Julho de 1998
O Escapulário do Carmo
A Palavra do Sacerdote

Pergunta,

Tenho ouvido falar muito sobre o Escapulário de Nossa Senhora do Carmo. Mas ninguém sabe me explicar o que ele é senão mediante generalidades e considerações imprecisas. Seria possível o Sr. dizer algo preciso sobre sua origem, promessas, condições para recebê-lo? Ouvi dizer que ele serve de proteção, mesmo contra perigos materiais. É isso exato?

Resposta:

Realmente, o Escapulário do Carmo é um penhor da proteção e do materno carinho de Nossa Senhora para com os homens.

O que é propriamente um escapulário?

Originariamente, na Idade Média, era uma espécie de avental que caía na frente e atrás (Scapulae), usado sobre a roupa comum, sobretudo por criados ou funcionários de palácios, instituições etc. A cor, ou certos desenhos nele bordados, indicavam a quem serviam.

Origem do Escapulário Carmelita

Como surgiu o Escapulário do Carmo? Aqui é preciso expor um pequeno histórico.

A Ordem do Carmo remonta, segundo antiga tradição, aos Profetas Elias, Eliseu e seus discípulos, estabelecidos no Monte Carmelo, na Palestina. De acordo com essa tradição, eles já veneravam Aquela que viria a ser Mãe do Redentor, simbolizada pela nuvenzinha que apareceu quando Elias pedia o fim da seca que assolava a Palestina(cfr. 3Reis 18, 41-45), e da qual caiu a chuva bendita que revivesceu a terra.

Esses eremitas, que viviam em pequenos eremitérios, ter-se-iam sucedido através das gerações até que, na Idade Média, quando os muçulmanos conquistaram a Terra Santa, tiveram que fugir para a Europa. Lá não foram muito bem recebidos pelas outras ordens mendicantes que já existiam. Por isso encontraram grandes dificuldades, passando até pelo risco de extinção.

Foi nessa ocasião que o carmelita inglês Simão Stock, homem penitente e de muita santidade, foi eleito Superior Geral. Angustiado com a situação em que se encontravam os carmelitas, começou a suplicar incessantemente a Nossa Senhora que protegesse sua Ordem.

Exatamente no dia 16 de Julho de 1251, quando o Santo rezava mais fervorosamente em seu convento de Cambridge (Inglaterra), apareceu-lhe a Mãe de Deus revestida do hábito carmelitano, portanto o menino Jesus e apresentando-lhe um escapulário. O nome Escapulário vem da palavra latina "Scapulae", que significa ombros. É o nome dado à peça do hábito religioso, que pende dos ombros, caindo sobre a parte anterior e o dorso da túnica de quem o porta.

"Recebe, caríssimo filho," disse Ela, "este Escapulário da tua Ordem, sinal de minha confraternidade, privilégio para ti e para todos os carmelitas. Todo aquele que morrer com ele revestido, não arderá nas chamas do Inferno. Ele é, pois, um sinal de salvação, uma segurança de paz e de eterna aliança". É a primeira Promessa, chamada "Grande Promessa".

Quando se tornou pública essa prova de predileção da Santíssima Virgem em relação à Ordem Carmelita, esta começou a florescer.

No século seguinte, em 1314, a Mãe de Deus apareceu novamente, desta vez ao Papa João XXII, confirmando sua especial proteção aos que usassem o escapulário, e prometendo ainda que os livraria do purgatório no primeiro sábado após a morte. É a segunda Promessa, chamada "Privilégio Sabatino".

Isso levou Pontífices, Monarcas, religiosos de outras Ordens e pessoas de todas as condições a querer participar desse privilégio, recebendo o escapulário como um símbolo de devoção a Maria e de Sua salvaguarda contra os inimigos da alma e do corpo. Pio XII chegou a afirmar, em carta aos carmelitas em preparação para o sétimo centenário da entrega do Escapulário a São Simão Stock que, dentre as devoções exteriores à Mãe de Deus, "devemos colocar em primeiro lugar a devoção ao Escapulário de Nossa Senhora do Carmo que, pela sua simplicidade, ao alcance de todos, e pelos abundantes frutos de santificação, se encontra extensamente divulgada entre os féis cristãos".

Privilégios concedidos

Podemos dividir os privilégios ligados ao escapulário do Carmo em duas partes:

1 - morte em estado de graça para aqueles que o tiverem trazido piedosamente durante a vida e com ele morrido (promessa a São Simão Stock);

2 - o chamado "Privilégio Sabatino". Nossa Senhora tiraria do Purgatório no primeiro sábado após a morte (promessa ao Papa João XXII):

a - os que tiverem trazido piedosamente o escapulário e com ele morrido;

b - tivessem guardado com esmero a castidade segundo seu estado;

c - tivessem rezado diariamente o Ofício Menor de Nossa Senhora ou as orações prescritas pelo sacerdote que impôs o escapulário;

Quais são as condições para se merecer esses privilégios?

