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Seth Godin, antigo vice-presidente da Yahoo

Empresas “tribais” numa era de consumismo

Isso não impede que algumas pessoas já estejam tirando vantagens financeiras desse fenômeno. Por exemplo, o guru norte-americano de marketing Seth Godin, antigo vice-presidente da Yahoo, encarregado das atividades de mala direta da firma e autor best-seller de livros comerciais. Seu último livro –– As tribos: Nós precisamos que você nos lidere –– tem um capítulo de autoria de Michel Maffesoli, e insiste na idéia de que “um grupo precisa apenas de duas coisas para ser uma tribo: um interesse comum e um meio de comunicação”. Salienta ainda que “a Internet eliminou a geografia”. Segundo Godin, “isso significa que as tribos existentes são maiores, e que agora há mais tribos –– pequenas tribos influentes, tribos horizontais e verticais –– e tribos que não poderiam jamais ter existido antes. [...] Há literalmente mil maneiras de coordenar e de conectar grupos de pessoas, que não existiam na geração anterior”.(28)

Outros homens de negócio de sucesso estão tirando vantagem da popularidade deste novo conceito de marketing para estreitar ainda mais os laços com seus clientes. O sueco Elia Morling, dono da Tribaling (companhia consultora e site de Internet), ensina às empresas como se tornarem tribais. Ele escreveu recentemente em seu site que “as tribos são a última moda, graças à popularização da teoria de Maffesoli feita por Seth Godin”, na qual mostra como as pessoas hoje, “ao invés de desarraigar-se, estão recriando raízes através das tribos; e, ao fazerem isso, apóiam-se menos nas estruturas já existentes, tais como as instituições e classes sociais”.(29)

Os marqueteiros não são eruditos que moram em torres de marfim e conduzem uma pesquisa bizarra para provar alguma loucura científica. Eles têm os pés no chão e uma percepção vivamente atilada para reconhecer a mínima mudança no desenrolar das modas dos consumidores. Se o conceito de “tribalização” se tornou moda até mesmo em seus círculos, isto quer dizer que eles notaram um forte movimento social naquela direção.

Portanto, ao falarmos da presente retribalização da sociedade através de redes sociais digitais enquanto parte de uma revolução cultural rumo às metas últimas da Quarta Revolução –– magistralmente descrita pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em Revolução e Contra-Revolução –– não aludimos a fantasmas, mas a algo de muito real e sério, com profundas implicações psicológicas, sociais e religiosas. 

Função da Web na formação de uma nova mística religiosa

Propositalmente, deixei para o fim a análise do aspecto religioso dessa revolução. Com efeito, na Parte III de Revolução e Contra-Revolução, esse aspecto é apresentado como uma tentativa de quebrar a estrutura hierárquica e rígida da Igreja católica, visando transformá-la num tecido cartilaginoso de pequenas comunidades “proféticas’, envolvidas nas experiências intensas e pseudo-místicas do pentecostalismo, semelhantes ao totemismo transpsicológico e parapsicológico das tribos primitivas. 

Assim, Dr. Plinio pergunta se por detrás da Quarta Revolução — na qual a magia é apresentada como uma forma de conhecimento — não se pode perceber o enganoso e sinistro canto de sereia com o qual Satanás atrai aqueles que negaram Jesus Cristo e a Santa Igreja. E o presente artigo estaria incompleto, caso omitisse este aspecto pseudo-místico do processo de despersonalização e da assim chamada reconexão com o cosmos, que a Web supostamente atingiria se o wishful thinking dos estudiosos que citei pudesse tornar-se realidade.

Eis um eloqüente trecho de uma entrevista de Marshall McLuhan, o guru da mídia já citado: 

“O homem tribal estava profundamente imerso numa consciência coletiva integral que transcendia os limites convencionais do tempo e do espaço. Da mesma maneira, a nova sociedade será uma integração mítica, um mundo reverberante, similar à velha câmara de ressonância tribal, no qual a magia viverá novamente: um mundo de percepção extra-sensorial. O atual interesse da juventude pela astrologia, pela clarividência e pelo oculto não é pura coincidência...

