Fevereiro de 2000
Reviravolta
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SOS - Família

Reviravolta

Da família tradicional do início do século, instituída pelo sacramento do matrimônio indissolúvel e monogâmico, à família  pra frente, ou seja, desestruturada, da atualidade

Madre Mariana de Jesus Torres, a quem Nossa Senhora do Bom Sucesso previu, no século XVI, "leis iníquas" que visariam extinguir o Sacramento do Matrimônio, no século XX
J
á no longínquo século XVII, em Quito (Equador), Nossa Senhora, sob a invocação do Bom Sucesso, previu, em revelações a Madre Mariana de Jesus Torres, religiosa concepcionista, a terrível decadência da fé e dos costumes no século XX. Numa das revelações, Ela se refere explicitamente à quase extinção do Sacramento do Matrimônio em nossos dias, pela implantação de “leis iníquas” – uma delas, certamente, a lei do Divórcio.  “Quanto ao Sacramento do Matrimônio, que simboliza a união de Cristo com a Igreja, será atacado e profanado em toda a extensão da palavra. .... Impor-se-ão leis iníquas com o objetivo de extinguir esse Sacramento, facilitando a todos viverem mal, propagando-se a geração de filhos mal-nascidos, sem a bênção da Igreja. Irá decaindo rapidamente o espírito cristão”. *

1900 – 2000

Na edição especial da revista “Veja” de 22-12-99 – comemorativa do século XX –, na seção Comportamento, há uma estarrecedora comparação entre o número de separações matrimoniais do início do século XX com as do fim deste:

“De cada 86 casamentos em 1900, um terminava em separação. Hoje ocorre um divórcio a cada seis uniões”.

Nem todas as pesquisas coincidem com esses dados. Segundo outras estatísticas, na primeira década do século as separações eram ainda menores, e na última década o número de divórcios é maior que o publicado por “Veja”.

Mas, em todo caso,  tomaremos como base a informação desse  semanário, pois o tombo nele constatado não é pequeno. Ou seja, no início de nosso século a porcentagem de separações matrimoniais era de 1,16%; e neste fim de século a porcentagem de divórcios é de 16.66%.

Profunda transformação das mentalidades

Como explicar este “tombo moral”? O que se passou nas mentes, a ponto de levar muitos a julgar hoje normal aquilo que há 100 anos era considerado pela grandíssima maioria das pessoas uma aberração? Se os princípios básicos da moralidade não mudam, o que se alterou então? A verdade moral  revelada por Deus, consubstanciada nos Mandamentos do Decálogo? A lógica? A crise econômica? – Não! Uma crise moral e religiosa!

Na época de nossos bisavós, as famílias, constituídas pelo casamento indissolúvel e monogâmico, pautavam geralmente sua conduta por princípios firmes e objetivos
No início do século, o casamento baseava-se em sólidas razões e convicções. Depois, foi deslizando na rampa escorregadia dos sentimentos vaporosos, em que as disposições mutáveis do coração foram substituindo os princípios racionais iluminados pela fé. Hoje em dia deu-se mais um passo: é o mero instinto carnal que, não raro, dita normas em matéria de união dos sexos. Ainda no início do século XX, existia uma como que “barreira de horror” entre as famílias bem constituídas e os “casais” divorciados. Atualmente, tal “barreira” quase...  não mais existe. Daí a mudança de comportamento que “Veja” constata.

Precursor do divórcio entre os esposos, um divórcio em relação à doutrina e às normas estabelecidas pela Santa Igreja Católica em obediência aos Mandamentos divinos, debilitou os bons e tradicionais costumes, levando os homens a uma posição relativista em face da religião e da moral. Tal posição não apenas nega a doutrina católica – ao menos pela via dos fatos – mas faz tábula rasa da própria existência de uma verdade objetiva. “Não há verdade, nem erro; nem bem, nem mal”, é o que está na base das posições relativistas. Daí, passa-se a desprezar a lógica e a razão, deixando-se o homem guiar pelas próprias emoções e pelas paixões desordenadas, não mais orientadas pela inteligência.

Relativismo: um “mal do século”

Tal constatação histórica leva-nos à seguinte reflexão: aqueles princípios que, na época de nossos bisavós, constituíam verdades firmes e objetivas, conhecidas por todos (casamento indissolúvel e monogâmico, por exemplo), na época de nossos avós foram sendo silenciados e se adelgaçaram. Na época de nossos pais... transformaram-se, em grande parte dos casos, em simples hábitos mentais, herdados dos antepassados. Hábitos estes suficientes ainda para se “equilibrarem” enquanto costume social, mas não sabendo já encontrar sua justificativa diante dos outros nem de si mesmos, prontos para capitular frente à primeira investida da Revolução moral; do divórcio que batia às portas, por exemplo.

Conseqüência: sem uma formação moral adequada, os filhos tornam-se permissivistas, vivem como folhas soltas, sem nenhum vínculo que os segure à “árvore” familiar. Pois os pais, não vivendo mais de acordo com o que ensina a Igreja, Mãe e Mestra da Verdade, não dispõem de argumentos para reter a prole junto a si. Ao menor sopro – ao menor desentendimento –, por um simples capricho, segue-se o apelo do divórcio. Ou, o que vai ficando comum, nem sequer se casam!

