com isso pôde pôr à disposição de seus monges novas edições desses livros, nos quais primavam a simplicidade e a clareza.

Santo Estêvão queria também, por um espírito de pobreza elevado ao auge, que o estudo dos monges se restringisse aos conhecimentos necessários ao sacerdócio e à leitura espiritual. Não podiam ler os clássicos, nem os jurisconsultos, nem estudar línguas, nem mesmo o grego e o hebraico.

         Sua igreja era simples e sem nenhum ornato, interditada a estranhos e reservada exclusivamente para uso dos monges. Suas janelas não tinham vitrais coloridos, mas vidros brancos. O altar e as imagens eram bastante simples. As granjas do mosteiro ficavam a cargo de um monge-mordomo e dos irmãos leigos — os “barbados” — monges obreiros aos quais Cister deve muito de sua prosperidade material. Seu ofício se reduzia ao trabalho, executado por obediência e amor. E assim se desenvolveu e prosperou Cister.

         É claro que se tratava de uma vocação especial, mas digna de ser admirada mesmo pelos que não eram chamados a ela.

         “Dá-me espaço para que eu habite”

         Porém, neste vale de lágrimas tudo se dessora, até mesmo a admiração pelas boas obras. Por isso, às aclamações entusiásticas seguiu-se com o tempo a frieza. Começaram depois as murmurações. Passou-se destas à calúnia. Pelos anos 1111 e 1112, os religiosos mais antigos de Cister foram morrendo, não havendo quem os substituísse.

         Santo Estêvão estava perplexo. Queria manter a todo custo a antiga observância, apesar de seus rigores. Como último recurso, apelou para o sobrenatural: ordenou a um religioso que estava na agonia, em nome da santa obediência, que voltasse depois da morte para dizer se o rigor da vida que os monges levavam em Cister era ou não agradável a Deus.

Brilhante de luz, o religioso apareceu-lhe certo dia, dizendo que não só o gênero de vida que levavam agradava muito a Deus, mas que em breve viriam tantos candidatos que Santo Estêvão poderia bem repetir as palavras de Isaias: “É apertado para mim este lugar; dá-me espaço para que eu habite” (49, 20).(2)

São Bernardo e a fundação de Claraval

         Foi o que aconteceu no ano 1113, quando com 30 companheiros chegou um jovem cheio de vida e fervor que iria assegurar a Cister um papel predominante durante os séculos vindouros: “Era São Bernardo. A palavra deste noviço revela-se logo tão forte como um furacão a fim de arrastar as almas para o claustro, despertar, excitar e esporear os espíritos e criar neles ânsias de sacrifício e de penitência. Os postulantes afluem dos palácios, das universidades nascentes, dos campos, dos castelos feudais. Os bispos deixam suas Sés para trabalhar nos hortos cistercienses. A bênção desceu sobre o deserto para fazê-lo germinar e florescer”.(3)

         Agora Santo Estêvão podia pensar em novas fundações. Começaram então a florescer mosteiros cistercienses em outras partes da França, na Alemanha e na Inglaterra. Até a morte do santo, 13 desses mosteiros tinham se originado de Cister.

Em 1115 o abade enviou São Bernardo e um grupo de monges para fundar novo mosteiro num local chamado “Claire Valée” (Vale Claro). Este se tornou o famoso mosteiro de Claraval, intimamente ligado ao nome do grande santo.

Santo Estêvão era um organizador excepcional. Instituiu o sistema de capítulos gerais e de visitações regulares aos mosteiros dependentes de Cister. Os abades de La Ferté, Pontigny, Claraval e Morimond, chamados os primeiros quatro Padres da Ordem, tinham o direito de fazer a visitação às outras casas de Cister.

Rodeado de numerosos abades dos vários mosteiros fundados a partir de Cister e com vistas a assegurar a uniformidade de suas fundações, Santo Estêvão promulgou em 1119 a famosa Carta da Caridade — ou coleção de estatutos — para o governo de todos esses mosteiros. Tais estatutos foram aprovados pelo Papa Calixto II nesse mesmo ano.(4) Redigiu também um apanhado das cerimônias e costumes de Cister, a ser seguido por todos os mosteiros da Ordem.