“Desta forma, o computador detém a promessa de um estado de compreensão universal e de unidade, engendrado tecnologicamente; um estado de absorção no logos, que poderia unir a humanidade em uma só família e criar uma eternidade de harmonia e paz coletivas. Esta é a verdadeira utilidade do computador: não é despachar produtos ou resolver problemas técnicos, mas acelerar o processo de descoberta e orquestrar ambientes e energias terrestres; e, eventualmente, até galácticas. A integração psíquica comunitária, que finalmente se tornou possível graças à mídia eletrônica, poderia criar a consciência universal prevista por Dante, quando antecipou que os homens continuariam a ser meros cacos quebrados enquanto não fossem unificados em uma consciência inclusiva. Em termos cristãos, isto é simplesmente uma nova interpretação do corpo místico de Cristo; pois Cristo, afinal de contas, é a extensão última do homem”.(30)

Apesar dessa alusão final ao Corpo Místico de Cristo, cunhada em termos que lembram “O Cristo Total” de Teilhard de Chardin, esse texto de Marshall McLuhan nada tem de cristão, menos ainda de católico. Deus Nosso Senhor não padece de distúrbios de personalidade; quando Moisés pediu-Lhe que dissesse Seu Nome, Ele respondeu: “Eu sou Aquele que é”, e não “Eu sou Aqueles que somos”. Tampouco nós, suas criaturas, somos fragmentos partidos, lutando para nos unirmos a uma consciência inclusiva.

Como membros do Corpo Místico de Cristo, nossos eus não estão absorvidos na divindade, mas antes aperfeiçoados pela vida sobrenatural da graça santificante que, de acordo com a teologia católica, não muda nossa substância, mas é um acidente acrescentado à nossa natureza. Pela visão beatífica, contemplaremos a Deus face a face eternamente. Mas esta felicidade sem fim pressupõe dois seres se entreolhando e a participação da criatura na felicidade eterna do Criador, e não o desaparecimento da primeira numa fusão final em um único ser.

Em nossa vida terrena, a Cristandade não modela nativos digitais vibrando como um só homem em uma comunidade amalgamada (nem tampouco os burocratas racionalistas, individualistas e frios da era industrial), mas caracteres fortes e estuantes de vida, bem inseridos em sociedades patriarcais estreitamente ligadas, como no sistema feudal e nas corporações de ofício da Idade Média.

A era digital: a nova maçã da tentação?

Na era digital, Satanás repete a promessa feita a Adão e Eva

Os excertos dos vários cientistas aqui citados são compreensíveis, não na perspectiva cristã, mas na perspectiva monista, panteísta, do antigo gnosticismo e do esoterismo da Nova Era. O monismo é a doutrina filosófica que afirma que, sob a diversidade das aparências, o conjunto do universo é uma só substância, pelo que tudo quanto vemos ao nosso redor é um mero aspecto ou parte dessa “realidade única”. O monismo leva naturalmente ao panteísmo (em grego: pan, tudo), que é a crença que identifica o universo  com Deus (em grego: theos), afirmando que Ele é apenas o princípio último do cosmos, chamando-o freqüentemente de “consciência universal” (note-se que é justamente essa expressão que vários dos acadêmicos citados usam para referir-se ao último estágio da revolução digital).

Por detrás dos erros do monismo e do panteísmo que permeiam estes textos, o que aparece é a mais radical forma de orgulho humano e de igualitarismo metafísico, os quais, segundo afirma o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em Revolução e Contra-Revolução, culminam na tentativa de colocar Deus e os homens no mesmo plano e atribuir ao homem propriedades divinas.

No Jardim do Paraíso, a Serpente tentou nossos primeiros pais a comerem o fruto proibido para se tornarem semelhantes a Deus. Em nossos dias, a mesma Serpente, através da Quarta Revolução e de seus promotores, apresenta a mesma tentação à nossa geração, com a diferença de que o fruto proibido tornou-se digital.

Entretanto, Satanás continua o mesmo assassino e pai da mentira (Jo 8: 44). Por trás das conquistas técnicas da era da informação, o que ele está propondo ao homem contemporâneo é mudar sua personalidade e voltar ao estado tribal primitivo, no qual desapareçam sua imagem e semelhança com Deus.

Rejeitemos esta suprema tentação, com as próprias palavras de Deus à Serpente: Ipsa conteret caput tuum! Ela (a Mulher, Maria Santíssima) esmagará tua cabeça, ou seja, todos os truques diabólicos e “maravilhas” da engenharia social e tecnológica com os quais o demônio luta para destruir o plano de Deus para a criação.

