Fevereiro de 2000
Judas Macabeu, a espada de Deus
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Grandes Personagens

Judas Macabeu, a espada de Deus

Esse grande herói do Antigo Testamento, na guerra de independência religiosa dos hebreus contra a Babilônia, foi cognominado Macabeu, que significa “Martelo”. Dele diz a Escritura Santa: “Revestiu-se de couraça como um gigante”, “tornou-se semelhante a um leão por suas ações” e “perseguiu os maus, buscando-os por toda a parte” (I Mac. 3, 3-5).

·         José Maria dos Santos

Um dos maiores gênios militares de todos os tempos, Alexandre Magno – a ponto de se tornar o maior imperador da Terra em sua época – encontrou aos 33 anos o invencível inimigo de todo mortal: em 10 dias passou do fastígio da glória humana para o túmulo, em 323 A.C. Sem descendentes, dividiu seu império entre generais e amigos.

A partir de então, a Palestina, juntamente com a Síria, passou a ser dominada pela dinastia dos  Seleucos. Um dos membros dessa dinastia, Antíoco Epífanes (175-163 A.C.), empenhou-se em forçar os  judeus à apostasia da verdadeira Religião (preparatória da vinda de Cristo) para abraçar o paganismo.

Os Livros dos Macabeus (I e II) descrevem esses fatos, estendendo-se por um período de 40 anos, de 175 a 135 A.C.

*     *     *

Antíoco, depois de conquistar o contra Israel. Tomou Jerusalém, profanou o santuário do Templo e levou consigo seu tesouro e vasos sagrados. Dois anos depois, invadiu novamente a cidade santa, matando muitos de seus habitantes. Fortificou a cidadela de Davi, onde deixou uma guarnição. Os moradores de Jerusalém fugiram, ficando a desolada cidade nas mãos dos estrangeiros pagãos.

Antíoco abolia as leis nacionais, a Religião, os usos e costumes das nações conquistadas, obrigando-as a adotar, sob pena de morte, os da Babilônia. Em Israel houve muitas apostasias: “Todos aqueles israelitas que tinham abandonado a lei do Senhor, juntaram-se aos ímpios; fizeram muito mal no país, obrigaram o povo [fiel] de Israel a fugir para lugares afastados, a buscar retiros, onde pudesse esconder-se na sua fuga” (I Mac. 3, 15).

Entre os que não dobraram o joelho ante os pagãos, salientou-se o sacerdote Matatias que, vendo os males que se abatiam sobre seu povo, com seus irmãos e cinco filhos retirou-se de Jerusalém para Modim.

Foi lá que o procuraram os enviados de Antíoco para que ele, como principal e chefe de grande família, desse o exemplo de submissão, sacrificando aos ídolos. Com isso, tornar-se-ia “amigo do rei”. Indignado, respondeu Matatias que, ainda que todos apostatassem, “eu, meus filhos e meus irmãos seremos fiéis à Aliança dos nossos pais” (id. ib., 20).

Nesse momento um judeu, à vista de todos, avançou para oferecer o sacrifício pedido por Antíoco. “Viu-o Matatias e ficou abrasado de zelo: as suas entranhas comoveram-se, inflamou-se o seu furor segundo a lei e, arremetendo contra ele, matou-o sobre o altar; matou também ao mesmo tempo o oficial .... e destruiu o altar”.

E gritou em alta voz: “Todo o que tem zelo pela lei e quer permanecer firme na Aliança, siga-me”. E fugiu com os seus parentes e adeptos para o deserto (id. ib. 24-27).

Guerra Santa em defesa da Aliança com Deus e contra a paganização de Israel

Sucedeu então que os soldados de Antíoco perseguiram uma parte dos judeus que tinha se refugiado no deserto. Estes não quiseram defender-se porque era um sábado, evitando assim profaná-lo, guerreando, segundo a lei judaica. Sabendo disso, Matatias e seus partidários resolveram que, para  não se extinguir os últimos filhos fiéis de Israel, deveriam lutar, qual fosse o dia que os inimigos os atacassem.

E não moveriam apenas guerra defensiva. Juntando força considerável, percorreram vilas e aldeias, perseguiram os judeus apóstatas, circuncidaram os meninos ainda incircuncisos e derrubaram os altares profanados.

