Outubro de 1996
Auto-retrato filosófico de Plinio Corrêa de Oliveira
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Auto-retrato filosófico de
Plínio Corrêa de Oliveira

Sou tomista convicto.(1) O aspecto da Filosofia pelo qual mais me interesso é a Filosofia da História. Em função desta encontro o ponto de junção entre os dois gêneros de atividade em que me venho dividindo ao longo de minha vida: o estudo e a ação.

Esta última, eu a tenho exercido num campo muito definido: a difusão doutrinária, feita ora com o caráter de diálogo, ora -- por mais que a noção e a palavra pareçam anacrônicas, sinto todo o desembaraço ao fazer o presente depoimento -- também de polêmica.

O ensaio em que condenso o essencial de meu pensamento explica o sentido de minha atuação ideológica. Trata-se do livro Revolução e Contra-Revolução.

As grandes transformações históricas resultam da atitude do espírito humano perante a Religião e a Filosofia

Um dos pressupostos desse ensaio é que, ao contrário do que pretendem tantos filósofos e sociólogos, o curso da História não é traçado exclusiva ou preponderantemente pelas injunções da matéria sobre o homem. Estas influem, sem dúvida, no agir humano. Mas a direção da História pertence ao homem, dotado que é de uma alma racional e livre. Em outros termos, é ele que, atuando ora mais profundamente, ora menos, sobre as circunstâncias em que se encontra, e recebendo também, em medida variável, as influências destas, comunica aos acontecimentos o seu curso.

Ora, o agir do homem se faz normalmente em função de suas concepções sobre o universo, sobre si mesmo e sobre a vida. Isto importa em dizer que as doutrinas religiosas e filosóficas dominam a História, e que o núcleo mais dinâmico dos fatores de que resultam as grandes transformações históricas está nas sucessivas atitudes do espírito humano perante a Religião e a Filosofia.

Civilização cristã: em inteira consonância com os princípios básicos e perenes da lei natural e da Lei de Deus

Passo a outro pressuposto de Revolução e Contra-Revolução. Uma concepção católica da História deve levar em toda conta o fato de que a Lei Antiga e a Lei Nova contêm em si não só os preceitos segundo os quais o homem deve modelar sua alma na imitação de Cristo, preparando-se desse modo para a visão beatífica, como também as normas fundamentais do procedimento humano, conformes à ordem natural das coisas.

Assim, ao mesmo tempo que o homem se eleva na vida da graça, vai, pela prática da virtude, elaborando uma cultura, uma ordem política, econômica e social, em inteira consonância com os princípios básicos e perenes da lei natural e da Lei de Deus. É o que se chama a civilização cristã.

É óbvio que a boa disposição das coisas terrenas não se cifra exclusivamente a esses princípios básicos e perenes, e comporta muito de contingente, transitório e livre. A civilização cristã abrange uma incalculável variedade de aspectos e matizes. É isto tão verdadeiro que, de certo ponto de vista, se pode até falar em civilizações cristãs, e não apenas em civilização cristã. Não obstante, dada a identidade dos princípios fundamentais inerentes a todas as civilizações cristãs, a grande realidade que paira por cima de todas elas é uma possante unidade que merece o nome de civilização cristã por antonomásia. A unidade na variedade, e a variedade na unidade, são elementos de perfeição. A civilização cristã continua una em toda a variedade de suas realizações, de maneira a poder-se dizer que, no sentido mais profundo da palavra, há uma só civilização cristã. Mas ela é tão prodigiosamente vária em sua unidade que, com uma legítima liberdade de expressão, se pode afirmar, sob certo ponto de vista, existirem várias civilizações cristãs.

Dado este esclarecimento -- que aliás vale analogamente para o conceito de cultura católica -- observo que empregarei as expressões civilização cristã e cultura cristã no seu sentido maior, que é o da unidade.

Dispenso-me de fundamentar as asserções acima em textos de Santo Tomás ou do Magistério da Igreja, pois são eles tão numerosos e tão do conhecimento dos que com seriedade estudam esses assuntos, que o trabalho resultaria ao mesmo tempo fastidioso e supérfluo. Esta observação vale também para mais algumas considerações que se seguirão nesta primeira parte da presente exposição.

Em função destes pressupostos é fácil definir o papel da Igreja e da civilização cristã na História.

As nações só podem alcançar a civilização perfeita mediante a correspondência à graça e à Fé

É certo que, embora o homem possa conhecer com firme certeza e sem eiva de erro aquilo que nas coisas divinas não é de per si inacessível à razão humana,(2) dado o pecado original é impossível ao homem praticar duravelmente a Lei de Deus. É só por meio da graça que tal se lhe torna possível. Ainda assim, para acautelar o homem contra sua própria maldade e sua própria fraqueza, Jesus Cristo dotou a Igreja de um Magistério infalível, que lhe ensinasse sem erro, não só as verdades religiosas, como também as verdades morais necessárias à salvação.

A adesão do homem ao Magistério da Igreja é fruto da Fé. Sem a Fé não pode o homem praticar durável e integralmente os Mandamentos.

Daí resulta que as nações só podem alcançar a civilização perfeita, que é a civilização cristã, mediante a correspondência à graça e à Fé, o que inclui um firme reconhecimento da Igreja Católica como única verdadeira, e do Magistério eclesiástico como infalível.

Assim, o ponto chave mais profundo e mais central da História consiste em que os homens conheçam, professem e pratiquem a Fé católica.

Dizendo-o, não nego evidentemente que tenha havido civilizações não cristãs de alto teor. Todas elas, entretanto, foram desfiguradas por estes ou aqueles traços que destoaram chocantemente da própria elevação que sob outros aspectos apresentavam. Basta recordar a enorme extensão da escravatura e a condição vil imposta à mulher antes de Jesus Cristo. E nenhuma civilização houve que apresentasse a perfeição excelsa inerente à civilização cristã.

Igualmente não contesto que, em países de população prevalentemente cismática ou herética, a civilização possa conter importantes traços de tradição cristã. Entretanto, a plenitude da civilização cristã, só da Igreja Católica pode florescer e só em povos católicos pode conservar-se cabalmente.

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