Sobre esse “mal do século” alertou João Paulo II, ao condenar o “relativismo intelectual e moral” que leva a pôr em dúvida a Verdade revelada e desde sempre ensinada. Ver quadro na  p. ao lado.

*    *    *

Relembrado ensinamento de ontem e de sempre

 

"É necessário admitir realisticamente e com profunda e sentida sensibilidade que os cristãos hoje, em grande parte, sentem-se perdidos, confusos, perplexos e até desiludidos: foram divulgadas prodigamente idéias contrastantes com a Verdade revelada e desde sempre ensinada; foram difundidas verdadeiras e próprias heresias, no campo dogmático e moral, criando dúvidas, confusões e rebeliões; alterou-se até a Liturgia; imersos no ‘relativismo’ intelectual e moral e por conseguinte no permissivismo, os cristãos são tentados pelo ateísmo, pelo agnosticismo, pelo iluminismo vagamente moralista, por um cristianismo sociológico, sem dogmas definidos e sem moral objetiva."

(Alocução de João Paulo II, 6-2-81, aos Religiosos e Sacerdotes participantes do I Congresso Nacional Italiano sobre o tema "Missões ao Povo para os Anos 80", in "L'Osservatore Romano", 7-2-81).

 

*    *    *

Tendo ocorrido esse como que divórcio em relação à verdade ensinada pelo Magistério infalível da Igreja, somente o retorno a Esta poderá salvar as famílias do naufrágio, uma vez que a Esposa de Cristo é nossa única tábua de salvação.

Para se efetuar esse retorno – e assim salvar a instituição da família da gravíssima crise que sobre ela se abateu, contaminando-a com os erros do século – é necessário:

insistir sempre nas imutáveis normas da Santa Igreja a respeito do sagrado vínculo conjugal;

não esquecer jamais as principais finalidades do matrimônio: a perpetuação da espécie humana e a educação dos filhos; e também o mútuo auxílio nas adversidades da vida;

recordar as leis estabelecidas por Deus para o matrimônio:  o casamento é monogâmico (celebrado entre um só homem e uma só mulher) e indissolúvel até a morte de um dos cônjuges. Ver quadro  abaixo).

*    *    *

Pseudo-moral  permissivista choca-se com o doutrina católica

 

Recordemos aqui o que o Concílio de Trento (1545-1563) – durante o qual foi definido o caráter sacramental e indissolúvel do vínculo matrimonial entre cristãos, doutrina portanto sagrada e intocável que nenhum católico pode negar sem incorrer em excomunhão – afirma a respeito do casamento cristão:

"Se alguém disser que o vínculo do matrimônio pode ser dissolvido pelo cônjuge por motivo de heresia, de molesta coabitação ou de abandono do lar – seja excomungado" (Concílio de Trento, Denzinger-Schoenmetzer, "Enchiridion Symbolorun", 1805).

"Se alguém disser que a Igreja erra quando ensinou e ensina segundo a doutrina evangélica e apostólica (Mc 10, 1 Cor. 7), que o vínculo do matrimônio não pode ser dissolvido por causa de adultério de um dos cônjuges e que, nenhum dos dois, nem mesmo o inocente que não deu motivo ao adultério, pode contrair outro matrimônio em vida do outro cônjuge, e que comete adultério tanto aquele que, repudiada a adúltera casa com outra, como aquele que abandonado o marido, casa com outro – seja excomungado" (Concílio de Trento ibid., 1807).

"O vínculo do Sacramento do matrimônio é indissolúvel, e embora por adultério, heresia ou outras causas possam os cônjuges proceder à separação de corpos, não lhes é licito contrair outro matrimônio" (Bento XIV, ibid, 2596).

 

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Para Deus nada é impossível

Algum leitor cético sorrirá diante do que acabamos de dizer. Estamos no ano 2000, objetará ele! Como pensar sequer na possibilidade de uma tal conversão moral? Isso é utopia.

Calma, senhor objetante. Concordamos em que, olhando para as pessoas de hoje, imersas no relativismo moral que acima descrevemos, tal conversão se afigure impossível a um ateu prático.

Mas olhando para Deus... fonte de todo poder e de toda bondade, que vela pelos superiores interesses de sua glória, as maiores conversões -- e as mais inesperadas -- tornam-se possíveis. Ainda quando, para operá-las, Ele tenha de recorrer a castigos inenarráveis e a manifestações surpreendentes de Sua misericórdia. Exemplos históricos não faltam nesse sentido, a começar pela conversão dos bárbaros na Idade Média e a Reconquista espanhola. Sem falar nos prodígios ocorridos no Antigo Testamento.

É, aliás, o que nos foi anunciado, no início do século XX, em Fátima, por Nossa Senhora, excelsa Medianeira entre Deus e os homens.

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(*) Vida Admirable de la Rda. Madre Mariana de Jesús Torres, espanhola e una de las fundadoras del Monasterio real de La Limpia Concepción en la Ciudad de Quito, escrita aproximadamente em 1790 por Frei Maunuel Souza Pereira, O.F.M.

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