Fevereiro de 2018
O NÃO ao desarmamento no Brasil
Nacional

O NÃO ao desarmamento no Brasil

O resultado do referendo revelou claramente — com o categórico e eloqüente NÃO — que o Brasil verdadeiro, o Brasil católico, rejeita as idéias esquerdistas que há décadas se procura impor ao País

Plinio Vidigal Xavier da Silveira

Ocorreu no Brasil, no dia 23 de outubro último, o primeiro referendo sobre o desarmamento realizado no mundo. Para grande surpresa do governo brasileiro, da mídia e do clero de esquerda, 64% dos eleitores disseram NÃO à pergunta: “O comércio de armas e munições deve ser proibido no Brasil?”. Somente 36% foram a favor da proibição. A abstenção girou em torno de 20%. Chamou a atenção que os votos em branco e nulos somaram apenas 3%, porcentagem muito inferior à das últimas eleições para o Legislativo e Executivo.

Os cientistas políticos e a mídia em geral manifestaram sua surpresa, sem saber explicar o que se passou. Agora, com um certo recuo, é a hora de fazer uma análise que possa explicar esse resultado.

Transição para a democracia

Retrocedamos um pouco no tempo. Em 1985, após 20 anos de governo militar que se iniciara em 1964, por ocasião de um grande movimento popular de repúdio à ameaça comunista, representada pelo então Presidente João Goulart, o Brasil voltou a ter eleições diretas para presidente. O primeiro presidente eleito a tomar posse foi Fernando Collor, que derrotou Lula da Silva em 1989.

A partir de dezembro de 1992 (com o impeachment de Collor e a posse de seu vice, Itamar Franco), os políticos armaram situações em que a eleição presidencial — a partir de 1994 — sempre se resolvia entre a social-democracia esquerdista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o populismo trabalhista da ultra-esquerda. Nas quatro eleições realizadas — 1989, 1994, 1998 e 2002 — o atual presidente Lula da Silva foi candidato pelo PT. Assim, nas três últimas eleições, a alternativa apresentada era esquerda versus esquerda, ambas com acentuada conotação marxista.

Foi essa situação que levou o deputado Raul Jungman, do antigo e fracassado Partido Comunista Brasileiro (hoje PPS), a declarar em entrevista à rádio CBN, em 24-10-05: “O pêndulo sempre esteve a nosso favor desde o fim da ditadura. Ele sempre esteve de nosso lado. Ainda quando perdemos, como foi o caso Collor, nós tivemos força para bloquear a agenda dele e o Collor foi realmente ‘impeachado’, saiu do poder. Daí para frente, Itamar somos nós, Fernando Henrique somos nós, o Lula somos nós”.

A eleição de Lula

Em 2002 foram quatro os candidatos à presidência: Lula da Silva (PT), José Serra (PSDB), apoiado pelo então presidente Fernando Henrique, Anthony Garotinho (PDT), herdeiro de Leonel Brizola, e Ciro Gomes (PPS). No segundo turno, o atual presidente Lula obteve 60% dos votos.

Uma campanha baseada no “Lulinha Paz e Amor” acabou elegendo o líder sindical para a presidência da República. Na obtenção desse resultado, foi decisiva a crença de que o PT, embora muito esquerdista, era um partido sério, que lutou e continuaria a batalhar energicamente contra a corrupção.

Durante o governo Lula, uma bem orquestrada propaganda de imprensa tem apresentado dados indicativos de um sucesso econômico extraordinário, criando a impressão de que o País vai às mil maravilhas. Isso justificaria que o governo — apoiado pela CNBB e pelo MST — viesse a promover com rapidez uma Reforma Agrária drástica, com invasões de terras e graves ameaças aos fazendeiros em geral.

O Estatuto do Desarmamento

Em fins de 2003 o Congresso aprovou, sob enorme pressão política do governo, projeto de lei que proíbe o porte de armas à população em geral e restringe de modo substancial a legítima defesa dos homens de bem. O próprio ministro da Justiça, o criminalista Márcio Thomaz Bastos, afirmou que o Estatuto do Desarmamento visava tirar as armas dos homens de bem, pois desarmar os criminosos é função da polícia.

