Abril de 2013
Um país "talhado à espada"
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Episódios Históricos

Um país “talhado à espada”

 Na edição de novembro passado, consideramos nesta seção os antecedentes do nascimento da nação portuguesa. Exporemos agora a consolidação do Reino com a providencial missão de D. Afonso Henriques.

  Guilherme Félix de Sousa Martins

D. Afonso Henriques no Campo de Ourique

 As façanhas dos heróis do passado foram por muito tempo motivo de orgulho para os portugueses. O positivismo, porém, veio pôr em xeque as convicções de um povo, procurando abalar, no dizer de João Ameal, “as fundas razões da nossa jornada de povo crente e guerreiro”. Para a concepção positivista, a obra de apostolado é convertida em obra de cobiça e de rapina. As figuras dos reis foram amesquinhadas com rancorosa sanha. “A vida duma Nação que deveria explicar-se à luz dos Evangelhos, dos Roteiros e das Crônicas — foi descrita à luz da Declaração dos Direitos do Homem e da teoria do materialismo histórico”.(1)

A batalha de Ourique, cuja importância para o nascimento de Portugal é inegável, ainda hoje é alvo de disputas. É verdade que os detalhes se perderam nas brumas do passado; mas os efeitos da batalha não fizeram senão confirmar o plano da Providência Divina: formou-se um povo soberano, marcado a fundo em sua personalidade pela fé verdadeira, povo que tomou a peito o ideal da propagação dessa mesma fé até os confins da Terra. E Nossa Senhora, aparecendo em solo português nos albores do século XX, ao profetizar os castigos, afirmou, entretanto, que “em Portugal se conservaria sempre o dogma da Fé”.(2)

 

Batalha de Ourique

Comandando seus homens nos campos de Ourique — situados quer no Baixo Alentejo, quer no Cartaxo, cerca de Santarém, quer junto às nascentes do Liz, próximo a Leiria, a discussão é grande a tal respeito (3) — e certo da vitória, garantida por Nosso Senhor(4), D. Afonso Henriques dá batalha à multidão de mouros que cercavam seu exército. Não fosse a promessa recebida, teria sido temerária a empresa: as narrativas falam na proporção de cem muçulmanos para cada cristão. Tal era o desejo de vingança do rei Ismar, o maior entre os cinco reis mouros reunidos e o comandante supremo das tropas muçulmanas, que, para engrossá-las, chegara a incluir mulheres disfarçadas na cavalaria, fato que depois foi constatado.

Estátua de D. Afonso Henriques no castelo de Guimarães

Estimulados pela bravura demonstrada desde o início por D. Afonso, os portugueses avançam invocando São Tiago, e com o brado “Real, real! Por Afonso, Rei de Portugal!”, selam assim, como o próprio Cristo afirmara a D. Afonso, sua escolha como rei. Os feitos de valentia multiplicam-se de ambos os lados e figuras de destaque dos dois exércitos tombam por terra. Estando já avançada a tarde, D. Afonso divisa o coração do inimigo:

“El Rei D. Afonso entendendo como a principal força dos contrários consistia em hum esquadrão muy forte, que servia de guarda a el Rey Ismário, em o qual vinha por Capitão hum seu sobrinho por nome Homar Atagor, homem de incredíveis forças, se resolveu em rematar contas, e juntos a si os mais fortes de seu campo o investiu com tanto valor, e bom sucesso, que mortos os principais delle com seu Capitão, se começou a desordenar o exército dos Árabes. Vendo el Rey Ismário o perigo que corria sua vida, sem poder remediar a ruína de seu Campo, se pôs em fugida”.(5)

Vencida a batalha, D. Afonso Henriques permanece ainda durante três dias com sua gente naquele campo, seguindo o costume da Cavalaria medieval, para certificar-se da desistência do inimigo. E a fim de cumprir a ordem de Cristo crucificado: “Para que teus descendentes conheçam quem lhes dá o reino, comporás o escudo de tuas armas do preço com que eu remi o gênero humano, e daquele por que fui comprado dos judeus”(6), manda em seguida que se desenhe no seu brasão de armas cinco escudos — recordando as cinco chagas de Nosso Senhor — cada qual com cinco moedas, simbolizando os trinta dinheiros pelos quais fora vendido o Salvador aos seus algozes.

Camões assim imortaliza a vitória em Os Lusíadas:

Já fica vencedor o Lusitano,

Recolhendo os troféus e presa rica;

Desbaratado e roto o Mauro Hispano,

Três dias o grão Rei no campo fica.

Aqui pinta no branco escudo ufano,

Que agora esta vitória certifica,

Cinco escudos azuis esclarecidos,

Em sinal destes cinco Reis vencidos.(7)

 

“El Rei” D. Afonso

Bula Manifestis probatum, do Papa Alexandre III, reconhecendo finalmente o título de Rei a D. Afonso

D. Afonso sai vitorioso, e aclamado por seu povo como rei. Entretanto, muito tempo ainda transcorrerá até que os outros povos o reconheçam. Desde logo, D. Afonso dirige-se ao Papa para prestar-lhe vassalagem, com a carta Clavis regni coelestis(13-12-1143).(8) Na carta Devotionem tuam, de 1º-5-1144, o Papa Lúcio II agradece efusivamente a D. Afonso, cujos propósitos louva, mas chama-lhe, em vez de rex, apenas dux (não rei, mas duque). É só mais tarde, em 1179, que recebe a bula Manifestis probatum, do Papa Alexandre III, reconhecendo-lhe finalmente o título de Rei (AMEAL, pp. 69-71).

