Fevereiro de 2000
Santa Joana de Valois: predileta de Maria Santíssima
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Vidas de Santos

Santa Joana de Valois: predileta de Maria Santíssima

Santa Joana de Valois, filha, irmã e esposa de Reis, era disforme, quase anã e corcunda. Foi desprezada pelo pai, rejeitada pelo esposo e teve seu casamento declarado nulo. Exemplo heróico  de paciência e perseverança, tornou-se a fundadora de uma congregação religiosa

  • Plinio Maria Solimeo

Foi grande o choque e desgosto de Luís XI, da França, ao saber que sua esposa, Charlotte de Savoia, em vez do robusto e belo menino que ele esperava, deu-lhe uma filha. E ainda mais, feia, disforme, diminuta, raquítica. Por isso, praticamente desde o primeiro instante, desprezou o novo pequenino ser.

A Rainha, pelo contrário, boa e piedosa, com terna solicitude formou sua pequena Joana na via da sabedoria cristã, tendo a satisfação de ver que a menina recebia com precoce avidez tudo o que ia na linha da virtude. Assim, “aos cinco anos, pedia à governante que a conduzisse à igreja; e já, pelas suas palavras e exemplos, edificava seu irmão Carlos, e Ana, sua irmã, que com ela foram educados no castelo de Amboise”.

Desamparada, é sustentada pela Mãe celeste

O pai, entretanto, não via com bons olhos essa piedade, e proibiu-a mesmo de rezar, sob a ameaça de severos castigos. “Esse pai imprudente formava assim, com suas próprias mãos, o primeiro elo dessa cadeia de sofrimentos que iria compor toda a vida dessa virtuosa princesa. Numa idade tão tenra e em tão grande perigo, Joana não podia esperar um apoio proporcionado à sua fraqueza na terra; também procurava alguma mão para defendê-la, uma luz para dirigir seus passos. Lançando-se um dia nos braços de Maria, com um amor e uma confiança sem limites, disse ela: ‘Ó minha Mãe, ensinai-me Vós mesma o que é necessário que eu faça para Vos agradar’. Aquela que não se invoca jamais em vão dignou-se responder nestes termos: ‘Minha filha, seca tuas lágrimas; um dia tu fugirás deste mundo do qual temes os perigos, e darás nascença a uma Ordem de santas religiosas ocupadas a cantar os louvores de Deus, e fiéis a seguirem meus passos’”.(1)

 “Se bem que desprovida pela natureza, débil, disforme e corcunda, na idade de nove anos seu pai contratou seu noivado com o jovem Duque de Orléans, seu primo, de onze anos de idade. O casamento foi celebrado três anos mais tarde, em 1476”.(2)

O Duque de Orléans,  primeiro Príncipe de sangue, protestou veementemente contra essa violência. Não conseguindo evitá-la, voltou contra a jovem esposa todo seu desprezo e ódio, praticamente ignorando-a. Joana retribuía a atitude agressiva do marido com uma submissão a toda prova. Mas nada conseguia aplacá-lo.

Entretanto, Luís XI, que apesar de tudo temia a Deus, adoeceu gravemente. E tendo ouvido contar as maravilhas que São Francisco de Paula operava na Itália, sentindo-se nas últimas, obteve do Papa que desse ao fundador dos Irmãos Mínimos – um ramo reformado dos Franciscanos – a ordem de ir ter com ele na França. Esperava ser curado por um milagre do santo. Mas tal não era a vontade da Providência. Luís morreu confortado por Francisco de Paula, tendo antes ordenado à filha que o tomasse como diretor de  consciência.

Sucedeu-lhe no trono seu filho Carlos VIII. E, como prova de gratidão a São Francisco de Paula pelo bem que fizera a seu pai e a toda a Corte com sua edificante vida, “tornou-se amigo de Francisco e doou vários mosteiros para os Mínimos. Francisco passou o resto de sua vida no de Plessis, que Carlos havia construído para si”.(3)

Ingratidão e repúdio por  parte do marido

"Minha Filha, um dia fugirás deste mundo, do qual temes os perigos"
Numa desavença entre os dois primos, o Duque de Orleans levantou-se em armas contra seu Rei. Derrotado, foi condenado à morte. Mas, às instâncias de Joana, seu irmão, Carlos VIII, não só comutou a sentença como concedeu liberdade ao rebelde.

A gratidão é das mais frágeis virtudes. Pouco tempo depois Carlos VIII falecia, e o Duque de Orléans subia ao trono com o nome de Luís XII. Um de seus primeiros atos foi exatamente o de pedir ao Papa a declaração de nulidade de seu casamento por ter sido a ele forçado e jurando não ter sido consumado.(4)

A notícia do repúdio da Rainha encheu de indignação o reino, que venerava sua bondade e virtude. Mas, para Joana, a humilhação foi uma libertação, pois assim podia entregar-se inteiramente à piedade e levar avante a obra que a Santíssima Virgem lhe predissera quando era ainda criança. 

Seu pai lhe havia dado, entre outros, o Ducado de Berry, onde ela escolheu a cidade de Bourges para fixar residência. Seus habitantes a receberam como verdadeiro presente do Céu. Ela não deixaria mais seu caro Berry, que edificaria com sua devoção e piedade.

Joana continuava dirigindo-se espiritualmente, por correspondência, com São Francisco de Paula. Consultou-o particularmente sobre seu desejo de estabelecer uma nova congregação religiosa feminina em honra da Anunciação da Virgem, como a Mãe de Deus lhe havia revelado.