É preciso receber o escapulário de um sacerdote que tenha autoridade para impô-lo e portá-lo piedosamente até a hora da morte. Até mesmo ao pecadores pode ser imposto! Ser-lhes-á um grande penhor de conversão.

Algumas observações práticas

O escapulário deve ser de tecido de pura lá, marrom. Não pode assim ser de feltro, algodão ou de tecidos sintéticos. O cordão, entretanto, pode ser de outro tecido e cor.

Somente o primeiro escapulário que se recebe deve ser bento por um sacerdote com poder para isso. Os outros, não. A pessoa mesmo pode fazê-lo e colocá-lo ao pescoço sem necessidade de mandar benzê-lo.

Ele deve ser usado ao pescoço de maneira que parte caia sobre o peito, e parte sobre as costas. "O Escapulário no bolso nada vale e não protege" afirmava Pio XII. Aqueles que tenham alergia a lá ou outro inconveniente para usar o escapulário, poderão usar uma medalha benta correspondente, mas após ter-lhe sido imposto o escapulário de lá (privilégio concedido pelo Papa São Pio X em dezembro de 1910). Mas, o mesmo Santo Pontífice recomendava a todos os fiéis a continuar usando o Escapulário de lá, como foi revelado por Nossa Senhora.

"Penhor e sinal de salvação"

O escapulário representa um grande tesouro, como afirmou o Papa Pio XII: "Não é coisa de pequena importância procurar-se a aquisição da vida eterna, segundo a tradicional promessa da Virgem santíssima; trata-se, com efeito, da empresa mais importante e do modo mais seguro de a levar a cabo".

Santo Afonso Maria de Ligório, Doutor da Igreja, não só o trazia consigo, como o louva em seus livros e o recomendava a todos como sinal de santidade e fortaleza. Dizia que, quando somos tentados, devemos apertar o santo escapulário com as mãos para que o demônio deixe de nos atormentar.

E o Beato Cláudio de la Colombière, confessor de Santa Margarida Maria Alacquoque, confidente do Sagrado Coração de Jesus, afirmava:

"Creio que às vantagens que se atribuem aos devotos de Maria, se podem acrescentar outras mais notáveis em favor dos confrades do Carmo, que são todos os que usam o escapulário. E prosseguia: "Não; não basta dizer que o Escapulário é um sinal de salvação. Eu estou certo de que não há outro que faça nossa predestinação tão certa como este do Escapulário, e sob o qual nos devemos acolher com o maior zelo e "constância".

Um grande apóstolo da devoção ao escapulário foi o Servo de Deus, Pe. Francisco Rodrigues da Cruz, o mesmo que foi um dos primeiros a crer nas Aparições de Fátima (Dr. Formigão) deu a Primeira Comunhão a Lúcia e ensinou muitas orações e jaculatórias aos três pastorinhos recomendava àqueles a quem ele impunha o escapulário que o osculassem todos os dias de macha, rezando três ave-marias, e pedindo a Nossa Senhora a graça de não cair em pecado grave naquele dia (Cfr. Pe. José Leite, Santos de cada Dia, Editorial A. O., Braga, 1987, 3. Vol. P. 427). Faz bem lembrar que na última aparição de Nossa Senhora em Fátima, a Mãe de Deus apareceu revestida do hábito carmelitano.

Este "sinal certo de salvação", passaporte seguro para o Céu, não pode prestar-se a abusos? Infelizmente sim, como todas as coisas neste nosso vale de lágrimas. Por isso o mesmo Papa Pio XII alertava:

"Não julgue quem o usar que pode conseguir a vida eterna abandonando-se à indolência e à preguiça espiritual".

Quantos casos houve de pessoas que, abusando dessa promessa, levavam uma vida depravada, gabando-se de que se salvariam porque usavam o escapulário, e que, no momento da morte o tiveram arrancado do pescoço por algum acidente ou por si próprios nos estertores da agonia!

Entretanto, se ele não é passaporte infalível para quem o usa indignamente e com presunção, pode servir de grande meio de conversão, movendo almas empedernidas ao arrependimento e ao amor de Deus. Conta-se de conversões obtidas na hora da morte unicamente ao impor-se ao moribundo o escapulário do Carmo.

Por isso, não só usemos piedosamente o escapulário, mas sejamos também seus propagadores.