 

Novas lutas, novas vitórias

Mas o mouro não descansa. Quer manter a todo custo seus domínios na Península Ibérica, e convoca para isso contínuos reforços do norte da África. D. Afonso responde à altura, como um gigante infatigável e onipresente.

A promessa de Nosso Senhor cumpre-se a cada novo empreendimento. Em março de 1147, o Rei ataca o castelo de Santarém em poder dos infiéis. Mortas as sentinelas, vencidas as resistências, abre-se a maciça porta de ferro aos cavaleiros portugueses. E há um momento de profunda beleza: no meio da torrente que se precipita para o interior do castelo, aureolado pelo clarão puro do sol nascente, D. Afonso reza de joelhos, dando graças a Deus, que lhe protegeu a empresa.

Nesse mesmo ano de 1147, com a ajuda decisiva de uma grande frota de cruzados alemães, franceses, ingleses e flamengos de retorno da Terra Santa, efetua-se, de julho a outubro, a laboriosa conquista de Lisboa. Assédio longo e sangrento, com alternativas inúmeras, terrenos disputados palmo a palmo, mortíferos engenhos bélicos. Sintra, Almada e Palmela, ante a queda de Lisboa, entregam-se. Anos depois, em 1158, cai Alcácer do Sal, praça que defende uma importante zona entre os rios Sado e Tejo. Em 1159, Évora, logo perdida; Beja, perdida também e, em 1162, retomada. “Portugal alarga-se, talhado à espada sobre a decomposição do velho império almorávida. O prestígio de D. Afonso cresce, impõe-se, quer na península, quer além dela”.(9)

 

O legado de D. Afonso

D. Afonso Henriques deixa um reino firmado e definido. A sua espada o traçou em riscos de sangue. Mas se o reino é um fato político, as intérminas guerras, saques e devastações miseravelmente o descarnaram.

O Fundador mal tem tempo ou sossego para outros empreendimentos que não sejam os das armas. Ainda tenta, com a doação de largos domínios ao sul do rio Douro à Ordem Cisterciense — instalada, desde 1153, no Mosteiro de Alcobaça — promover a sua colonização e valorização sob o incomparável influxo dos monges de São Bernardo.

Mosteiro de Alcobaça, doado por D. Afonso Henriques à ordem Cisterciense

“Talhado à espada”, pode-se dizer que Portugal está em carne viva, exaurido por mil feridas, enfraquecido nas suas energias vitais.

Assim o recebe Dom Sancho, filho e sucessor de D. Afonso, com a morte deste em 1185, após meio século de grandes esforços, de vitórias consecutivas, de atividade incrível. E logo, cônscio do papel da realeza, se entrega à diligente enfermagem do corpo exangue que lhe é confiado. A sua atividade exerce-se na restauração de fortalezas em ruínas, no repovoamento de lugares devastados pela guerra, no estímulo a todos os aglomerados que mostrem tendências de estabilidade e desenvolvimento, nas numerosas doações feitas às Ordens Militares. Os trabalhos agrícolas são igualmente auxiliados com medidas propícias, para que o solo português acuda às necessidades dos seus habitantes.

E então o solo, regado por anos pelo sangue dos primeiros heróis, vai começar a produzir as novas gerações de heróis e missionários que herdarão o dever de “publicar o nome do Salvador pelas terras mais estranhas”.

__________

Notas:

1. AMEAL, João. História de Portugal. Porto: Tavares Martins, 1940, p.XIII.

2. WALSH, William Thomas. Nuestra Señora de Fátima. Madrid: Espasa-Calpe, 1960, p. 111

3. AMEAL, op. cit., p.66

4. Vide artigo anterior, janeiro/2013.

5. BRANDÃO, Antônio [et al.]. Terceira Parte da Monarchia Lusitana. Lisboa, 1632. p. 120. Mantivemos a grafia original. Disponível em: http://books.google.com.br/books?id=xDsUNklTpPoC&pg=RA1-PA258-IA4&dq=cronica+de+dom+afonso+henriques.

6. Idem, p. 127.

7. Os Lusíadas, canto III, estância 53. Disponível em http://www.historia.com.pt/lusiadas/ourique.htm.

8. Oito séculos mais tarde, esse ato de vassalagem será lembrado por Pio XII na Encíclica Sæculo Exeunte Octavo, de 13 de junho de 1940. 1. O VIII centenário da fundação de Portugal e o III de sua restauração, que a vossa gloriosa e nobre pátria celebra este ano com grande solenidade e unidade de intentos, não podiam deixar indiferentes o vigilante interesse desta Sé Apostólica, nem, muito menos, o nosso coração de pai comum dos fiéis. 2. Temos igualmente motivo especial para participar da comemoração de vossa primeira independência, sendo um fato que a Santa Sé, como é notório, colaborou para que lhe viesse dada uma constituição jurídica. 3. Os atos com os quais os nossos predecessores do século XII, Inocêncio II, Lúcio II e Alexandre III aceitaram a homenagem de obediência prestada por Afonso Henriques, conde e, em seguida, rei de Portugal, tendo-lhe prometido sua proteção, declararam independência de todo o território, que ao preço de duríssimas lutas tinha sido valorosamente recuperado do domínio sarraceno, foi o prêmio com o qual a Sé de Pedro compensou o generoso povo português por suas extraordinárias benemerências em favor da fé católica. 4. Tal fé católica, tendo sido, de certo modo, a linha vital, que alimentou a nação portuguesa desde seu nascimento, assim foi senão a única, certamente a principal fonte de energia, que elevou a vossa pátria ao apogeu da sua glória de nação civil e nação missionária, ‘expandindo a fé e o império’”.Disponível emhttp://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_13061940_saeculo-exeunte-octavo_po.html

9. AMEAL, op. cit., p.70.

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