 Quando Matatias sentiu próxima a morte, convocou os seus e, entre outras palavras, disse-lhes: “Agora domina a soberba e é o tempo do castigo, da ruína e da indignação. Agora, pois, ó filhos, sede zeladores da lei e dai as vossas vidas pela aliança feita com vossos pais. .... Não temais as ameaças do homem pecador, porque toda a sua glória irá ter ao esterco e aos bichos; .... armai-vos de valor e procedei com valentia em defesa da lei, porque por ela é que sereis gloriosos. Judas Macabeu, de grande valor desde sua mocidade, seja o general de vossas tropas e conduza a guerra contra as nações” (id. 2, 49-50, 62-63, 66).

Judas: tenacidade bélica e “martelo” dos pagãos

Judas, cognominado “Macabeu” (martelo) por sua tenacidade na guerra, era o terceiro filho de Matatias. Seu glorioso cognome passou a ser aplicado indistintamente a seus irmãos e a todos que impugnavam o pacto com os pagãos, como os “sete irmãos Macabeus”, martirizados diante de sua mãe.

General das tropas de Deus contra a prepotência pagã, sua guerra era uma guerra santa. Por isso seus homens tinham que se preparar para ela não só pelo exercício das armas, mas sobretudo pela oração e jejum, sabendo que seria Deus Quem lhes concederia a vitória.

Certa vez, quando Seron, general do exército sírio, cercou os judeus com grande número de homens, os soldados disseram a Judas: “Como poderemos, sendo tão poucos e vindo fatigados do jejum de hoje, pelejar contra tão poderoso exército?”. A resposta foi taxativa: “É coisa fácil virem a cair os muitos nas mãos dos poucos; pois para o Deus do Céu não há diferença entre salvar com um grande número ou com um pequeno, porque a vitória na guerra não depende da grandeza dos exércitos, mas da força que vem do Céu” (id. 3, 17-19). Confirmando essas palavras, 800 inimigos foram mortos e os demais fugiram.

A série de batalhas vitoriosas de Judas Macabeu foi num crescendo até a reconquista de Jerusalém. É tocante ver a indescritível tristeza daqueles valorosos corações à vista do “santuário deserto, o altar profanado, as portas queimadas; nos átrios, arbustos nascidos como num bosque ou nos montes”. Com lágrimas nos olhos aqueles fiéis “prostraram-se com o rosto em terra, e, ao som das trombetas, levantaram gritos ao Céu” (id. 4, 38-40).

Demoliram o altar contaminado pelos sacrifícios aos ídolos, construíram um novo, e assim restauraram-no e seu culto. Para isso, o Macabeu “escolheu sacerdotes sem mancha, cheios de zelo pela lei de Deus, os quais purificaram os santos lugares” (id., ib., 42).

Judas cercou o monte Sião de altos muros e torres, e fortificou a cidade de Betsur, para ter uma fortaleza nas fronteiras da Iduméia.

Deus protege Judas Macabeu e pune chefes jactanciosos

O Arcanjo São Miguel combate ao lado dos Judeus. Segundo os exegetas, São Miguel, protetor da nação judaica no Antigo Testamento, apareceu a cavalo, com hábito branco e armas douradas, vindo em socorro de Judas Macabeu na batalha que este travou contra Lísias - tutor do rei Antíoco - e seus 80 mil homens
Como foi dito, Judas Macabeu e os seus eram sempre vitoriosos, porque Deus assim o queria. E isso ficou comprovado quando ele teve que dividir o exército para atender a vários pedidos de socorro. Enviou seu irmão, chamado Simão, com parte dos homens para a Galiléia, e foi, acompanhado de Jônatas, para Efrom, com outra parte. Deixou José, filho de Zacarias, e Azarias como chefes do resto do exército para proteger a Judéia. Mas deu-lhes ordem estrita de se limitarem a governar e não dar batalha até que eles voltassem.

Ora, ouvindo os grandes feitos de Judas e de Simão nas respectivas empresas, José e Azarias disseram entre si: “Façamos também célebre o nosso nome indo pelejar contra as nações que estão ao redor de nós” (id. 5, 57). Saíram e foram vergonhosamente derrotados, postos em fuga com a perda de dois mil soldados. Comenta a Escritura que eles desobedeceram a Deus para fazer grande seu nome. “Mas não pertenciam à raça daqueles a quem era dado salvar Israel” (id., ib., 62).