         Com o tempo, “o abade de Cister tornou-se ipso facto o primeiro conselheiro (primus consiliarius natus) do Parlamento da Borgonha, com direito a ser chamado para a assembleia dos Estados Gerais do reino e para a dos estados da província da Borgonha. Nos concílios ele se sentava imediatamente depois dos bispos, recebendo as mesmas honras e prerrogativas”.(5) 

“Esperai-me fora, pensamentos estranhos”

         Zeloso da pobreza e do recolhimento monástico, Santo Estêvão proibiu os Duques de Borgonha, seus grandes benfeitores, e mesmo quaisquer príncipes, de estabelecer sua corte em Cister, como estavam habituados a fazer em outros mosteiros, principalmente nos dias de grande festa.

Ressentido pela proibição, o Duque cortou os abundantes donativos que dava ao mosteiro, que deveu então recorrer às esmolas. A condição de abade não impedia Santo Estêvão de também sair, com um cesto aos ombros, ao encalço delas. Mas só recebia o que era próprio para os monges. E repreendeu severamente um deles por ter recebido esmola de um padre simoníaco, isto é, que cobrava pelos seus ofícios eclesiásticos.

Os milagres vinham às vezes em socorro dessa bendita pobreza. Conta-se que uma vez, no dia de Pentecostes, nada tendo para comer, os monges foram cantar o Ofício Divino como se tudo estivesse normal. Quando terminou a Missa, chegaram alimentos de diversas partes, não só para esse dia, mas também para os seguintes.

Em outra ocasião estavam os monges prestes a morrer de fome e de frio. Santo Estêvão mandou então um deles contratar no mercado de Vézelay três carroças puxadas por fortes cavalos, e de as carregar com os tecidos e com a farinha que necessitavam para o mosteiro. Espantado, o monge lhe perguntou como pagar, pois não tinham dinheiro. O abade lhe disse: “Toma estas três moedas, que é tudo o que temos. E esteja persuadido de que Jesus Cristo proverá o resto com sua misericórdia, e enviará seu anjo adiante de ti, para preparar os teus caminhos”. O irmão partiu e, encontrando-se no caminho com um amigo do mosteiro, contou-lhe sua perplexidade. Este o conduziu imediatamente a um rico vizinho que, preparando-se para morrer, queria fazer grandes esmolas em sufrágio de sua alma. E deu ao monge tudo o que ele necessitava.(6)

Todas as vezes que entrava na igreja para o ofício divino, Santo Estêvão parava à porta e dizia a seus pensamentos: “Esperai-me aqui, pensamentos estranhos, afeições terrestres: mas tu, minha alma, entra só e põe-te na alegria de teu Deus”. Ele legou essa prática a São Bernardo.

 “Vou a Deus com temor e tremor”

Sentindo-se muito idoso para continuar na direção de Cister e dos mosteiros a ele filiados, Santo Estêvão se demitiu do cargo de superior no capítulo geral de 1133. Designou para sucessor Roberto de Monte, que foi então eleito pelos monges. Mas a escolha de Santo Estêvão não foi feliz, pois o novo abade permaneceu apenas dois anos no cargo.

No dia 28 de março de 1134 era chegada a hora da morte do grande batalhador e fundador. Estavam presentes em Cister 20 abades da Ordem, vindos para receber suas últimas recomendações. Disse-lhes Santo Estêvão: “Asseguro-vos que vou a Deus com o mesmo temor e tremor que eu teria se não tivesse feito nenhum bem; porque se algum fruto a divina Bondade produziu de minha fraqueza, temo não ter correspondido à graça como devia”.(7) Sua festividade é celebrada no dia 17 de abril.

Os monges de Santo Estêvão Harding e de São Bernardo dominaram seu século: “Pregam as cruzadas, lutam contra a heresia, negociam entre o Papado e o Império, anunciam o Evangelho nos países eslavos, evangelizam as terras virgens, criam uma rica literatura ascética, governam as dioceses e, com Eugênio III, sobem até a Cátedra de São Pedro”.(8)

 

 ______________

Notas:

1. Justo Perez de Urbel, O.S.B., San Esteban de Harding, Año Cristiano, Ediciones Fax, Madri, 1945, tomo II, p.153.

2. Cfr. Les Petits Bollandistes, Saint Etienne, Vies des Saints, Bloud et Barral, Paris, 1882, tomo IV, pp. 454-454.

3. Urbel, op. cit. p. 154.

4. Cfr. G. Roger Huddleston, St. Stephen of Harding, The Catholic Encyclopedia, CD Rom edition.

5. F.M. Gildas, Abbey of Citeaux, The Catholic Encyclopedia, CD Rom edition.

6. Les Petits Bollandistes, op. cit. pp. 454-455.

7. Les Petits Bollandistes, op. cit. p. 455.

8. Urbel, op. cit. p. 157.

Comente
Leia os comentários
Envie para amigos
Versao para impressão