Evidentemente, num assunto de tal monta para a glória de Deus e exaltação de Sua Santa Mãe, o santo franciscano não podia senão pôr todo seu empenho. E incentivou-a de todos os modos possíveis a dar andamento ao plano.

Joana expôs então o plano a seu confessor, o franciscano Gilberto de Nicolaï (ou Gilberto Nicolas, como afirmam outros, e que depois, por sua grande devoção a Nossa Senhora, mudaria seu nome para o de Gabriel Maria). Este não partilhava a mesma opinião, e aconselhou Joana, em vez de iniciar nova congregação, a fundar uma casa de alguma das congregações já existentes, como fizera sua mãe Charlotte de Savoia, estabelecendo as Clarissas em Paris.

Após obstáculos, aprovada a nova congregação

Dois anos se passaram sem que o confessor mudasse de posição. Enfim, caindo a Princesa seriamente enferma, o assustado confessor deu-lhe imediatamente a autorização, com o que ela foi recuperando as forças até se restabelecer completamente.

Joana, tendo já um bom número de candidatas, passou a redigir as regras da nova instituição, sob o título “Das dez virtudes” ou “Dos dez prazeres da Virgem”.

Como todos os fundadores, a Princesa encontrou sérias dificuldades para a aprovação de suas regras.  Para isso ela enviara seu próprio confessor a Roma. Quando todas as portas pareciam fechadas e a missão destinada ao total fracasso, entrou em cena o Cardeal João Batista Ferrier, Bispo de Módena. Conhecido por seu saber e virtude, e com muita autoridade na Corte Pontifícia, teve uma visão na qual São Lourenço e São Francisco ordenavam-lhe que promovesse a aprovação daquela santa regra. Assim foi feito pelo Papa Alexandre VI, edificado pelo empenho de tão alta Princesa da Casa Real da França nessa obra.

Enquanto isso, Joana obtinha do Rei, seu ex-esposo, todas as licenças necessárias para edificar, em uma de suas terras, um mosteiro. Trabalhou também para a reforma de um convento de religiosas beneditinas que tinham perdido seu primitivo fervor.

Durante a construção do convento, vários milagres comprovaram que a mão de Deus estava ali.

Não menor empenho pôs a Princesa na preparação espiritual de suas filhas. Escolheu as cinco mais virtuosas das candidatas para a tomada do hábito da Ordem da Anunciação, em 8 de outubro de 1502. Assim começou essa instituição que, da cidade de Bourges, espalhou-se pela França e depois pelo mundo.

Joana era a primeira a dar o exemplo do mais perfeito espírito evangélico. Renunciou a todos os seus bens, dos quais não se utilizava senão com a aprovação do Superior da Ordem, vivendo assim na mais perfeita pobreza, obediência e castidade.

União perfeita de corações

São Francisco de Paula foi diretor espiritual de Santa Joana de Valois
A Princesa chegou a um tal grau de oração que, segundo narram as crônicas, estando certo dia em oração durante a Santa Missa, viu num êxtase Nosso Senhor Jesus Cristo e a Santíssima Virgem. Apresentaram-lhe seus corações num prato, pedindo-lhe que ali pusesse também o seu. Joana ficou perplexa, pois procurando-o, não o encontrou. Ficou comprovado, assim, que seu coração estava mais perfeitamente unido ao de Nosso Senhor que a seu próprio corpo
.(5)

Embora tivesse só 40 anos, Joana de Valois, vítima de incurável doença do coração, sentiu que sua vida terrena chegava ao fim. Despediu-se de suas filhas espirituais, dando a cada uma, em particular, um conselho. A 4 de fevereiro de 1505 entregou a Deus sua bela alma, que sustentara corpo tão disforme.

Arrependimento tardio de Luís XII

Durante hora e meia após sua morte, todos podiam ver uma extraordinária claridade em seu quarto, enquanto outras pessoas notaram a presença de uma clara nuvem sobre a igreja das Anunciadas.

Ao mesmo tempo em que os solenes sinos da catedral de Bourges anunciavam seu trânsito para a eternidade, um sinistro cometa apareceu sobre o palácio do Rei Luís XII. Assustado e tardiamente arrependido, ele convidou todos os habitantes da cidade para o esplêndido funeral, honra póstuma que prestava àquela que tanto desprezara em vida.

Joana de Valois foi enterrada com todas as cerimônias devidas à nobreza de seu sangue.

Corpo incorrupto: vítima de ódio herético

Quando foi exumada, 56 anos após sua morte, seu corpo foi encontrado totalmente incorrupto. “Mas no ano de 1562 os heréticos calvinistas, tendo surpreendido as melhores cidades da França e declarado guerra a todas as coisas santas e sagradas, não pouparam as sagradas relíquias dos Santos. Queimaram então o corpo dessa Bem-aventurada Princesa e atiraram suas cinzas ao vento”.(6)

Assim, aquilo que o próprio fruto do pecado original havia poupado – o corpo incorrupto da Santa –, o ódio sectário dos protestantes destruiu.

__________________________

Notas:

1. Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, d’après le Père Giry, par Mgr. Paul Guérin, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, Paris, 1882, tomo II, p. 262.

2. La Grande Encyclopedie, Paris, Société Anonyme de La Grande Encyclopedie, tomo 21, p. 101.

3. John J. Delaney, Dictionary of Saints, Doubleday, New York, 1980. p. 235, verbete Saint Francis of Paola.

4. Cfr. Enciclopedia Cattolica, Città del Vaticano, Casa Editrice G.S. Sansoni, Firenze, 1951, p. 486.

5. Les Petits Bollandistes, op. cit., p. 267.

6. Id. ib., p. 268.

 

 

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