________________ 

Notas:

1. Cfr. ALEX WRIGHT, “Friending, Ancient or Otherwise”, New York Times, December 2, 2007.

2. Artpress Indústria Gráfica e Editora Ltda., S. Paulo, 2009.

3. Essa é a tradução mais divulgada de sua sentença “The médium, not the content, is the message” (O meio, e não o conteúdo, é a mensagem), que literalmente é mais completa.

4. Cfr. Marshall McLuhan, http://www.nextnature.net/?p=1025 

5. Idem, ibid.

6. Cfr. http://www.ade.org/bulletin/n058/058001.htm

7. Cfr. http://humanismoyconectividad.wordpress.com/2008/03/07/oralidad/

8. http://e-south.blog.lemonde.fr/category/webtech/

9. http://www.wired.com/wired/archive/4.10/dekerckhove_pr.html

10. http://www.wired.com/wired/archive/4.01/turkle.html

11. Cfr. In Kathie Hafner, “At Heart of a Cyberstudy, the Human Essence”, New York Times, 18 de Junho de 1998, http://web.mit.edu/sturkle/www/nytimes.html

12. http://www.well.com/~hlr/texts/mindtomind/turkleint1.html

13. http://www.pol-it.org/ital/turkleeng.htm

14. http://www.well.com/~hlr/texts/mindtomind/turkleint1.html

15. Cfr. P. Lévy, World philosophie, p. 201.

16. Idem, ibidem, pp. 47 e 90.

17. N. Negroponte, Being Digital (1995), p.183.

18. N. Wiener, Cibernetica e società (1951), p. 269.

19. http://www.blonde2dot0.com.blog/2007/06/14/why-we-should-care-about-web-20/   

20. Idem, ibiden.

21. http://constructif.fr/Article_28_44_313/Le_tribalisme_postmoderne.html

22. Idem, ibiden.

23. Idem, ibiden.

24. http://e-south.blog.lemond.fr/category/webtech

25. http://www.cea1-sorbonne.org/node.php?id=97&elementid=94

26. Atlas de communication orale – Une carte de la communication et de ses flux, F. Casalegno, M. Susani, R. Tagliabue, http://www.cairn.info/revue-sicietes-2003-1-page-89.htm

27. O Windows domina o mercado de computadores pessoais e desktop (cerca de 90%) e cerca de 66% do total de servidores vendidos (não necessariamente usados) em 2007. Esse quadro pode mudar, com a crescente penetração do Ubuntu (uma variante do Linux) no mercado de computadores pessoais. Em novembro de 2007, Linux operava 85% dos mais potentes computadores do mundo, comparados aos apenas 1,4% operados por Windows. Em fevereiro de 2008, Linux operava 5 em cada 10 dos provedores de Internet confiáveis, comparados aos 2,0% do Windows.

28. Seth Godin, Tribes: we need you to lead us, p. 2,6.

29. http://tribaling.typepad.com/my_weblog/2009/02/tribes.html

30. Cfr. Marshall McLuhan, http://www.nextnature.net/?p=1025 

 

Quatro importantes esclarecimentos

1) O escopo deste artigo consiste na descrição do fenômeno da Internet, enquanto inserido no processo revolucionário, não contendo a sugestão de que todos aqueles que a utilizam nos seus diversos âmbitos façam parte do modelo de comportamento aqui descrito.

2) Por não terem uma base filosófica sólida, conferida pela sã doutrina católica, as teorias e escolas dos cientistas citados são, em maior ou menor medida, afetadas pelo erro do determinismo, ao atribuir um caráter incoercível às mudanças tecnológicas, e ao menosprezar o livre arbítrio daqueles que usam as novas tecnologias.

3) Nem todas as previsões dos cientista mencionados neste artigo necessariamente se realizarão, não passando de um “wishful thinking” (criação ilusória de fatos que se desejaria fossem realidade) deles; pois, como de modo geral compartilham os ideais da Revolução, sonham com um utópico mundo novo em benefício do qual dirigem as suas especulações. 

4) Sendo os objetivos da Revolução contrários à natureza humana, e por conseguinte inatingíveis, moveu-nos a fazer esta análise o desejo de mostrar o quanto eles são radicais e como o mundo que a Revolução deseja implantar é infernal.

 

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