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Derrick de Kerckhove

Nativos digitais e retribalização do homem e da sociedade

Mais ainda que o Padre Ong — professor de Estudos de Inglês, e não de Comunicações —, o verdadeiro discípulo de Marshall McLuhan é o Prof. Derrick De Kerckhove, diretor do programa McLuhan de Cultura e Tecnologia na Universidade de Toronto. Como prolongamento do pensamento de McLuhan, ele cunhou a expressão nativos digitais para se referir à geração nascida com a Net como a conhecemos hoje.

De acordo com o Prof. De Kerckhove, “os nativos digitais são indivíduos abertos: pertencem à fase histórica das comunidades de redes sociais; põem gratuitamente sua experiência a serviço de todos, através de seus blogs, myspace, facebook, ning; têm um senso inato da Web 2.0; não têm problema algum com a tecnologia; e utilizam indistintamente e de maneira convergente todas as ferramentas da multimídia”.(8)

Numa entrevista com Kevin Kelly, editor de “Wired” (revista de computação muito popular, de tendência libertária), o Prof. De Kerckhove discorre sobre os efeitos dos computadores e da Internet sobre os nativos digitais:

A Web é um novo tipo de linguagem. Em um mundo tribal, o cosmos tem presença. Está vivo. A tribo compartilha esta enorme realidade orgânica. No momento em que as pessoas começaram a controlar a linguagem pelo alfabeto, elas internalizaram o controle e esvaziaram o cosmos de sua presença sobrenatural. […] Mais tarde, quando o rádio, o telégrafo, o telefone e a televisão chegaram, elas ´retribalizaram´ todas as coisas exteriorizando-as, enchendo novamente o cosmos — uma idéia que McLuhan discerniu muito bem. [...] No mundo do rádio, a agenda do controle, da linguagem, é a agenda de um só indivíduo –– um grande homem, um ditador, um Hitler, um Mussolini, um Khomeini –– enquanto que a agenda da Web é a de um cacique tribal: a linguagem é compartilhada, e não imposta”.(9)

Como se depreende dessas citações, tais estudiosos não só interpretam favoravelmente essa evolução rumo à retribalização do homem e da sociedade, como a vêem à maneira de uma volta sadia a um estado primitivo idílico, em que os homens se dissolvem em grupos e assim se conectam ao cosmos. Para eles, o inimigo é o indivíduo, visto como um ser fechado em si mesmo pelo poder de sua razão. O cerne desses estudos parece consistir em saber como suas ciências poderiam ajudar a estraçalhar esses egos supostamente encasulados, para que pudessem ser reconectados ao mundo e ajudar na construção de uma sociedade coletivista.

Dra. Sherry Turkle

Desafio aos tradicionais métodos de considerar a identidade

Quanto aos nativos digitais (jovens usuários de computadores), tal “reconexão” pode ser obtida, segundo esses autores, fazendo-os passear aleatoriamente entre suas múltiplas personalidades virtuais. É o que pensa a Dra. Sherry Turkle, professora de Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia no Programa Ciência, Tecnologia e Sociedade do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), fundadora e atual diretora do projeto Tecnologia e Personalidade, um centro de pesquisa e reflexão sobre a interação entre as pessoas e as máquinas.

É interessante ver como ela se apresenta na introdução de seu mais recente livro A Vida na Tela: A Identidade na Era da Internet, com um artigo eloqüentemente intitulado “Who Am We?” (“Quem sou nós”; note-se: “nós” e não “eu”, como seria a forma correta):

Há muitas Sherry Turkles. Há a ‘Sherry francesa’, que estudou pós-estruturalismo em Paris nos anos 60. Há a Profª Turkle cientista social, com especialização em antropologia, psicologia da personalidade e sociologia. Há a Dra. Turkle psicóloga. Há a Sherry Turkle escritora. Há a Sherry professora, que tem monitorado alunos do MIT há quase 20 anos. E há a exploradora do cyberespaço, a mulher que pode se conectar como se fosse homem, ou como outra mulher, ou simplesmente como S.T.”.(10)

Não se pense que, ao se apresentar assim ao leitor e descrever suas diversas atividades, a referida professora procura apenas autopromoção. De fato ela está preparando o terreno para expor sua tese — agora correntemente aceita — de que a identidade na Internet é fluida. Na realidade, ela se especializou em entrevistar pessoas sobre suas experiências com computadores e Internet, e coletou uma série de preciosas observações sobre o efeito que exercem sobre adultos, adolescentes e crianças.