Não era com esse espírito que o Macabeu e seus irmãos entravam nas batalhas. Diante do grande exército de Timóteo, “Macabeu e os seus companheiros faziam oração ao Senhor, lançando terra sobre suas cabeças, tendo cingidos os seus rins de cilício”. Enfrentaram-se então os dois exércitos, “tendo uns, além da sua coragem, o Senhor por garantia da vitória e bom êxito das suas armas, e indo os outros ao combate movidos apenas pela sua fogosidade”.

O que sucedeu? “No maior ardor da peleja, apareceram no Céu aos inimigos, cinco homens resplandecentes, sobre cavalos adornados com freios de ouro, que serviam de guia aos judeus. Dois deles, tendo no meio de si Macabeu, cobrindo-o com suas armas, guardavam-no para que andasse sem risco da sua pessoa; lançavam dardos e raios contra os inimigos, que iam caindo feridos de cegueira e cheios de turbação. Foram mortos vinte mil e quinhentos homens de pé e seiscentos cavaleiros  (II Mac. 10, 25-31).

Não foi só nesta ocasião que Anjos foram vistos ajudando Judas Macabeu. Quando Lísias, tutor do rei e seu parente, reuniu 80 mil homens contra ele e os seus, viu-se “um homem a cavalo que ia adiante deles vestido de hábitos brancos, com armas de ouro, brandindo uma lança. Então bendisseram todos ao mesmo tempo ao Senhor misericordioso e encheram-se de coragem, prontos a pelejar não só com os homens, mas também com os animais mais ferozes e a atravessar muros de ferro” (II Mac. 11, 8-9). Os exegetas afirmam que esse Anjo era o glorioso São Miguel, Protetor da nação judaica no Antigo Testamento.

Orações e sacrifícios pelos defuntos: crença no Purgatório

No dia seguinte a uma batalha, Judas fez juntar os mortos e levou-os para serem enterrados no túmulo de seus respectivos antepassados. Sob a túnica de alguns cadáveres encontrou objetos de ouro consagrados aos ídolos, que tinham tomado do inimigo, o que era proibido pela lei judaica. Reconhecendo que por isso tinham sido punidos com a morte,  todos bendisseram o Senhor, justo juiz, que descobre o que está escondido. Em seguida, postos em oração, suplicaram [ao Senhor] que se esquecesse do pecado cometido”. E Judas, “tendo feito uma coleta, mandou duas mil dracmas de prata a Jerusalém, para se oferecer um sacrifício pelo pecado. Obra bela e santa, inspirada pela crença na ressurreição. .... Santo e salutar pensamento este de orar pelos mortos” (cfr. id. 12, 39-46).

Quando, no século XVI de nossa era, o ímpio Lutero começou a negar a existência do Purgatório e a necessidade de se rezar pelas benditas almas que ali padecem, simplesmente excluiu da sua Bíblia reformada, entre outros escritos, os dois Livros dos Macabeus. Com essa simples medida, tentou o heresiarca extinguir a crença numa verdade admitida desde o Antigo Testamento, confirmada no Novo, com  mais de 1600 anos de existência!

Na hora da morte, fé e heroísmo do guerreiro

Finalmente, o glorioso Macabeu recebeu o prêmio de sua bravura. Estando acampado em Elasa com apenas três mil homens, foi ele cercado por um exército de 22 mil. Grande parte dos judeus, tomada de pânico, fugiu, deixando Judas com apenas 800 homens. Mesmo estes propuseram fugir para reorganizar o exército. Respondeu o Macabeu: “Longe de mim  fugir à vista deles. Se é chegada a nossa hora, morramos valorosamente por nossos irmãos, e não manchemos  nossa glória com esta nódoa”. Apesar do pequeno número, Judas e os seus resistiram da manhã à tarde, até que o heróico general, sendo envolvido pelas duas alas do exército inimigo, foi morto pelos adversários.

Impossível seria narrar neste limitado espaço todas as grandes batalhas desse imortal guerreiro. O mesmo se deu com o escritor sacro, autor do I Livro dos Macabeus, que adverte: “As outras narrações das guerras de Judas, das façanhas que operou e da sua grandeza, não se acham escritas, porque eram muito numerosas  (I Mac. 9, 22). 

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