Passados dois anos da aprovação do Estatuto do Desarmamento, as autoridades vangloriam-se de ter recebido quase 500 mil armas da população civil. Estatísticas de pouca credibilidade foram alardeadas pela imprensa, para dar a entender que a criminalidade diminuíra em função dessa arrecadação de armas.

A propaganda do referendo

Marcou-se para o dia 23 de outubro o referendo para os eleitores responderem se “o comércio de armas e munições deve ser proibido no Brasil?. Na redação da pergunta, já se notava uma confusão. A resposta SIM seria contrária ao comércio de armas e munições. O NÃO significaria ser favorável a esse comércio. O SIM é NÃO e o NÃO é SIM, como alguém o definiu.

A pergunta restrita à questão do comércio de armas e munições se prestava ainda a outras confusões. Pois os eleitores votariam, de fato, para revelar sua posição em relação ao direito de um civil exercer a legítima defesa.

A propaganda eleitoral gratuita de rádio e TV a favor do SIM, durante 20 dias, tornou-se uma leviandade. Baseou-se em dois pontos principais: a) declarações de artistas, políticos e empresários favoráveis ao SIM; b) argumentação casuística-ridícula do tipo "eu conheço uma senhora cujo filho faleceu vítima de um disparo acidental feito por seu irmão menor...”

Os contrários ao desarmamento afirmavam que os governos vêm progressivamente eliminando três direitos: à propriedade, a constituir uma família cristã e à legítima defesa.

Reação conservadora

Um mês antes do referendo, segundo a mídia, as pesquisas indicavam 80% de eleitores favoráveis ao desarmamento. O resultado final inverteu completamente o quadro: 64% votaram NÃO. A que se deveu essa mudança tão radical? Seria simplificação inaceitável dizer que foi somente resultado da propaganda eleitoral. Na realidade, outros elementos precisam ser considerados, e parecem ter sido os decisivos:

Normalmente o eleitor escolhe entre candidatos –– João ou José –– porque o cantor de sua preferência recomenda o nome de um deles. Mas quando entra ideologia, tudo é diferente;

As acusações de corrupção contra o governo Lula, e também contra alguns de seus adversários, encontraram os eleitores insatisfeitos, cansados de escolher entre João e José sem acreditar em nenhum deles;

Há quase 50 anos os eleitores brasileiros não têm possibilidade de votar em um candidato presidencial que se oponha realmente à esquerda;

Uma opinião pública com as características intuitivas do povo brasileiro viu-se na seguinte situação: aprovar todos os últimos governos que vinham gradativamente socializando o País; ou manifestar sua inconformidade com a crescente atuação de governantes que interferem cada vez mais nos direitos individuais, de molde a implantar no Brasil nova “experiência” socialista, repetindo situações já fracassadas em outras nações.

Inconformidade com a esquerda

Análise mais profunda do que se passou parece conduzir inevitavelmente a uma pergunta: estará crescendo no Brasil, de modo semelhante ao que vem ocorrendo nos Estados Unidos, uma reação na população majoritariamente católica vulnerada em suas convicções, a qual reage de modo a manifestar sua inconformidade com o esquerdismo?

Analogamente poder-se-ia perguntar sobre o “NÃO” à Constituição Européia, ocorrido em plebiscitos realizados na França e Holanda. Representaria a busca da fidelidade daqueles povos às verdadeiras raízes cristãs da Europa, e um protesto à indébita ingerência de um Poder público europeu em cada país independente?

A análise dessas questões, com profundidade e sem paixão, parece levar-nos a uma conclusão inevitável: os brasileiros manifestaram sua inconformidade quanto a um sistema que lhes vem sendo imposto há décadas e rejeitaram idéias anticatólicas e esquerdistas. Os políticos deveriam entender o claro recado eleitoral que o referendo lhes passou.