Segundo a Profª Turkle, “a Microsoft é uma companhia cuja estética, expressa em seu sistema operacional, está modelando nosso estilo de pensamento”. Isso porque os utilizadores de Windows (literalmente “janelas”) navegam entre as diferentes telas dos distintos programas abertos no computador, como alguém que vai olhando sucessivamente através de várias janelas. Em uma entrevista a “The New York Times”, ela explica no que consiste essa remodelagem do pensamento:

Quando as pessoas estão online, tendem a expressar diferentes aspectos de si mesmas em diferentes situações. Um homem de negócios pode chamar-se em uma comunidade virtual ‘Armaniboy’ [insinuando um tipo humano clássico, elegante], e noutra ‘Motorcycleman’ [projetando um jovem prá-frente, aventureiro]. As pessoas começam a se mover fluidamente entre suas várias personagens, e têm uma experiência que as encoraja a questionar as noções tradicionais sobre a identidade. Encontram maneiras de conceber um ‘eu’ sadio, não como algo singular e único, mas tendo muitos aspectos. As pessoas acabam vendo a si próprias como a soma de suas diversas presenças nas janelas que abrem nas telas de seus monitores. E o computador serve como uma metáfora para pensar a respeito da própria identidade: a metáfora técnica de rodar pelas janelas do computador tornou-se um modo de conceber as relações entre os vários aspectos do próprio ‘eu’”.(11)

Mais tarde, em depoimento à revista “Brainstorms”, ela reforça assim seu ponto de vista:

Crescemos acostumados a conceber nossas mentes de maneira unitária. [...] Acredito que a experiência do cyberspace, a experiência de brincarmos de vários ‘eus’ em vários contextos virtuais – talvez até ao mesmo tempo e em múltiplas janelas – é a concretização de um outro conceito de identidade, não como algo unitário, mas múltiplo. Segundo esta visão, nós nos movemos entre vários estados, entre vários aspectos do nosso ‘eu’. Nosso senso de identidade é uma espécie de ilusão [...] que podemos afirmar, porque aprendemos a nos mover fluidamente entre os vários estados de nossa personalidade”.(12)

Papel das comunidades virtuais rumo a um governo universal

Às pessoas que objetaram que tal fluidez entre personalidades seria uma forma de esquizofrenia psicótica, a Profª Turkle, em entrevista à “Technology Review”, replicou que “as pessoas que sofrem distúrbios de personalidade múltipla têm identidades fragmentadas, onde as diferentes peças estão separadas umas das outras por um muro”, enquanto “no caso de pessoas que assumem personagens online, estas têm consciência das vidas que criaram na tela. Estão representando diferentes aspectos de si mesmas e têm noção do modo pelo qual se movem fluidamente entre elas. [...] As pessoas acabam vendo a si próprias como a soma de sua presença distribuída em todas as janelas que abrem na tela. A metáfora técnica de rodar pelas janelas do computador tornou-se uma metáfora para pensar na relação entre os vários aspectos da própria identidade”.(13)

Nesses vários aspectos da própria identidade, a pessoa real e sua vida real são apenas um de muitos eus virtuais, segundo a Profª Turkle. Em seu livro, ela descreve um jovem, brilhante estudante universitário, para o qual a vida real (VR, como ele a chama) não goza de nenhum status especial. É apenas uma outra janela, entre as várias em que ele representa um papel em diferentes comunidades virtuais. Ele chegou mesmo a dizer que a vida real geralmente não é a sua janela favorita...

Apesar desse grave sintoma de fuga psicótica da realidade, a Profª Turkle conclui que as experiências na Internet desafiam “os conceitos tradicionais de personalidade sadia como algo unitário” e “encorajam-nos a procurar e a descobrir uma maneira nova de nos referir à identidade individual como algo múltiplo, e à saúde psicológica não em termos de construção de um unum, mas de negociação do vário”.(14)

Cumpre enfatizar a importância deste questionamento acadêmico da personalidade individual. Com efeito, como foi dito no início deste artigo, o fracasso de todas as experiências coletivistas do passado reside no fato de que, enquanto as estruturas sócio-econômicas da sociedade se tornaram coletivas, seus membros permaneceram indivíduos “particulares”, apesar da ditadura do proletariado e da posse coletiva da propriedade. A mudança em direção à Quarta Revolução consistiu precisamente em tentar primeiro “coletivizar” o próprio indivíduo, para que ele pudesse de bom grado aceitar um modo de vida coletivo em uma estrutura sócio-econômica comunista.

Para que esta revolução tenha êxito, a nova bastilha a ser demolida é a soberania da pessoa sobre si mesma, isto é, a unidade e identidade do eu, do mesmo modo como a soberania nacional é o principal obstáculo para a construção de um governo mundial ou República Universal. E o meio mais efetivo de subjugar o eu é fracioná-lo nas pseudo-identidades múltiplas e fluidas daqueles que gostam de navegar indiscriminadamente nas janelas dos computadores.

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