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O homem moderno retorna a um sistema tribal

Ainda segundo McLuhan, esse primeiro empobrecimento da vida imaginativa, emocional e sensorial do homem tribal, causado pela alfabetização, ter-se-ia intensificado mais tarde pela aparição da imprensa, que modelou e transformou todo o ambiente psicológico e social da civilização ocidental, tendo sido a responsável pela Revolução Industrial e pelo conceito cartesiano do universo.

Entretanto, a aparição dos meios de comunicação elétricos (telégrafo, rádio, cinema, telefone, televisão e computadores) teria dado origem a ambientes e culturas antagônicos à sociedade mecânica, cartesiana, decorrente da imprensa. Essa nova mídia, pelo seu caráter interativo, teria libertado o homem de seu isolamento e remodelado sua sensibilidade, imergindo-o em um fluxo mundial de informações: 

O mundo do individualismo, da privacidade, do conhecimento fragmentado ou ‘aplicado’, de ‘pontos de vista’ e objetivos especializados, está sendo substituído pela consciência universal de um mundo modelado como um mosaico, no qual o espaço e o tempo ficaram superados graças à televisão, aos jatos e aos computadores — um mundo simultâneo, ‘imediatista’, no qual tudo é consoante com tudo. [...] Após séculos de sensibilidades dissociadas, a consciência moderna voltou a ser universal e abrangente, na medida em que toda a família humana ficou colada a uma única membrana universal”.(5)

O interessante é que McLuhan denomina essa evolução “processo de retribalização”. E impressiona o fato de que, para provar sua tese, ele se refere aos mesmos fenômenos geracionais descritos por Plinio Corrêa de Oliveira em Revolução e Contra-Revolução, que é muito anterior: 

Toda a orientação da geração mais jovem caminha para uma volta ao nativo, como vemos refletido em seus costumes, música, cabelos longos e comportamento sexual. Nossa geração adolescente já está se transformando num clã de selva. [...] Vemos, por exemplo, a despreocupação com a qual os jovens convivem sexualmente, sem o menor escrúpulo, ou ainda como entre os hippies, em casamentos comunais. Isto é completamente tribal”.

Ele infelizmente está certo no que descreve. Mas o que surpreende em McLuhan é sua apologia da cultura tribal e a ausência de uma condenação formal da evolução da sociedade rumo a uma nova forma de tribalismo.

Uma nova cultura: a oralidade primária com a alfabetização

 Um dos discípulos de McLuhan foi o sacerdote jesuíta Walter Ong, professor no Departamento de Inglês da Universidade Saint Louis, onde McLuhan lecionou por sete anos. Embora o Padre Ong discorde das teorias do determinismo mecânico de McLuhan, concorda inteiramente com sua análise do impacto da alfabetização na cultura humana e demonstra o mesmo fascínio pela riqueza da comunicação oral do homem primitivo. Em seu ensaio Literacy and Orality in Our Times (A alfabetização e a oralidade em nossos dias), ele afirma que, enquanto “todo ser humano que não seja física ou psicologicamente deficiente aprende inevitavelmente a falar, [...] a escrita é completa e irremediavelmente artificial”.(6)

Embora essencial para a realização do potencial humano total, e particularmente para o desenvolvimento do pensamento lógico, a escrita “era desconhecida de culturas orais primárias, onde o pensamento é primorosamente elaborado, não em linearidade analítica, mas em estilo parabólico, através de ‘rapsodização’, ou seja, costurando uma colcha de retalhos de provérbios, antíteses, epítetos e outros ‘lugares-comuns’ ou loci”.

Segundo o Padre Ong, “a passagem de um mundo inteiramente oral e natural para o mundo artificial da escrita é desnorteante e aterrorizante”, pois “na comunicação oral direta o ouvinte não precisa de muitas conexões ´lógicas´. Isto porque a situação concreta provê o contexto completo, tornando a articulação, e por conseguinte a abstração, supérflua em muitos aspectos”. Em contraposição, nas culturas alfabetizadas “o escritor não tem diante de si pessoas vivas que o ajudem, pelas suas reações, a explicitar seu pensamento. Não há ‘feedback’. Não há ouvintes fazendo cara de satisfeitos ou perplexos. Este é um mundo desesperado, um mundo aterrorizante, solitário, um mundo despovoado, o oposto do mundo da interlocução natural, oral-auditiva”.

É por esta razão que “pessoas alfabetizadas têm problemas em compreender as culturas orais, precisamente porque em uma cultura altamente alfabetizada a experiência da oralidade primária — ou algo semelhante à oralidade primária — provavelmente se limitará à experiência do mundo da criança. Daí pessoas provenientes de culturas altamente alfabetizadas [...] tenderem a considerar o conjunto das populações ‘nativas’ –– ou seja, orais –– como ‘infantis’”.

Contudo, uma espécie de “redenção” desse mundo de alfabetização aterrorizante e artificial teria vindo com o aparecimento do rádio e da TV, porque mais uma vez as pessoas começaram a ouvir e a assistir, em vez de simplesmente ler. Segundo o Padre Ong, isto induziu a uma “oralidade secundária”, a uma nova cultura que de alguma maneira combina a oralidade primária com a alfabetização. E, uma vez que a consciência humana evolui, uma nova consciência pode portanto emergir através de uma síntese entre nosso “eu” físico e o “eu” virtual que criamos no mundo da cibernética. O que reforçaria ainda mais o primeiro benefício da oralidade secundária, ou seja, o fato de que “a comunicação oral une as pessoas em grupos”.

Embora o Padre Ong não empregue a palavra “retribalização”, este conceito parece estar presente em seu modo de conceber os grupos reunidos pela comunicação oral.

Cultura tribal primitiva e linguagem emocional da “Net”

Andrés Schuschny, físico e economista argentino, discípulo do Padre Ong, atualizou o pensamento de seu mestre para nossa era digital. Funcionário do Cepal (órgão das Nações Unidas para a América Latina), o Sr. Schuschny leciona na Universidade de Santiago e é autor do ensaio Humanismo e conectividade: A evolução da consciência em um mundo enredado. No artigo intitulado Oralidade Eletrônica: Um tribalismo civilizado e consciente, ele escreve:

Tentando repensar a perspectiva de Ong, a clara transformação que as comunicações eletrônicas estimulam está levando a consciência humana a uma nova era que eu chamaria de ‘oralidade eletrônica’. Uma era que ostenta assombrosas similitudes com as culturas tribais da Antiguidade, e que forjam uma nova mística de participação comunitária, mediante o emprego de uma linguagem particularmente emocional, embora integrada com formas objetivamente racionais. [...]

A conectividade está facilitando a capacidade de recriar uma ‘mega-ágora comunicacional’, onde todos podemos [...] nos sentir parte de algo grande que nos une ao outro, à outra parte de nós mesmos. Empolga-nos e fanatiza-nos acessar a ‘Net’, porque estar conectados é estar ligados com algo que vai muito além dos ‘euzinhos’ finitos e limitados que conformam nosso ego; em torno da Internet há algo de natureza cabalmente religiosa, estou convencido disso; algo que nos religa, que nos une à consciência do mundo. Desde que ela se tornou ‘a Net’, qualquer que seja o nível em que essa consciência se encontre, ali permaneceremos sempre conectados”.(7)

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