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Com a cibernética, surge uma nova estrutura social

Compreende-se então a ênfase do cientista cibernético e filósofo Pierre Lévy ao afirmar que “a pessoa individualizada não é senão uma articulação intermediária e passageira; é apenas uma ilusão”,(15) e que a Net é a estrutura técnica que favorece o surgimento de uma inteligência coletiva.(16) 

Já em 1951, o matemático e fundador da ciência da Cibernética, Norbert Wiener, em seu livro O uso humano de seres humanos: a cibernética e a sociedade, declarou que “estar vivo significa participar de um contínuo fluxo de influências vindas do mundo externo, e de ações que incidem sobre o mundo externo, um fluxo no qual nós representamos apenas um momento transitório”.(17)

Por isso, Nicholas Negroponte, que além de fundador do Laboratório de Mídia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e da revista “Wired” foi conselheiro do presidente François Mitterrand, considera que “o verdadeiro valor de uma rede tem menos a ver com a informação e mais com a comunidade. As auto-estradas da informação [...] estão criando um tecido social global totalmente novo”.(18) O que poderia ser este novo tecido social global, senão aquele sonhado por Marx, Engels e os demais pais do comunismo?

Se isto for verdade, então é relevante o fato de que entrevistas com usuários da Internet mostrem de modo consistente que, embora muitos a usem de vez em quando para pesquisa, comércio eletrônico, acesso a bases de dados online ou para assistir vídeos online, os aplicativos mais comuns continuam sendo o IRC (Salas de Bate-papo, via Internet) e outros aplicativos de teleconferências — MUDs (domínios com múltiplos usuários), grupos de notícias Usenet e listas eletrônicas de mailing — que permitem aos usuários socializarem-se com outros. O que a maioria das pessoas busca na Internet é a “comunidade”, “virtual” ou não. 

As comunidades da Web 2.0 são para nós hoje o que as comunidades tribais ou de aldeia eram para nossos ancestrais

Viver em casa uma vida análoga à vida selvagem

Como usuária da Internet e antiga gerente de marketing da ICQ, a Srta. Ayelet Noff reconhece: “As comunidades da Web 2.0 são para nós hoje o que as comunidades tribais ou de aldeia eram para nossos ancestrais. Elas representam um lugar onde podemos fazer novas conexões, compartilhar detalhes de nossas vidas e discutir tópicos que nos interessam”.(19)

Note-se que não se trata de uma adolescente viciada em jogos com múltiplos jogadores na Net, mas de uma mulher de negócios bem sucedida, com mestrado e bacharelado em Política na Universidade de Tel Aviv.

Ela prossegue: “Hoje as conexões se baseiam em elementos pessoais mais profundos, como peculiaridades, hábitos, idéias e hobbies. Devido às nossas diferenças nesses elementos, nem todas as tribos terão bom relacionamento umas com as outras, como no passado. Cada um de nós escolherá a(s) tribo(s) onde sentir-se-á mais ‘em casa’, com pessoas com as quais mais sintoniza, e engajar-se-á naquela comunidade”.(20)

Vê-se por aí a extensão e a profundidade desse fenômeno. Ele não se limita a jovens marginalizados que vivem estilos de vida alternativos na selva cinzenta de blocos de condomínios populares das grandes cidades, mas se caracteriza como um fenômeno social de grande escala.

O sociólogo francês Michel Maffesoli, professor da Universidade Sorbonne de Paris e editor da revista “Société”, analisa há muito tempo o fenômeno da retribalização. Seu principal campo de pesquisa são os laços sociais e a formação da comunidade e do imaginário coletivo em nosso mundo pós-moderno. Em 1988, publicou o livro Le Temps des tribus (O tempo das tribos), no qual analisa a crise do individualismo e o aparecimento de tendências tribais, comunitárias e nômades nas gerações mais novas. Segundo ele, “o tribalismo em todos os domínios será o fenômeno predominante nas próximas décadas”.(21) Avançará em dois eixos principais: nos aspectos “arcaicos” e “juvenis” e na sua “dimensão comunitária”, como resultado da saturação da identidade; e do individualismo, que é sua manifestação.

