Religião

Jesus ressuscita o filho da viúva de Naím

E aconteceu que (algum tempo) depois ia Ele para uma cidade, chamada Naím; e iam com Ele os seus discípulos e muito povo. E quando chegou perto da porta da cidade, eis que era levado um defunto para ser sepultado, filho único de sua mãe. E esta era viúva; e ia com ela muita gente da cidade. E, tendo visto o Senhor, movido de compaixão para com ela, disse-lhe: Não chores. E aproximou-se, e tocou no esquife. E os que o levaram pararam. Então disse Ele: "Jovem, eu te digo, levanta-te". E sentou-se o que tinha estava morto e começou a falar. E (Jesus) entregou-o à sua mãe.

Comentários compilados por Santo  Tomás de Aquino na
"Catena Áurea"

 

São Beda –– Naím é uma cidade da Galiléia que dista duas léguas do monte Tabor. Por permissão divina, acompanhava uma grande turba o Senhor, para que presenciasse o milagre tão grande que ia fazer: pelo que segue: "E seus discípulos iam com Ele, e uma grande multidão de povo".

São Gregório de Nissa - "A qual era viúva. E vinha com ela muita gente da cidade". Estas poucas palavras expressam a intensidade de sua dor. Era mãe viúva, e já não esperava ter mais filhos: nem tinha outro a quem fitar em lugar do defunto, somente havia criado a este e ele só era toda a doçura e todo o tesouro da mãe.

São João Crisóstomo - Consolando a tristeza e fazendo cessar as lágrimas, (Jesus) nos ensina a consolar­-nos da perda de nossos defuntos, esperando a ressurreição: toca, pois, o féretro, saindo a vida ao encontro da morte; pelo que segue: "E se aproximou".

São Cirilo - Não fez este milagre só com a palavra, mas também tocou o féretro, para que compreendamos a eficácia do sagrado Corpo de Jesus para a saúde dos homens. E, com efeito, o corpo de vida e a carne do Verbo onipotente, de quem se origina a virtude; pois assim como o ferro unido ao fogo produz os efeitos do fogo, assim a carne, uma vez unida ao Verbo que dá vida a todas as coisas, se faz também vivificadora e expulsadora da morte.

Tito Bostrense - O.Senhor não era semelhante a Elias, que chorava a morte do filho da viúva de Sarepta, nem como Eliseu, que aplicou seu próprio corpo ao corpo de um defunto, nem como São Pedro que rogou por Thabita, mas é Ele quem chama o que não existe como ao que existe; que pode falar aos mortos como aos vivos.

Imediatamente se levanta aquele a quem se dirige a ordem: ao poder de Deus nada resiste; não há nenhuma tardança nem tampouco orações; pelo que segue: "E sentou-se o que havia estado morto e começou a falar, e lhe deu à sua mãe". Indícios são estes de verdadeira ressurreição; pois um corpo morto não pode falar, nem tampouco a mulher teria levado para sua casa um filho morto e inanimado.

São Beda - Diz o evangelista que o Senhor se moveu primeiro à misericórdia quando viu a mãe, e que depois ressuscitou o filho, para dar-nos, por um lado, um exemplo de misericórdia; e, por outro, um motivo de crer em seu poder maravilhoso; pelo que segue: "E tiveram todos grande medo e glorificavam a Deus".

 

Comentários do Padre Luís Cláudio Fillion

Este episódio situada uma jornada de Cafarnaúm. Este nome, que significa em hebreu "A Bela", está perfeitamente justificado por sua linda posição. Localiza-se na vertente setentrional do Pequeno-Hermon, e da altura saliente que lhe serve como que de trono, contempla aos seus pés a vasta e fértil planície de Esdrelon; diante dela, as colinas povoadas de árvores da Baixa Galiléia, sobre a qual dominam os picos nevados do Líbano e do Grande-Hermon. A perspectiva hoje é a mesma; mas de Naím não resta mais que um vilarejo miserável.

Jesus ia acompanhado não só de seus discípulos, mas de inumerável povo que não se fartava de vê-Lo e ouvi-lo. No ponto em que ultrapassava com seu séqüito a porta da cidade, outro cortejo fúnebre a atravessava em sentido contrário. Era levado ao cemitério, situado, segundo o costume, a certa distância das casas da cidade, um jovem, morto' na flor da idade, filho único que deixava uma mãe viúva, sem apoio, sem esperança, sem consolo. Por simpatia a uma dor tão digna de compaixão e tão pungente, havia assistido aos funerais grande número de moradores da aldeia. Muito perto de Naím, onde sem dúvida estava então o campo dos mortos, vêem-se ainda muitos sepulcros abertos na pedra; encontram-se ao leste, junto à rampa ou declive escarpado pela qual chegava o Salvador.

À vista da mãe angustiada que conduzia seu filho ao cemitério, o coração de Jesus sentiu-se comovido por uma profunda compaixão. Quando chegou a passar a viúva perto d’Ele, disse-lhe: "Não chores"; e aproximando-se em seguida, tocou o féretro aberto no qual o cadáver coberto com um lenço e o sudário era conduzido ao cemitério. Os que o levavam, sensibilizados pela majestade que brilhava no rosto de Jesus, se detiveram. Então o Divino Mestre, em meio ao silêncio e à atenção de todos, exclamou com acento de autoridade irresistível: "Jovem, eu te ordeno, levanta-te". No mesmo instante, o defunto recobrou a vida e começou a falar. Há algo, segundo se disse, um não sei quê de "inefavelmente doce" no traço final: "E Jesus o entregou à sua mãe".

A sensação produzida por esse prodígio foi imensa. Os mais imediatos ao fato foram tomados primeiro de estupor e temor respeitoso; mas logo sucedeu a esse um sentimento mais nobre que se apoderou de todos, com um profundo reconhecimento para com Deus.

 

Pe. Luís Cláudio Fillion, Nuestro Señor Jesucristo según los Evangelios, Editorial Difusión, Tucumán, 1859, pp. 147-148.

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