Em relação ao novo “arcaismo juvenil”, Maffesoli descreve a atual subversão interna da alma humana e prevê como resultado positivo a tirania das paixões humanas mais baixas sobre a razão e a vontade:

“Depois do predomínio de uma razão mecânica e predizível, de uma razão instrumental e estritamente utilitária, estamos assistindo à volta do ‘princípio do Eros’, do emotivo, do compartilhar as paixões. Podemos caracterizar a pós-modernidade como o retorno exacerbado do ‘arcaísmo’. [...] Podemos notar esse impulso vital nas efervescências musicais, [...] na anomia sexual, na volta à natureza, no ambiente de ecologismo, na exacerbação do pêlo, da pele; [...] numa palavra, em tudo aquilo que lembra o animal no humano. O enselvajamento da vida! Eis o paradoxo da pÓs-modernidade, que traz para o cenário a origem, a fonte, o primitivo e o bárbaro. [...] O ‘bafo da selva’ [...] toma força e vigor nas selvas de pedra que são nossas cidades, mas também nas clareiras das florestas quando, de modo paroxístico nos festivais rock, as ‘tribos technos’ chafurdam-se, em êxtase, na lama de que fomos formados. Aqui tocamos o cerne do pós-tribalismo moderno: a identificação primária, primordial, com aquilo que no homem se aproxima do húmus”.(22)

Os totens das sociedades pós-modernas

Quanto à sua dimensão “comunitária”, o tribalismo, segundo Maffesoli, “é também a passagem do indivíduo de identidade estável, e exercendo funções em grupos organizados, para a pessoa de identificações múltiplas, fazendo papéis efêmeros em tribos afetivas. Isto equivale a uma participação mágica numa realidade pré-individual, ou então ao fato de que não se vive senão no contexto do inconsciente coletivo”.(23)

Numa entrevista concedida em Módena no verão de 2008, durante o Festival Internacional de Filosofia, Michel Maffesoli expressou seu pensamento a respeito do impacto das novas tecnologias sobre este fenômeno:

“O Google, os festivais techno, a Second Life, o YouTube: o conjunto destes totens [...] nos mostra mudanças aparentemente simples em nossa sociedade contemporânea, mas na realidade muito profundas. Uma sociedade não mais forjada pela razão, mas por um imaginário coletivo nutrido de mitos. Tribos musicais, salas de bate-papo, reality shows, códigos estéticos, tatuagens, todos eles descrevem uma profunda mudança. Nos Tempos Modernos, o progresso e a racionalidade tentaram canalizar a violência, mas hoje em dia estão ressurgindo novos sentimentos tribais, irracionais, que poderíamos definir como bárbaros”.

Por outro lado, para Maffesoli, “nas sociedades pós-modernas a comunicação torna-se comunhão”, porque a mídia digital se transformou no “elemento sagrado em cujo redor as comunidades se fundem e vibram como uma só. Resumindo, a mídia digital tornou-se o elemento estruturalizador do viver-juntos pós-moderno”.(24)  

A geração cyber tribo

A interação do coletivismo tribal no cyberspace

Por mais radicais que essas teorias pareçam, elas não se restringem aos círculos internos de uns poucos lunáticos.

O Prof. Federico Casalegno, pesquisador no Laboratório de Mídia do MIT, é um dos discípulos de Maffesoli. Atualmente ele dirige o Laboratório de Experiência Móvel do MIT e é diretor associado do Laboratório de Design do mesmo Instituto. No artigo intitulado Entre tribalismo e comunidades; configurações sociais emergentes no cyberspace, Casalegno faz uma distinção entre comunidades cyber e tribos cyber: as comunidades cyber são formadas por indivíduos autônomos que têm deveres e objetivos a alcançar, enquanto as tribos são formadas por pessoas que carregam máscaras e representam vários papéis dentro de agrupamentos heterogêneos.

Falando das tribos cyber, Casalegno afirma que “nas redes do cyberspace assistimos à manifestação de formas de sociabilidade em que predomina a ênfase, [...] bem longe de uma lógica mecanicista e calculada: a emoção e a espontaneidade tornaram-se parâmetros obrigatórios do ‘estar junto’”.(25) Por isso, as tribos urbanas criadas pelas redes sociais da Internet ou através dos torpedos dos telefones celulares estão “estruturadas mais pelos fluxos permanentes de comunicação do que pela própria comunicação”. Diz Casalegno: “Estamos enfrentando o fenômeno da tribe-cast [transmissão intra-tribo, por oposição à do rádio, broadcast]: um fluxo denso de troca de informações com nosso pequeno círculo”.(26)

Como Maffesoli, o Prof. Casalegno salienta a natureza lúdica da passagem do paradigma da comunidade para um modelo tribal, onde o interesse próprio é deixado de lado e a posse coletiva torna-se a regra. Este compartilhar lúdico e desinteressado que se dá na Web penetrou até mesmo o setor mercantil dos bens e serviços.

Casalegno exemplifica com a criação do Linux pelo jovem técnico em computação Linus Torvalds, que escreveu um sistema operacional de aproximadamente 20 mil linhas e o colocou na Internet como um código aberto a todos, a fim de possibilitar comunicação e melhorias. Quem possui o know-how necessário pode participar do processo coletivo de criação deste software aberto e gratuito.(27) Segundo o Prof. Casalegno e outros estudiosos, essa partilha desinteressada, oposta ao espírito de lucro, é o paradigma do tribalismo cibernético.

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